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Descoberto cometa que tem sua própria aurora

É uma aurora invisível a olho nu, é verdade – fica na faixa ultravioleta do espectro. Mas é a primeira vez que cientistas flagram um brilho do tipo fora de planetas ou luas.

Por Guilherme Eler - 25 set 2020, 19h12

Aqui na Terra, a formação de auroras segue uma receita simples: primeiro, partículas eletricamente carregadas que o Sol emite – e que ficam acumuladas em regiões polares – interagem com gases das camadas mais altas da atmosfera. Essas partículas, então, fazem as moléculas dos gases ganharem energia. Aí, a energia acumulada é liberada na forma de um show de luz. A cor verde, a mais comum, é resultado da alta concentração do gás oxigênio. Mas, dependendo da região dos polos onde acontecem – e do tipo de gás disponível no local –, auroras podem ganhar tons diferentes.

Astrônomos já sabiam que esse espetáculo polar não é exclusivo da Terra. Planetas como Marte, Saturno, Urano, Netuno e até mesmo as Luas de Júpiter também têm suas versões da aurora. Agora, surgiram as primeiras evidências de que um outro corpo celeste é capaz de emitir luzes do tipo. Trata-se de um cometa, batizado 67P/Churyumov-Gerasimenko, e que foi observado de perto pela primeira vez em agosto de 2014.

Quem primeiro se aproximou do 67P/Churyumov-Gerasimenko foi a missão Rosetta, da ESA (a Nasa europeia), que foi lançada em 2004 e destruída em 2016 – após se espatifar de propósito, quem diria, no próprio 67P. A radiação ultravioleta que o tal cometa emitia chamou atenção logo de início. Astrônomos chegaram a pensar que ela era fruto da interação de partículas com o “coma”, um envelope de gás que envolve o cometa. Mas uma nova análise de dados, como explica um artigo recém-publicado na revista científica Nature Astronomy, mostrou que não era exatamente isso.

O processo, na verdade, é semelhante ao que acontece em Europa e Ganímedes, duas das Luas de Júpiter. Partículas energizadas vindas do Sol interagem com o gás na “coma” do cometa. Isso faz com que as moléculas de água presentes ali se separem. Alguns dos átomos de oxigênio e hidrogênio, então, emitem uma luz ultravioleta única.

Vale, aqui, uma explicação: a aurora emitida pelo asteroide é diferente da que estamos habituados a ver por aqui. Sobretudo pelo fato de ela ser invisível. “Mas que frustrante!”, você, leitor, pode estar pensando. Longe disso: apesar de não serem detectadas a olho nu, elas estão no espectro ultravioleta, e podem ser flagradas por sensores à bordo de missões espaciais, como foi a Rosetta.

“A Rosetta não para de nos presentear”, disse Paul Feldman, um dos co-autores do estudo, em comunicado. “Os valiosos dados que ela coletou ao longo de sua visita de dois anos ao cometa nos permitiu reescrever o que sabemos sobre esses habitantes mais exóticos de nosso sistema solar. E pelo que consta, há muito mais por vir”.

De acordo com os cientistas, estudar auroras pelo Sistema Solar pode servir, também, para entender melhor os efeitos do chamado “vento solar” – a coleção de partículas energizadas que o Sol emite. Além de criarem show de luzes nos polos da Terra – e uma aura invisível no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko – essas partículas também tem seu lado negativo, atrapalhando o funcionamento de satélites e redes elétricas.

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