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Deixem os cérebros sair

A emigração de profissionais qualificados não é perda, mas estímulo à educação e à economia

Por 3 jan 2011, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h48
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Michael Clemens*

“Fuga de cérebros” é uma expressão comum para descrever nas nações em desenvolvimento a saída de profissionais qualificados, como médicos e engenheiros, em busca de dinheiro ou melhores oportunidades em outros países. Muitos especialistas dizem que esse processo suga os maiores talentos de um país. No entanto, hoje um grande volume de pesquisas mostra que o fluxo de profissionais para o exterior pode na verdade beneficiar as duas partes. A ideia de que esse tipo de emigração corresponde necessariamente a uma perda de cérebros é simplesmente um mito.

Pegue o caso das Filipinas. O país envia mais enfermeiras para o exterior que qualquer outro em desenvolvimento; ainda assim, tem mais enfermeiras per capita em casa do que países bem mais ricos, como o Reino Unido. O que ocorre é que a perspectiva de ganhar muito mais no exterior leva mais filipinos a estudar pra conseguir um diploma de enfermagem. Consequentemente, há um aumento líquido no número total de enfermeiras nas Filipinas, mesmo se você levar em conta aquelas que saíram do país. E fenômenos semelhantes acontecem em outros países onde há um grande aumento na emigração de mão de obra qualificada.

Outro mito é que sistemas de saúde nos países em desenvolvimento melhorariam se médicos fossem forçados a permanecer lá. Novamente, pesquisas mostram que essa hipótese é falsa. Na África, por exemplo, o baixo nível de cuidado médico é causado por uma vasta diversidade de fatores, como baixos salários, poucos incentivos para servir em áreas rurais, falta de medicamentos e de equipamentos médicos, saneamento básico falho e infraestrutura de transporte precária. Não há nenhuma relação com o número de médicos que escolhem mudar para outro país. Se houver alguma, ela é positiva: países africanos com maior número de médicos morando em países mais ricos são tipicamente os que têm menor mortalidade infantil, e vice-versa.

Por outro lado, emigrantes também aumentam a riqueza de seu país de origem remetendo valores, estimulando o comércio ao consumir seus produtos no exterior, e gerando renda pelo turismo. Só na República Dominicana mais de 500 mil que residem no exterior viajam para o país de origem todo ano.

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É verdade que, na atual era da informação, em que o capital humano determina mais e mais da riqueza das nações, muitos acreditam que a saída de cérebros vai prejudicar o desenvolvimento de um país. Mas sabemos que o capital humano é complexo: o movimento internacional de mão de obra qualificada incentiva a adquirir educação, leva quantias enormes de dinheiro de volta para o país de origem e contribui para a difusão do comércio, de investimento, de tecnologia e de ideias. Tudo isso não se encaixa confortavelmente em uma expressão simplista como “fuga de cérebros”. É hora de ela ser descartada em favor de uma visão mais rica do potencial humano global e da relação entre movimentação de pessoas e desenvolvimento.

*Michael Clemens chefia pesquisas sobre migração e desenvolvimento do Centro para o Desenvolvimento Global. Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião da SUPER.

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