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Dez animais clássicos criados pela imaginação humana

Alguns, como dragões, sereias e o unicórnios, ainda resistem. Outros caíram no esquecimento, como o basilisco e a mantícora.

Por Jerônimo Teixeira
Atualizado em 31 out 2016, 18h35 - Publicado em 31 out 2003, 22h00

Cérbero

Na Teogonia do poeta grego Hesíodo, Cérbero era um cão com 50 cabeças. Seria difícil equilibrá-las em um só cor- po. A tradição posterior, mais econômica, consagrou o monstro com apenas três cabeças – assim ele é referido pelos poetas latinos Ovídio e Virgílio (e assim aparece na página anterior). Ele também aparece com uma cobra no lugar do rabo, ou com uma cauda venenosa como a do escorpião. Esse cachorro horrendo era encarregado de guardar a casa de Hades, o inferno da mitologia grega. Sua maior responsabilidade era evitar que os mortos saíssem de lá. Trazê-lo à luz do dia foi um dos 12 trabalhos de Hércules (ou Heracles, em grego). O herói atracou-se com o cachorro e domou-o à unha.

Mas, quando apresentou o bicho de três cabeças ao rei Eristeu, que havia encomendado os 12 trabalhos, o monarca ficou tão apavorado que se escondeu dentro de um vaso. Hércules então devolveu Cérbero a seu dono original, Hades. Na Divina Comédia, Dante coloca Cérbero no terceiro círculo do Inferno, onde são castigados aqueles que cometeram o pecado da gula. Com suas três bocas ferozes, o monstro rasga e esfola os podres gulosos.

Unicórnio

Para se aproximar de um unicórnio, animal ligeiro e esquivo, o caçador deve trazer uma jovem virgem para o bosque em que ele habita, deixando-a sozinha, com os seios desnudos, em uma clareira. O unicórnio vem, timidamente, beijar os seios da donzela, que o aninha em seu colo. O pobre bicho acaba adormecendo e assim se deixa capturar ou matar. A lenda repete-se, com algumas variações, em vários bestiários medievais. A moral cristã é óbvia: o unicórnio é Cristo, a virgem é Maria, o caçador são os homens que levaram Jesus à cruz etc. Vale lembrar que, até então, o unicórnio não era o garboso cavalo branco que imaginamos hoje. Seria menor, com corpo de cabra. A característica que se mantém constante é, claro, o chifre único. Outros textos medievais fazem do unicórnio um inimigo do elefante ou do leão. Aliás, o unicórnio e o leão aparecem brigando em um divertido episódio de Alice Através do Espelho – Lewis Carroll usou os dois animais para aludir a disputas políticas da Inglaterra vitoriana.

Na tradição chinesa, a aparição do bicho anuncia o nascimento de um rei virtuoso. Porém, um escritor chinês anônimo do século 9 coloca em dúvida esse sinal de bom agouro, pois ninguém sabe ao certo como será esse animal: “Sabemos que tal animal com crina é um cavalo e que tal animal com cornos é um touro. Não sabemos como é o Unicórnio”. Como todos os animais desta lista, o unicórnio é um enigma da nossa imaginação.

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Dragão

A cultura pop consagrou o dragão como a fera medieval por excelência. Ele aparece sempre colocando fogo pela boca para torrar o bravo cavaleiro dentro da armadura – é assim, por exemplo, que ele (aliás, no caso, ela) figura no desenho Shrek. Os textos medievais, porém, não mencionam o bafo de fogo do monstro. Um bestiário conservado em Cambridge, Inglaterra, diz até que a força do dragão não está tanto em sua mordida, mas em seu poderoso rabo! É com a cauda que ele derruba o elefante, seu inimigo natural.

Na tradição cristã ocidental, o dragão é associado ao mal – confunde-se até com a serpente que tentou Eva no Paraíso. Na mitologia chinesa, porém, ele é um ser divino, um dos quatro animais mágicos – os outros são o unicórnio, a Fênix e a tartaruga. Como se vê, o dragão aparece com diferentes características em diversas épocas e culturas. Geralmente, é um ser alado, mas também há versões terrestres. Seu corpo às vezes tende ao lagarto, às vezes à serpente – mas sempre com proporções agigantadas. Talvez por esse caráter polivalente, é um dos monstros mais populares. O escritor argentino Jorge Luis Borges observa que, de tanto figurar em contos de fada, o dragão acabou se tornando uma criatura pueril, que já não nos mete medo.

Mantícora

Cabeça de homem, corpo de leão, cauda de escorpião: assim Plínio, o Velho, descreve a mantícora, que teria ainda três fileiras de dentes e uma incrível velocidade. Sua voz combinaria os timbres da flauta e da trompa. O prato preferido desse monstro não poderia ser outro: carne humana. Os bestiários medievais modificam muito pouco essa descrição. Acrescenta-se um ou outro detalhe, como, por exemplo, olhos de cabra. Apenas a voz ganha novas inflexões: como uma espécie de sereia terrestre, a mantícora seria capaz de atrair os homens com seu canto – somente para devorá-los, é claro. Os textos antigos situam a mantícora na Índia, mas a fera foi transplantada e adaptada para o Brasil colonial: alguns viajantes mencionam o hay, fera de garras enormes e rosto simiesco, muito temida pelos índios. Ao contrário do modelo original, porém, o hay não era antropófago: alimentava-se de ar. A mantícora é um monstro terrível, mas sua lenda é um tanto pobre. Em A Tentação de Santo Antônio, Gustave Flaubert daria uma versão mais ornamental à fera. “Devoro os exércitos quando eles se aventuram nos desertos”, vangloria-se a mantícora do escritor francês.

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Grifo

O Physiologus diz que o grifo é a “maior de todas as aves do céu”. Mas essa obra do século 4 não ajuda na descrição física do pássaro. Os bestiários medievais são mais ricos em detalhes: trata-se de um quadrúpede alado. Seu corpo é de leão, mas a cabeça e as asas são de águia – e também as garras enormes e curvadas com que dilacera homens e animais. São criaturas poderosas: um grifo sozinho levanta um boi e o leva para seu ninho, onde o infeliz bovino serve de papinha aos filhotes do monstro. Os grifos são inimigos jurados dos cavalos.

O significado moral do grifo varia conforme a fonte consultada. O bestiário do clérigo francês Pierre de Beauvais, do início do século 12, diz que o animal representa o diabo. O boi caçado pelo grifo seria a alma do homem devasso, e os pequenos grifinhos que picam o boi seriam os demônios que atormentam a alma pecadora por toda a eternidade. Outros textos, porém, dão ao grifo uma aparência quase divina. Isidoro de Sevilha, em suas Etimologias (século 7), compara esse animal híbrido a Jesus: “Cristo é leão porque reina e tem força; e é águia, pois, depois da ressurreição, sobe aos céus”.

Pégaso

O cavalo alado servia aos deuses do Olimpo. Mas também está associado às aventuras de Belerofonte. Foi montando Pégaso que esse herói grego deu cabo da Quimera, um monstro terrível (leão na frente, dragão atrás, e com cabeça de cobra que cuspia fogo). Nas costas de Pégaso, Belerofonte venceu as Amazonas, tribo de mulheres guerreiras. Após a morte do herói, Pégaso voltou ao Olimpo e virou uma constelação.

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É sem dúvida uma das formas mais belas da mitologia. Seu nascimento, porém, está ligado à horrenda Medusa, mulher com cobras no lugar de cabelos e cujo olhar transformava as pessoas em pedra. Quando Perseu decapitou esse monstro, Pégaso brotou de seu pescoço (outra tradição diz que do sangue da Medusa teria nascido o basilisco). Em sua Teoria Estética, o filósofo alemão Theodor Adorno vale-se desse mito para argumentar que a beleza nasce do terror.

Fênix

O mito da ave Fênix nasceu da tradição egípcia, mas a partir dela foi moldado por gregos e romanos. Originalmente – ou pelo menos foi assim que narrou o grego Heródoto – a Fênix viajava da Arábia ao Egito para trazer o corpo de seu pai dentro de um ovo de mirra. Isso acontecia a cada 500 anos. Nas versões posteriores, manteve-se o caráter cíclico da viagem, mas a morte do pai desaparece. Quando sente que está envelhecendo, a ave reúne plantas aromáticas e vai para o templo do sol, no Egito. Lá, ela usa as asas para criar uma fogueira, na qual se consome. Das cinzas nasce um novo pássaro, igual ao anterior.

As descrições da ave variam, mas são sempre coloridas: fala-se que tem asas púrpuras e pescoço dourado.

O Physiologus fez da Fênix um emblema da ressurreição de Cristo, e a maioria dos bestiários medievais segue essa tradição. Sua forma de reprodução assexuada contribuiu para fazer desse prodígio pagão uma das criaturas preferidas do cristianismo.

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Minotauro

“Homem metade touro, touro metade homem.” Assim foi descrito o minotauro pelo poeta latino Ovídio. Falta apenas especificar que a metade touro é a de cima – isto é, a cabeça. Nesse sentido, o minotauro é mais bestial que os elegantes centauros, cavalos com cabeça humana. No mito original, o monstro nasce da união entre Parsífae, mulher do rei Minos, e um belo touro branco enviado pelo deus Posêidon. Minos, envergonhado, manda que o engenhoso Dédalo crie um labirinto onde esconder o fruto aberrante do adultério de sua esposa. Periodicamente, sete donzelas e sete jovens de Atenas eram levados em sacrifício ao labirinto, onde Asterion – assim se chamava o minotauro – os devorava. Foi assim até que o herói Teseu ofereceu-se voluntariamente para participar do sacrifício – e matou o monstro. Essa lenda grega provavelmente guarda ecos da antiga civilização minóica, que venerava o touro em seus rituais.

Na Divina Comédia, Dante coloca o minotauro – e também os centauros – no sétimo círculo do Inferno, reservado aos temperamentos violentos. No século 20, o minotauro ganharia uma versão literária mais digna pela mão do argentino Jorge Luis Borges, no conto “A casa de Asterion”, do livro O Aleph.

Basilisco

Ele é o rei dos répteis. Plínio, o Velho, descreve-o como uma serpente com uma mancha branca em forma de diadema na cabeça – o sinal faria as vezes de coroa, já que “basilisco” quer dizer “pequeno rei”. Não se conhece veneno mais potente que o seu. O hálito do monstro não só mata tudo a seu redor, mas faz até os pássaros despencarem do céu. Por onde ele passa, a grama não torna a nascer. Plínio conta de um cavaleiro que feriu um basilisco com a lança. O veneno, porém, subiu pela lança, matando o valente cavaleiro e seu cavalo! Só não se explica como o frustrado herói teria conseguido se aproximar do monstro – pois o basilisco lança seu veneno pelo olhar, matando tudo o que vê. O único animal capaz de derrotá-lo é a doninha.

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Os bestiários dariam características ainda mais bizarras ao rei dos répteis. O basilisco seria gerado de um ovo de galo velho (não, leitor, não é engano: ovo de galo, não de galinha) chocado por um sapo. Teria partes de serpente, mas crista e corpo de galo. Os perigos dessa figura um tanto ridícula não devem ser subestimados: o basilisco medieval conservava o olhar fatal que lhe atribuíam os autores antigos. O poeta espanhol Quevedo exporia a incongruência interna do mito em quatro versos: “Se está vivo quem te viu, / Toda a tua história é mentira. / Pois se não morreu te ignora, / E se morreu não o afirma”.

Zereia

O episódio mais célebre das sereias está na Odisséia de Homero. Eram criaturas do mar, cujo canto seduzia os marinheiros que acabavam por perder o rumo. Astuto, Ulisses tapa os ouvidos de sua tripulação com cera e se faz amarrar ao mastro do navio. Os remadores seguem adiante, surdos, enquanto o herói ouve, impotente, o irresistível chamado das sereias. O poema não inclui uma descrição física desses seres. Nós, leitores modernos, tendemos a imaginá-los como belas mulheres com rabo de peixe – princesinhas submarinas, mais ou menos nos moldes de A Pequena Sereia, desenho dos estúdios Disney. Na Antiguidade, porém, a sereia não perdia em monstruosidade para o minotauro. Originalmente, não tinha rabo de peixe: era metade mulher, metade pássaro. É lá pelo século 6 que surge a versão da mulher-peixe. Alguns bestiários medievais apresentam a sereia em três versões – como um híbrido de mulher com peixe, ave ou cavalo. A mulher-peixe canta; a mulher-cavalo toca trompa; a mulher-ave dedilha uma harpa. Seja qual for o instrumento, a música tem sempre a finalidade de fazer o homem adormecer, para que a sereia possa matá-lo. O folclore brasileiro abriga uma espécie de sereia de água doce – a Iara.

Uma das versões literárias mais enigmáticas deste velho mito é “O silêncio das sereias”, conto do checo Franz Kafka. “As sereias têm uma arma mais terrível do que o canto: o seu silêncio.”

 

Para saber mais

Na livraria

Bestiario Medieval, Ignácio Malaxecheverría (org.), Espanha, Siruela, 1999

Dicionário de Mitos Literários, Pierre Brunel (org.), José Olympio/UNB, 1998

O Livro dos Seres Imaginários, Jorge Luis Borges, Globo, 2000

Natural History – A Selection, Pliny the Elder (Plínio, o Velho), Reino Unido, Penguin Books, 1991

Na internet

https://www.abdn.ac.uk/bestiary/bestiary.hti

https://www.hum.au.dk/romansk/borges/vakalo/zf/Default.htm

 

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