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CPI da Covid: um protozoário é mais parecido com você do que com um vírus

Há 1,5 bilhão de anos, dois micróbios deram início a uma parceria inédita: um passou a morar no interior de outro – e a pagar o aluguel respirando para ele. Esse momento pivotal deu origem a nós e aos protozoários também. Vírus? Esses são outra história.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 3 jun 2021, 14h32 - Publicado em 3 jun 2021, 13h46

Um belo dia, há 1,45 bilhão de anos, uma bactéria mais gordinha englobou outra, um pouco menor. Nhac. 

(Para ser totalmente justo, o micróbio maior não era uma bactéria, e sim uma arquea. Trata-se de um tipo inteiramente diferente de microorganismo com uma célula só – que ocupa um domínio separado na árvore da vida.) 

Seria só mais um almoço típico do pré-cambriano, gelatinoso e invisível a olho nu, não fosse a indigestão da arquea. 

A bactéria lá dentro, em vez de ser digerida, virou inquilina. Como um Pinóquio feliz no estômago da baleia, ela fixou residência no citoplasma de seu algoz e passou a trabalhar para pagar o aluguel biológico.

Essa bactéria tinha um talento curioso: era capaz de queimar açúcar usando oxigênio para gerar energia. É que esse gás havia se tornado algo abundante na atmosfera da Terra alguns milhões de anos antes. Um grupo de microorganismos engenhosos evoluiu a fotossíntese e passou a fabricar a própria comida com auxílio da luz do Sol. Do escapamento, saiam moléculas de O2, que lotaram os céus do jovem planeta Terra.

O problema é que, nessa época, o gás vital era letal. O oxigênio, como o nome já diz, oxida as coisas – não só o ferro de bicicletas esquecidas na garagem, mas também seres vivos. Por que você acha que o pessoal fitness é tarado por alimentos antioxidantes? É um pavor ancestral: na época, o mundo era habitado só por micróbios, e a injeção massiva de oxigênio na atmosfera causou a primeira extinção em massa da história da Terra.

Com uma pressão seletiva tão intensa, a seleção natural forjou metabolismos que fossem capazes de tirar proveito do gás em vez de sucumbir a ele. Como? Bem: o oxigênio tem uma propriedade legal. Ele enferruja algumas coisas muito rápido, liberando uma quantidade cavalar de energia no processo. O nome dessa oxidação rápida é combustão.

Uma árvore é feita basicamente de açúcar que você não é capaz de digerir. Celulose. Quando você acende uma fogueira, está queimando esse açúcar (e muitas outras moléculas baseadas em carbono, o texto é uma simplificação) com auxílio do oxigênio para gerar gás carbônico e água. Sim, todo incêndio, paradoxalmente, gera água – ainda que não água suficiente para apagá-lo.

A respiração dos seres vivos é só um incêndio controlado – uma oxidação domada por um complexo processo bioquímico para gerar energia de maneira altamente organizada, em vez de liberá-la no ambiente a esmo. É por isso que você respira oxigênio e expira gás carbônico. Você é movido por trilhões de fogueiras microscópicas high tech no interior das suas células.

O que isso tem a ver com o texto lá em cima? Calma.

A bactéria engolida era capaz de respirar da maneira como descrevemos acima, e começou a fornecer energia para a arquea em troca de um lar. A arquea gostou: conforme a bactéria se multiplicou em seu interior, ela teve acesso a uma quantidade de calorias inédita na história da vida. Com esse bônus de energia, era possível evoluir estruturas mais complexas e fazer estripulias biológicas interessantes.

Engolido e engolidor se tornaram uma coisa só. A bactéria largou a independência foi promovida a organela – um componente que realiza uma função específica dentro da célula. No caso, respirar. Essa organela ganhou o nome de mitocôndria. Com o tempo, a mitocôndria foi deixando de lado o DNA que usava em sua vida independente para manter só os genes necessários para seu novo estilo de vida. Nossas trilhões de fogueiras high tech são ex-bactérias que largaram a vida de empreendedor e viraram CLT.

  • Essa união, você já percebeu, deu tão certo que deu origem a um tipo totalmente novo de ser vivo. Nós. Esse ser vivo híbrido é o ancestral de cada planta, fungo e animal que existe hoje. Neste ponto da árvore da vida, ocorre a cisão fundamental entre procariontes e eucariontes.

    Os procariontes são as bactérias e arqueas. Elas são, em geral, menores. Não possuem um núcleo para guardar seu material genético. Não possuem mitocôndrias ou outros tipos de ex-bactérias sequestradas.

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    (Veja bem: essa simplicidade toda não significa que sejam “menos evoluídos”. É totalmente errado, na biologia, falar em organismos mais ou menos evoluídos. Cada organismo é adaptado a seu ambiente, e para as bactérias, a simplicidade garantiu a onipresença. Elas vivem em qualquer canto e são, até hoje, as verdadeiras anfitriãs da Terra.)

    Já os eucariontes são os seres com núcleo e mitocôndria, como você, seu cachorro e sua planta. E, antes que eu me esqueça, como os protozoários.

    Pois é. Os protozoários são seres eucariontes de uma célula só. Eles possuem células tão sofisticadas quanto as nossas, pacote completo. Por que andam tão esquecidos, então?

    Bem: além dos fungos, animais e plantas, existe um grupo de eucariontes chamados protistas, que só têm em comum o fato de não terem nada em comum. Esse é um saco de gatos taxonômico, onde vão as algas, protozoários e outros eucariontes muito loucos (como os mofos do lodo, que têm mais de um núcleo por célula e você pode conhecer aqui).

    Alguns eucariontes unicelulares fazem coisas do arco da velha. As algas do gênero Euglena, por exemplo, têm uma região em seu traseiro microscópico repleta de moléculas sensíveis à luz. Quando ela percebe que está no escuro, aciona seu flagelo para nadar até um lugar iluminado e fazer fotossíntese. Sim. Ela é tipo uma planta miscroscópica que persegue o Sol. O melhor dos reinos animal e vegetal, numa célula única. Nem a Polishop faz uma oferta tão boa.

    Conclusão? Nós e os protozoários somos eucariontes, que compartilham uma história evolutiva única e um bocado de mitocôndrias. De fato, os seres vivos unicelulares que se uniram para dar origem a organismos grandes como nós provavelmente eram parecidos com protozoários. Eles são nossos tataratataratataratataravós.

    Os vírus, por sua vez, são uma história completamente diferente.

    De acordo com a maioria dos biólogos, os vírus sequer podem ser considerados seres vivos, pois não são capazes de se reproduzir sozinhos: precisam sequestrar o maquinário de células – sejam elas solitárias bactérias ou células eucariontes como as nossas.

    Uma aura de mistério paira em torno de sua evolução. Talvez, vírus sejam bactérias que se tornaram progressivamente mais simples – e abandonaram a independência reprodutiva em prol do parasitismo.

    Talvez, sejam pedacinhos de material genético que evoluíram uma certa independência pulando de bactéria em bactéria (bactérias são notáveis trocadoras de genes; instalam DNA novo em si próprias com a mesma facilidade que Neo baixa programas em si próprio no filme Matrix).

    Por fim, é possível que, por serem tão simples, os vírus na verdade tenham sido as primeiras entidades replicantes da natureza. A origem da vida.

    Essas três hipóteses não são mutuamente excludentes. Nada impede que todos esses processos tenham ocorrido na Terra pré-histórica – e continuem ocorrendo até hoje. Alguns dos vírus existentes hoje podem ser descendentes de nossos primeiros ancestrais, outros podem ser ex-bactérias, outros podem ser trechos de material genético que declararam independência.

    Vírus, embora mal estejam vivos, são vida na forma pura: a única razão de sua existência é se multiplicar. Os que não eram tão eficazes nessa tarefa foram subjugados pelos que eram. A quantidade modesta de material genético no interior da cápsula do vírus fornece apenas os recursos necessários para que ele invada uma célula e produza cópias de si mesmo.

    A moral da história é que você e o protozoário tem uma longa história evolutiva comum. E ambos morrem de medo de vírus.

     

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