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Corrida Espacial: O Retorno

A China é a nova Rússia. E a iniciativa privada, a nova Nasa. Começa uma nova era na exploração espacial, e todos têm um objetivo: chegar antes a Marte, e abrir a primeira fronteira interplanetária de todos os tempos.

Por Salvador Nogueira Atualizado em 31 out 2016, 19h02 - Publicado em 27 nov 2015, 07h00

Começou com um acidente. O ônibus espacial Columbia fez sua última e trágica viagem em 2003, quando explodiu durante a reentrada na atmosfera. O choque obrigou a Nasa a repensar o futuro de seu programa espacial. Ficar simplesmente lançando seus velhos ônibus espaciais em órbita, correndo o risco de matar sete astronautas a cada missão malsucedida, não parecia ser uma alternativa.

Daí em diante a Nasa decidiu aposentar os ônibus, recolocando seus olhos na exploração do espaço profundo. E, com o passar dos anos, teceu um novo objetivo: fazer astronautas pousarem em algum asteroide, como preparação para um futuro voo tripulado até Marte.

Ao mesmo tempo, os chineses começaram a colocar as manguinhas de fora. Primeiro, viraram a terceira nação, depois dos russos e americanos, a enviar humanos ao espaço. Então desenharam um plano concreto para cobrir todos os passos já dados pelos rivais: construção de uma estação espacial e viagens à Lua. Estavam fincados os alicerces da nova corrida espacial, agora com americanos e chineses competindo pau a pau.

Em dezembro de 2014, os EUA fizeram seu esforço mais recente para alcançar a dianteira. Testaram, num lançamento experimental, a cápsula que futuramente levará astronautas ao espaço profundo: a Órion – uma versão maior das antigas cápsulas Apollo que fizeram as primeiras viagens à Lua, entre 1968 e 1972. Trata-se da primeira peça da arquitetura exigida para uma missão a Marte.

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Para não ficar para trás, logo em seguida, os chineses anunciaram seu plano para desenvolver algo mais ambicioso que uma cápsula: um ”foguete de alta capacidade”, capaz de lançar astronautas até a Lua. É o Longa Marcha-9 (referência à jornada de 9.650 km que Mao Tsé-tung empreendeu com seu exército de 100 mil homens China afora). O primeiro voo está marcado para 2028 – um elemento necessário para o desenvolvimento de missões tripuladas à superfície da Lua. Antes disso, em 2022, a China pretende concluir sua estação espacial.

O Longa Marcha-9 está mais atrasado que seu equivalente americano – o foguetão SLS, que deve sair do papel em 2018. Mesmo assim, nada é muito seguro para a Nasa. A ideia de gastar bilhões para visitar um asteroide, por exemplo, ainda encontra muita oposição no Congresso americano. Para viabilizar essa meta, inclusive, a Nasa bolou um plano curioso. Em vez de mandar astronautas até os cafundós do espaço para visitar um asteroide, a agência pretende mandar uma nave não-tripulada e então arrastar a pedra espacial até uma órbita aqui pertinho, em torno da Lua. Só então ele seria visitado por astronautas, já que a viagem daqui até a órbita da Lua não custa tão caro assim.

A ideia é que essa missão aconteça em 2025, mas muitos acham que ela não representa um real passo para a viagem a Marte. Afinal, os astronautas vão fazer uma viagem curta demais. Não custa lembrar que um voo até a Lua leva menos de quatro dias. Até Marte, de oito a dez meses. E isso é só a ida…

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Com dificuldades para convencer a opinião pública do valor do esforço, a Nasa pode ficar a ver navios. Os chineses, que por força de seu regime não precisam convencer ninguém de nada, estão numa rota mais lenta, só que mais segura.

Eles em geral são bem reservados quanto a seus planos, mas sabe-se que o programa chinês tem a intenção de estabelecer uma base lunar, que sirva de trampolim para uma aventura até Marte.

Não é improvável, aliás, que a Lua se torne no longo prazo o que a Antártida é hoje – um lugar sem grandes recursos, cujo interesse só se limita à ciência. O planeta vermelho, contudo, é diferente. Ele tem água (congelada, é verdade) em grande quantidade, além de uma atmosfera protetora, que facilitaria o estabelecimento de uma colônia humana.

Ao colocar seus olhos em Marte, os americanos estão mirando o estabelecimento de uma civilização multiplanetária. Há muita gente respeitável, como o físico britânico Stephen Hawking, que sugere ser este o único caminho viável para garantir que nossa espécie não acabe extinta.

Mas talvez só cheguemos mesmo a Marte se um terceiro ator entrar de cabeça na nova corrida espacial: a iniciativa privada. É a aposta da própria Nasa. E realmente: algumas tecnologias desenvolvidas por empresas podem ser especialmente úteis. A Bigelow Airspace, por exemplo, construiu estruturas infláveis, baratas e leves, que podem servir de ”barraca” para astronautas em solo marciano. O primeiro teste de uma dessas barracas espaciais deve acontecer agora em 2015 mesmo, na Estação Espacial Internacional. A estrutura inflável, olha só, vai chegar até lá a bordo de outra criação da iniciativa privada: uma nave cargueira Dragon, operada pela SpaceX, do jovem magnata Elon Musk, um empreendedor que não esconde seu objetivo final: chegar até Marte a qualquer custo.

No momento, a SpaceX já tem contratos para transportar carga e tripulações à estação espacial (a versão tripulada da Dragon deve estrear em 2017). Mas as inovações que Elon tem implementado na tecnologia dos foguetes pode até mesmo dar aos EUA uma vantagem competitiva na corrida ao planeta vermelho. Até os chineses estão assustados com o desenvolvimento da SpaceX. Mesmo praticando baixos salários, eles são incapazes de bater os preços da empresa americana para o lançamento comercial de satélites, por exemplo. E Musk já trabalha em seu próprio foguete de alta capacidade: o Falcon 9 Heavy.

A nova corrida espacial, pelo jeito, é até mais polarizada que a primeira: agora é capitalismo puro (representado pela iniciativa privada) versus uma economia planificada que caminha para se tornar a maior economia do mundo. Agora sim a briga é de cachorro grande. E já aprendemos que não existe combustível mais eficiente para a conquista do espaço do que a rivalidade bruta.

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