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Einsteins da floresta

A inteligência dos primos do homem não é novidade, mas não se imaginava que lidassem tão bem com instrumentos e símbolos, nem que vivessem em sociedades tão complexas, em locais até poucos anos inacessíveis aos cientistas.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h28 - Publicado em 30 nov 1991, 22h00

Flávio Dieguez

Em 1979, quando os suíços Christopher e Hedgwige Boesch chegaram ao Parque Nacional Taï, na Costa do Marfim, pequeno país da África Ocidental, conheciam com certeza os relatos de que os chimpanzés às vezes empregam instrumentos à maneira do homem, como varetas para puxar objetos e peças pesadas para quebrar vasilhames e tirar algo do interior. Mas depois de conviver cinco anos em plena selva com uma grande comunidade de setenta chimpanzés, os Boesch se convenceram de que esses animais não eram apenas hábeis e espertos. Mais do que isso, os chimpanzés pareciam capazes de efetivamente criar conhecimento e tecnologia, faculdade que se imagina ser exclusiva do homem.

Basta ver que um dos seus ancestrais — o Homo habilis, que viveu há cerca de 2 milhões de anos — tem esse nome justamente para indicar que foi o primeiro membro da estirpe a construir machados de pedra e outros instrumentos. Se os cientistas estão certos, no entanto, a inteligência humana tem suas raízes na aguda percepção dos chimpanzés. cujos avós já andavam pelo planeta mais de 5 milhões de anos antes de o habilis aparecer. Atualmente se pensa que tais raízes são ainda mais profundas, como sugere uma recente e controversa teoria, assinada pelo lingüista americano Peter McNeilage, da Universidade do Texas. Para ele, as engrenagens do pensamento começaram a se mover há mais de 40 milhões de anos, no cérebro dos antepassados dos lóris, társios e lêmures.

Esses pequenos habitantes das árvores, de olhos grandes e dedos ágeis, são os mais antigos representantes da ordem dos primatas, enquanto o chimpanzé e o homem são os mais modernos. Foi para tentar definir mais exatamente onde passa a linha divisória entre a inteligência humana e a dos primatas que inúmeros cientistas, na década de 70, embrenharam-se nas últimas florestas virgens do globo. Com imensa paciência, conquistaram a confiança desses animais e puderam, pela primeira vez, registrar com rigor a complexa rotina de suas sociedades. Os Boesch, por exemplo, são etologistas, estudiosos do comportamento dos animais, e procuram afastar a idéia de que os chimpanzés manipulam paus e pedras, mas não sabem exatamente o que estão fazendo.

Sua conclusão é que o bando que acompanharam no Parque Taï é formado por verdadeiros criadores e usuários de tecnologia — e mostram nisso uma desenvoltura de fazer inveja aos homens primitivos. Seus mais importantes instrumentos são os “martelos”, pedras ou galhos fortes, empregados basicamente para quebrar nozes. Muitas das peças de madeira e algumas pedras são bem-elaboradas, isto é, quebradas na medida certa para a tarefa em vista. Estima-se, então, que 30% dos instrumentos são mais ou menos fabricados. Além disso, como é difícil achar as poucas pedras existentes no solo escuro e exuberante das florestas, os animais memorizam a posição e a dimensão dos calhaus disponíveis, para usá-los quando têm necessidade.

“A capacidade mental necessária para representar o espaço desse modo é comparável à de uma criança humana de 9 anos”, analisam os etologistas. Também não é simples manejar os martelos da maneira exata para arrancar as castanhas de sua dura casca, o coco (a força para rachá-lo equivale a 1 600 quilos). Uma das técnicas consiste em colocar a fruta sobre uma “bigorna”—geralmente uma raiz grossa —e desferir contra ela uma dúzia de golpes usando uma pedra de 10 quilos erguida acima da cabeça. Em seguida, acaba-se de abri-la com ajuda do mesmo martelo, mas desta vez com delicadeza, por meio de uma série de pancadas curtas e rápidas, desfechadas de uma altura de apenas 10 centímetros.

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Um pequeno galho quebrado de um ramo próximo permite, enfim, descolar as castanhas da casca quase sem danificá-las. “Ficamos impressionados mesmo depois de ter presenciado essa operação inúmeras vezes”, contam os Boesch. “Os animais empregam nada menos de dezenove técnicas diferentes e fazem isso como parte de um hábito diário.” Os chimpanzés trabalham cerca de duas horas e meia por dia para coletar cocos e, depois de juntar uma boa quantidade, transportá-los para junto de uma bigorna e extrair as castanhas. Na estação propícia, de dezembro a março, um adulto abre em média 274 frutas por dia, ou 4 500 calorias, mais do que suficiente à sobrevivência.

Um detalhe importante é que há uma clara divisão de trabalho na sociedade chimpanzé: a maior parte da mão-de-obra é constituída pelas fêmeas e seus filhos imaturos, até 6 ou 7 anos de idade. Coincidência ou não, o papel de coletoras de frutas ou raízes também cabe às mulheres em comunidades humanas primitivas, como nas tribos dos !Kung, que habitam o deserto do Kalahari, na África do Sul (a exclamação em seu nome representa o som de um estalo da língua contra o céu da boca). Em compensação, as fêmeas chimpanzés representam apenas 15% dos indivíduos que saem para caçar (especialmente para pegar macacos do tipo colobus, que pesam cerca de 15 quilos e são boa suplementação alimentar para os chimpanzés).

Nessa atividade, são os machos que mostram saber o valor da coesão social. É que a caça solitária ou em dupla é menos eficiente que as expedições em grupo: em 200 ataques, verificou-se que a taxa de sucesso da primeira tática foi de 15%, contra 50% da segunda. Os chimpanzés parecem saber disso, já que em 63% das vezes atuam em equipes de cinco ou seis caçadores, nas quais cada um tem uma tarefa na captura. Depois da missão, a carne é geralmente dividida entre os participantes. Não foi tarefa fácil nem rápida obter tantos dados. Além de ganhar a confiança dos animais, é preciso tempo para aprender a reconhecer cada indivíduo e acompanhar suas atividades na mata escura, onde nada se enxerga além dos 20 metros de distância.

Mas, dados análogos dos Boesch povoam os relatórios da maior parte dos pesquisadores. Para o japonês Toshisada Nishida, por exemplo, que estuda os chimpanzés da Tanzânia, na África Oriental, os animais não apenas inventam os seus instrumentos, como ensinam os filhos a usá-los por meio de pacientes lições. Ele chega a dizer que os bandos de chimpanzés têm “culturas” próprias, assim como os homens de certa região podem ter hábitos e tecnologias diferentes daqueles existentes em outros lugares. Assim, o martelo e a bigorna, empregados apenas pelos bandos de Taï, caracterizam uma cultura regional.

Os chimpanzés da Tanzânia, por outro lado, têm uma outra cultura regional, pois desenvolveram uma técnica própria de “pescar” formigas, desconhecida por outros bandos. A pesca é feita com uma vareta com cerca de 1 metro de comprimento, que é preciso segurar sobre um formigueiro e esperar até que fique repleta de insetos. Quando o enxame está bem perto de sua mão, 0 animal rapidamente ergue a vareta e, no mesmo movimento, desliza a outra mão sobre as formigas para apanhá-las. Então, num instante elas são amassadas num bolo vivo e mastigadas. Para evitar as picadas, é importante trabalhar com um ritmo bem calculado, que os jovens chimpanzés aprendem por meio de repetidas tentativas e erros, diz Nishida.

“Parece razoável supor que essa técnica é transmitida da mãe para os filhos, que observam atentamente as atividades dela e tentam copiar seu comportamento.” Lições maternais foram descritas também pelos Boesch em artigo publicado em junho deste ano na revista francesa Recherche. Eles contam o caso de uma jovem fêmea de 5 anos que viram labutar 8 minutos com um martelo sem conseguir quebrar um coco. Sua mãe, a essa altura, interveio. Com jeito, passou um minuto inteiro ajustando a pedra corretamente na mão da filha. Em seguida, quebrou ela mesma dez cocos a titulo de demonstração, antes de devolver o instrumento à aluna, que penosamente quebrou quatro cocos em 15 minutos. Ainda não havia achado a melhor posição para as frutas na bigorna, mas segurou o martelo como lhe havia sido ensinado.

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Os cientistas argumentam que esse método satisfaz o critério mais importante da pedagogia: o de corrigir erros de outro indivíduo. Um dado importante é que parece haver certa gradação de inteligência entre os primatas. Eles representam perto de 200 espécies, das quais apenas dez ou quinze eram bem conhecidas em estágio selvagem, há vinte anos. Hoje, há boas informações sobre quase todas elas, como se lê no livro Primate societies (sociedades primatas, ainda não traduzido para o português), com textos de diversos autores. Nele se diz que essas espécies usam ferramentas com muito maior freqüência e em condições muito mais variadas que qualquer outro animal.

Os mais antigos, como lêmures e lóris, não têm essa habilidade, ou pelo menos não foi possível observá-la na natureza. Entre os mais modernos, no entanto, ela é encontrada em nada menos que dezoito espécies. Os chimpanzés, argumenta-se, seriam os únicos, com exceção do homem, capazes de construir ou de selecionar as ferramentas que empregam. Já os babuínos fazem um uso mais circunstancial das pedras, por exemplo quando as empurram de cima de um barranco para afastar um inimigo. Há inclusive dúvidas se não fazem isso como uma simples encenação, apenas como gesto assustador em face do atacante; não têm idéia, de fato, de que podem atingi-lo.

Por isso mesmo, também não se devem julgar os primatas apenas por seus conhecimentos técnicos—de fato, desconfia-se que eles desenvolveram sua inteligência, antes de mais nada, para resolver problemas sociais. Num dos textos de Primate Societies, o americano David Hamburg—um dos primeiros e mais respeitados estudiosos dos primatas— dá uma idéia do que seriam esses problemas. De acordo com ele, para sobreviver e se reproduzir, um indivíduo precisa saber lidar com um bom número de relações importantes. Os bandos de primatas reúnem diversas famílias, ou clãs, cada um deles compostos por jovens e anciãos, machos e fêmeas, relacionados por diversos graus de parentesco entre si. Além disso, também são organizados em subgrupos—algo que, com certo exagero didático, se poderia imaginar como partidos políticos ou associações de bairro.

Imagine-se, então, um babuíno que quer se acasalar, ou seja, ganhar acesso às fêmeas no cio. Ele poderia simplesmente tentar abrir caminho à custa de pancadas e mordidas, mas a coisa não é tão simples porque seus rivais talvez tenham amigos mais fortes. Ou, o que é ainda mais complicado, podem ter aliados influentes, com posição reconhecidamente elevada na hierarquia do bando—entre os babuínos, algumas fêmeas adultas são tão importantes quanto machos bem mais robustos que elas. Em resumo, se quiser conquistar suas Julietas, o peludo Romeu precisa saber quem é amigo de quem, no bando, e também se é possível contar com a simpatia, ou pelo menos com a neutralidade de terceiros.

Naturalmente, não se deve interpretar tudo isso como uma grosseira pantomimadas sociedades humanas. O que se quer mostrar, apenas, é que a vida social dos babuínos exige grande capacidade mental dos indivíduos, ou. por outro lado, que os indivíduos mais capazes tendem a sobressair, nesse meio. Mesmo assim, sempre existe o risco de se tomar a possível inteligência dos macacos por mera cópia da humana, algo como uma caricatura imperfeita.

Pode-se ter uma idéia desse problema quando se analisa a suposta linguagem dos animais, que hoje causa sensação em virtude das proezas do jovem chimpanzé Kanzi.

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Vivendo em condições de semi liberdade no Centro de Pesquisa de Linguagem, na Universidade Estado da Geórgia, Estados Unidos, ele não apenas entende frases simples em inglês, como também seria capaz de compreender a lógica da linguagem. Ou seja, ele tem um certo domínio da sintaxe. Sua evolução foi surpreendente. Desde o início do aprendizado, em 1988, ele mostrou perfeita familiaridade com sentenças simples, do tipo-você pode colocar os feijões no prato? Em vista disso, a cientista Susan Savage-Rumbaugh, responsável pelo chimpanzé, decidiu complicar um pouco a conversa e passou a usar expressões como-você pode ir até a sala e pegar o telefone?

Desta vez não bastava saber o que era “feijão” pois havia mais quatro ou cinco objetos na sala, os quais usualmente não se encontravam lá. “Ou seja, a pergunta exigia compreensão especifica”, explicou Susan em número recente da revista inglesa New Scientist. Mas Kanzi, novamente, se saiu muito bem. Tudo indica que o chimpanzé assimilou com naturalidade aquilo que viu ser ensinado, desde a infância, a outros animais, ao centro de pesquisa. Susan acredita que novos métodos introduzidos por ela também foram importantes. Geralmente, a comunicação com os macacos é feita por meio da linguagem dos surdos-mudos ou de símbolos gráficos. Uma estrela, por exemplo, pode significar “laranja”, e uma cruz, “pegar”. Apontando-se para os dois símbolos, tem-se a expressão “pegue a laranja”.

No entanto, os símbolos são ensinados um por vez, e Susan prefere iniciar com vários símbolos simultaneamente. “É o que acontece com as crianças humanas”, justifica-se. De fato, a mãe adotiva de Kanzi, Matata, que começou a aprender em adulta, nunca entendeu uma frase falada e usava no máximo meia dúzia de símbolos em suas declarações. Mas Kanzi, que estava sempre à volta da mãe durante as aulas, parece dominar nada menos que 200 palavras. Hoje, aos 10 anos de idade, seu desempenho passou por vários estágios e ainda está crescendo.

O mais importante, no entanto, é que, depois dos 9 anos o chimpanzé começou a fazer distinções de natureza sintática. Ele vacilava, por exemplo, se lhe diziam, simplesmente vá à sala e pegue a laranja. Talvez porque a ordem fosse muito genérica. O mais correto seria dizer-vá à sala e pegue a laranja que está lá. O fato é que, quando o pedido era formulado dessa maneira, Kanzi o executava sem hesitação. Kanzi também é capaz de ordenar suas “palavras”, ou seja, os símbolos gráficos. No principio, ele apenas assinalava duas peças como “subir” e “árvore” num tabuleiro de 256 símbolos, chamado lexigrama.

Com o tempo, porém, o verbo quase sempre precedia o substantivo, como Ihe havia sido ensinado. “A tendência de dar uma ordem especifica às frases se observa também nas crianças humanas, por volta dos 2 anos de idade”, recorda Susan. Há criticas sérias a esse tipo de conclusão sobre a linguagem, e o mesmo vale para as outras supostas aptidões dos animais. O americano Noam Chomsky, por exemplo um dos maiores lingüistas da atualidade, acredita que procurar as raízes da comunicação humana nos macacos e tentar encontrar algo que simplesmente não existe.

Outro crítico é o psicólogo Herbert Terrace, que desde o inicio dos anos 80, na Universidade Columbia, Estados Unidos, tenta provar que os chimpanzés fazem pouco mais que imitar seus instrutores. Mais praticamente, Kanzi saberia apenas pedir coisas; nunca procurou um pesquisador para Ihe relatar uma experiência: por exemplo, “o fogo queima, não gosto disso.” Isso é parcialmente verdade, reconhece Susan, mas acrescenta que as crianças têm a mesma limita ção, apenas em grau menor. Além disso, diz ela, o chimpanzé também relata experi ências, como quando diz que vai cometer um ato “mau”, ou conta o que acabou de comer. De toda forma, seria absurdo pretender que a linguagem dos chimpanzés fosse exatamente análoga à humana-afinal, eles têm um cérebro três vezes menor, ataca Susan. Por isso ela evita o termo linguagem e prefere dizer protolinguagem. Ou seja, algo que não é, ainda, a aptidão específica do homem, mas que pode ser comparada com ela. Dentro dessa perspectiva, é muito importante descobrir aquilo que Kanzi não pode fazer. Talvez seja o único meio de obter uma imagem mais nítida daqueles animais que povoaram a Terra há 2 ou 3 milhões de anos e-antes de desaparecer para sempre-deixaram descendentes que se transformariam no homem.

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Para saber mais:

As cordiais acrobacias dos muriquis

(SUPER número 11, ano 4)

O galho criou a linguagem?

A idéia do lingüista Peter McNeilage sobre a origem da linguagem pode estar inteiramente errada. Ou então levar a formidável síntese de três características básicas do homem: a própria capacidade de falar a divisão do cérebro em duas metades que se dedicam a tarefas distintas; e o uso preferencial de uma das mãos. Este ano, evidências de que esta última característica ocorre em I todos os primatas—dos homens aos lêmures—fortaleceram a tese de McNeilage. Seu ponto de partida são os hábitos arborícolas dos antepassados dos lêmures, lóris e társios, que sempre usariam a mão direita para se segurar nos galhos, e a esquerda, para pegar frutas e insetos, assim, também os hemisférios cerebrais se especializaram.

O lado direito passou a controlar as ações da mão esquerda e, por extensão, a lidar com problemas essenciais à coleta de alimentos, como avaliar distancias por meio da visão. Já o lado esquerdo especializou-se em controlar a postura do corpo, essencial ao equilíbrio nos galhos. Ainda mais curioso é que, para McNeilage, a postura foi elemento crucial na história da comunicação. Há motivo para tal suposição: gingados, gestos, caretas e sorrisos, além de gritos, são abundantes nos repertórios de todos os macacos. Não admiraria, portanto, que a visão e as noções de espaço situem-se no lado direito do cérebro humano, e a linguagem, no lado esquerdo. Se McNeilage estiver certo, para começar a falar os homens só tiveram que desenvolver cordas vocais e língua. O resto já estava mais ou menos no lugar.

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