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Descobertas 12 novas luas em Júpiter – e uma delas é uma pedrinha suicida

Com essa nova dúzia de astros, Júpiter passa a ter 79 luas. Uma delas tem só um quilômetro de diâmetro – e pode trombar com as demais a qualquer momento.

Em 7 de janeiro de 1610 – nessa época, o Brasil ainda tinha dois séculos de colônia pela frente – Galileu Galilei apontou um telescópio rudimentar para o céu e viu o quê? Isso mesmo, luas orbitando Júpiter. As quatro maiores: Io, Europa, Ganimedes e Calisto.

Em 4 de março de 1979, o astrônomo Stephen Synnott analisava fotos da sonda não-tripulada Voyager tiradas na vizinhança de Júpiter. No meio da caminho havia uma pedra – depois identificada como um novo satélite do gigante gasoso: Metis.

Na primavera de 2017, uma equipe de cientistas liderada por Scott Sheppard usava um telescópio no Chile para buscar evidências da existência do Planeta 9 – um astro hipotético que habitaria a periferia do Sistema Solar. Só que aí Júpiter calhou de aparecer justamente na região do céu que eles estavam investigando. E o que eles encontraram?

Isso mesmo, mais luas de Júpiter. Para ser mais preciso, 12 delas – uma das quais está em rota de colisão com as demais. “Calhou de Júpiter estar dentro do nosso campo de visão enquanto procurávamos por objetos extremamente distantes”, disse Sheppard em comunicado. “Assim, nós pudemos casualmente procurar novas luas.”

Deu certo. Com essas novas adições – aprovadas oficialmente pela União Astronômica Internacional (IAU) nesta semana – o maior planeta do Sistema Solar alcança a impressionante marca de 79 satélites naturais.

Agora começa a parte decepcionante: essas luas não têm metade do charme (nem do tamanho) das que já eram conhecidas no século 17. Pense em Europa – cuja espessa camada de gelo encardido esconde um oceano com 100 quilômetros de profundidade. Ou em Io – com montanhas maiores que o Everest e o solo forrado de enxofre.

Pois é. Já os 12 objetos recém-descobertos estão mais para… pedregulhos. São tão pequenos que sua gravidade sequer é suficiente para forçá-los a assumir uma forma esférica.  

Nove deles percorrem órbitas muito abertas – como um carros de corrida fazendo uma curva por fora –, e giram em torno de Júpiter no sentido oposto do de sua rotação (por isso são chamados de retrógrados). Para elas, uma volta em torno do planeta dura dois anos terráqueos.

Esses 9 provavelmente são fragmentos da destruição de três luas maiores que um dia orbitaram o gigante gasoso mais ou menos daquela distância. Como essas luas maiores foram destruídas? Provavelmente por colisões violentas com outros objetos – a vida no Sistema Solar não é fácil.

Dito isso, ainda falta descrever três dos 12 novatos. Dois deles percorrem curvas mais fechadas em torno de Júpiter, que seguem o sentido de rotação do astro. Isso os torna os membros mais recentes de uma família de satélites que já era conhecida – e que demora um pouco menos de um ano para contornar o planeta.

Já o último é o patinho feio. Além de ter menos de um quilômetro de diâmetro – na escala cósmica, está mais para um cascalho que para um satélite –, ele tem um problema básico: gira no mesmo sentido da rotação de Júpiter, mas sua órbita cruza a região das luas retrógradas. Em outras palavras, ele está na contra mão. E eu não preciso explicar porque uma pedra de um quilômetro flutuando na contra mão é um perigo, certo?

Curiosamente, há uma proposta de batizá-lo de “Valetudo” – o que é uma ótima piada em português, mas é só o nome de uma bisneta de Júpiter na mitologia greco-romana.

A descoberta dessa dúzia de luas minúsculas levantou uma questão importante: hoje, ganha o título de satélite qualquer objeto que gire em torno de um planeta e cuja órbita possa ser estabelecida com confiança. Mas com técnicas de detecção e análise cada vez mais sofisticadas, é natural que sejam encontradas cada vez mais pedrinhas pegando carona na gravidade de planetas gigantes.

O exemplo extremo são os anéis de Saturno. Eles são formados por incontáveis partículas de poeira – que poderiam ser consideradas satélites individualmente de acordo com o critério atual, por mais ridículo que isso soe. Será que chegou a hora de estabelecer um critério mais duro? Um tamanho mínimo para se classificar um objeto como satélite?

“A minha opinião é: quem se importa?”, disse ao New York Times Michael Brown – o astrônomo cujas descobertas desencadearam o processo de rebaixamento de Plutão de planeta para planeta-anão. “Lua contra anéis é uma distinção fácil de fazer. Lua contra pedrinhas, poeira e outras coisas que não são anéis já é bem mais difícil. Não há um lugar razoável para traçar a linha. Então eu não traçaria.”

Pois, é leitor. Chegou a hora de procurar um pedregulho em torno da Terra. Quem sabe você não ganha uma lua para chamar de sua?