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Conhecendo a vizinhança

Nos últimos dez anos, cerca de 100 novos planetas foram encontrados na órbita de estrelas a 50 ou mais anos-luz do Sol

Leandro Steiw

Por incrível que pareça, até recentemente os únicos planetas conhecidos pelo homem eram os nove do sistema solar. Somente com o aperfeiçoamento dos métodos de detecção foi possível chegar à descoberta dos primeiros planetas extra-solares. Os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra, foram os pioneiros. Em 6 de outubro de 1995, eles anunciaram ter encontrado um planeta na órbita da estrela 51 de Pégaso – uma extensa constelação boreal que pode ser observada no quadrante norte do céu, nas proximidades de Peixes e Aquário. O 51 de Pégaso B (a letra “B” é para diferenciar o planeta da estrela) tem cerca de metade da massa de Júpiter – o maior planeta do sistema solar – e está mais próximo de sua estrela do que Mercúrio se encontra em relação ao Sol, o que significa que a temperatura em sua superfície deve superar facilmente a casa de 1 000 graus Celsius.

Os astrônomos Mayor e Queloz usaram a técnica da variação espectral (leia na página ao lado). Desde que identificaram o 51 de Pégaso B, mais de 100 novos planetas foram encontrados na órbita de estrelas a 50 ou mais anos-luz do Sol. Além de comprovar a teoria de que nosso sistema solar não é único, a observação da dupla de cientistas elevou em alguns graus a acalorada discussão sobre a existência ou não de vida em outros pontos do Universo. Os conhecimentos a respeito dessa centena de vizinhos galácticos ainda são limitados, portanto, insuficientes para corroborar os argumentos de partidários ou contrários à tese de que não estamos sozinhos. A maioria dos planetas extra-solares conhecidos são gigantescas bolas de gases, com massas equivalentes ou superiores à de Júpiter. Estão próximos demais da estrela central, reduzindo as probabilidades de terem água líquida e, conseqüentemente, vida. Porém, os métodos de detecção atuais são mais sensíveis a planetas maiores e poderiam passar batidos pelos menores.

Nos últimos dez anos, os cientistas continuaram garimpando – sem sucesso – corpos celestes semelhantes à Terra em busca de respostas a duas questões básicas: nosso sistema solar é um caso especial ou é igual à maioria? E, se existirem outros sistemas parecidos com o nosso, com planetas rochosos relativamente perto da estrela, haverá condições para a vida? “O estudo desses planetas nos permitirá reconstruir a história da vida na Terra e, quem sabe, descobrir vida em outros”, diz o físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor catedrático do Dartmouth College, nos Estados Unidos.

O impacto da descoberta

A descoberta dos planetas extra-solares amplia o campo de busca de sistemas parecidos com o nosso. Estudando esses corpos, poderemos reconstruir a história da vida na Terra. E talvez encontrar vida em outros planetas

Ver o invisível

Astrônomos descobriramplaneta extra-solar mesmosem enxergá-lo

Encontrar um planeta fora do sistema solar não é tarefa fácil, mesmo para astrônomos tarimbados. Os planetas são corpos celestes sem luz própria, tremendamente ofuscados pelo brilho bilhões de vezes superior da estrela central. Ao achar o primeiro planeta extra-solar, Mayor e Queloz não viram o dito-cujo. Os cientistas usaram a técnica da variação espectral, medindo a influência gravitacional do objeto no movimento da estrela 51 de Pégaso. Para um observador na Terra, é como se a estrela brilhasse menos toda vez que o planeta passa em frente a ela. Os astrônomos não “enxergaram” a sua descoberta, mas sabiam que ela estava lá – pois conheciam as características e o comportamento dos diferentes tipos de corpos celestes. Monitorando a 51 de Pégaso por meses, eles verificaram a repetição do fenômeno a cada 4,2 dias, tempo que o planeta leva para dar uma volta completa em torno da estrela. Pela análise espectral, também foi possível determinar a composição química do novo vizinho