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Em busca de Pandora

Qual é a chance de encontrarmos alguma lua habitada, como a que figura em Avatar, num outro sistema planetário? Os cientistas acham difícil, mas não impossível

Texto: Salvador Nogueira

Diz o filme que Pandora é uma lua localizada num planeta gigante que orbita a estrela Alfa Centauri A, uma das 3 que compõem aquele sistema estelar. Bem, se isso for verdade, em coisa de uma década, nós saberemos.

Segundo a equipe responsável pelo desenvolvimento do telescópio espacial James Webb, sucessor do famoso telescópio Hubble que deve ir ao espaço daqui a 4 ou 5 anos, essa máquina teria a capacidade de identificar a presença de um corpo celeste como Pandora. Mas não só isso.

“Se Pandora existisse, em tese poderíamos detectá-la e estudar sua atmosfera na próxima década”, diz Lisa Kaltenegger, do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica, nos EUA.

O que leva à questão realmente complicada: o mais difícil é que Pandora esteja mesmo lá. Em outras estrelas, pode até ser, mas em Alfa Centauri A, essa hipótese é bastante remota. Por uma razão muito simples. Se o planeta gigante ao redor do qual Pandora gira estivesse mesmo lá, nós já o teríamos detectado.

Como o sistema Alfa Centauri é o mais próximo da Terra (a cerca de 4,4 anos-luz daqui), os astrônomos caçadores de planetas passaram a última década animados, apontando seus telescópios para lá. Não acharam nada. Aparentemente, não há planetas gigantes ao redor das estrelas do sistema. Até é possível que algum tenha escapado à detecção por causa de um posicionamento desfavorável de sua estrela-mãe com relação aos observadores terrestres, mas não muito provável.

Essa foi a má notícia. A boa notícia é que há muitos planetas lá fora candidatos a abrigar ao seu redor alguma lua como Pandora. Os cientistas já descobriram mais de 300 planetas gigantes fora do sistema solar, e um punhado deles está localizado na “zona habitável” – uma região específica do sistema planetário que não é nem muito quente nem muito fria, de modo que a água, substância essencial à vida tal qual é conhecida, pode manter-se em estado líquido por longos períodos de tempo.

Esses planetas, sendo gigantes gasosos como Júpiter ou Saturno, são totalmente desfavoráveis ao surgimento de criaturas similares às terrestres. Entretanto, uma lua que estivesse orbitando ao redor dele – exatamente como Pandora – poderia fazer o truque!

“Todos os planetas gigantes gasosos têm luas rochosas e de gelo”, diz Kaltenegger. “Isso eleva a possibilidade de que planetas como Júpiter localizados fora do sistema solar também tenham luas. Algumas dessas luas poderiam ter o tamanho da Terra e, com isso, a capacidade de preservar uma atmosfera.”

Complicações adicionais

Esses são os princípios para uma lua habitável. Mas nem tudo são flores. O ambiente nas proximidades de um planeta gigante gasoso costuma ser bastante inóspito, por basicamente duas razões. “A primeira é que a força gravitacional exercida pelo planeta causaria efeitos de maré violentíssimos na lua, o que pode torná-la inabitável”, afirma Cássio Leandro Barbosa, astrônomo da Universidade do Vale do Paraíba, em São José dos Campos (SP). (Por exemplo, em Io, lua de Júpiter, esse efeito é tão grande que a superfície é tomada por vulcões permanentemente ativos, diante da convulsão interna causada pela gravidade do planeta.)

O problema maior, entretanto, seria a radiação. O campo magnético poderoso de um planeta gigante faria com que a lua ficasse fortemente exposta a raios letais. Em Pandora, James Cameron explica tudo com o unobtanium, substância supercondutora que amplifica o campo magnético da lua e a protege da radiação. Mas, como esse material não existe na realidade, o sonho de uma lua habitável ao redor de um planeta gigante fica comprometido.

Enfim, é complicado, mas não é impossível. Até porque há algumas formas de vida, na Terra mesmo, que são altamente resistentes a radiação. Se todo o resto fosse favorável, é bem provável que a vida achasse um jeito de florescer, mesmo num ambiente inabitável para criaturas como nós.