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Está o homem sujeito às leis da evolução?

Cultura e tecnologia se unem para colocar a humanidade cada vez mais longe dos mandamentos da seleção natural. Chegará o dia em que a engenharia genética poderá corrigir todos os acidentes que a determinam.

C. Owen Lovejoy

Escritores, cineastas, técnicos de efeitos especiais tem-se Esmeraldo em produzir figuras que tentam representar o homem daqui a um ou dois milênios. Como se baseiam no que se sabe da evolução acontecida nos milênios passados, suas criações apresentam uma certa lógica. Seriam essas previsões corretas? Será que podemos antecipar, com alguma segurança, a aparência das futuras gerações humanas e o sentido que será tomado pela evolução.

Não. Pelo menos a Antropologia e a Biologia não têm condições de satisfazer essa curiosidade. Mas oferecem elementos para suposições sérias. Será preciso não apenas utilizar quanto sabemos da evolução passada, mas aplicar corretamente as regras que a regularam. Esta segunda condição, com efeito, é quase sempre negligenciada pelos ficcionistas, o que os impede de produzir trabalhos mais consistentes.
Inicialmente, precisamos distinguir com segurança entre as verdadeiras aquisições e evolucionistas e outros tipos de transformação física que podem acontecer, sem, no entanto, terem qualquer relação com a evolução real. Nas últimas quatro ou cinco gerações, apareceram vários fenômenos que chamam a atenção. O homem moderno é muito mais alto do que o homem antigo e os jovens amadurecem muito mais precocemente do que há apenas 100 anos. Mas isso nada tem a ver com evolução. Essas e outras transformações parecidas são exemplos do que chamamos “tendências seculares”. Elas não dependem de uma alteração genética, mas de uma alteração ambiental.

Ma por que o homem cresce, hoje, mais do que antigamente? Porque cada vez come mais proteínas e gorduras, elementos que desempenham importante papel na determinação do ritmo do crescimento do corpo. Se voltássemos aos hábitos alimentares do passado, mais frugais, nossos filhos com certeza voltariam à estatura e à idade de maturação dos nossos antepassados. Recentemente, os japoneses aderiram aos hábitos alimentares adotados pelos ocidentais há muito tempo; em uma só geração, sua estatura média cresceu tanto quanto havia crescido a dos europeus, em várias gerações.

Merece atenção, também, a constante derrubada dos recordes no atletismo. Mas também aqui não é a evolução a responsável pelo sucesso dos superatletas, que deve ser atribuído a técnicas de treinamentos mais eficientes, a um início mais precoce da prática esportiva, à especialização tanto dos atletas quanto dos treinadores, e a maiores exigências, tanto do público aficionado quanto dos próprios praticantes. Mais complicado, sem dúvida, é explicar a transformação observada nos maxilares e dentes das novas gerações.

É preciso estar de acordo com a seleção natural

Até há muito pouco tempo, quase não existiam ortodontistas. Hoje, é cada vez mais freqüente a necessidade de correção dentária em crianças e adolescentes, porque os dentes definitivos quase não encontram espaço nos maxilares para se desenvolver perfeitamente. Teria a evolução, de repente, nos presenteado com um maxilar menor? O tamanho dos dentes é apenas em parte definido geneticamente, e é impossível que isso se altere de uma hora para outra. Também é importante o modo como eles são usados, sobretudo durante os anos de crescimento. Os ossos são suscetíveis a um “desenvolvimento plástico”: quando exigidos por forças mecânicas fortes, eles se desenvolvem mais do que quando ssubmetidos apenas a pressões leves.

O advento das modernas técnicas agrícolas e, sobretudo do preparo industrial dos alimentos dispensou os maxilares de boa parte do trabalho mais pesado que sempre desempenharam. Como resultado, eles já não crescem o suficiente para acomodar todos os dentes que devem ocupá-los. Mas também aqui não há uma transformação genética: se voltássemos aos costumes alimentares dos nossos antepassados, no espaço de uma geração os ortodontistas seriam uma vez dispensáveis.

Mas então, se todas essas mudanças mais evidentes são apenas ambientais, como será possível reconhecer uma transformação realmente evolucionista? Basta verificar se ela aconteceu de acordo com as regras da evolução. A principal dessas regras é a “seleção natural”, formulada por Charles Darwin em seu livro polêmico Sobre a origem das espécies, publicado em 1859.

Essa é uma regra que impressiona por sua simplicidade, embora nem todos a entendam perfeitamente. Os seres vivos de uma mesma espécie nunca são perfeitamente iguais: apresentam, mesmo, grandes diferenças de indivíduo para indivíduo. Algumas dessas características conferem aos seus portadores vantagens para sobreviver em determinados ambientes. Portanto, supõe-se que os portadores dessas características vantajosas para sobreviverão melhor e, consequentemente, terão mais descendentes que os não portadores. Como essas características se transmitem geneticamente, pode-se supor que depois de algum tempo a maior parte dos membros dessa espécie será portadora dessas vantagens.

A diversidade de características surge sempre pela mistura genética casual. Então as vantagens de sobrevivência dos portadores das características mais favoráveis farão com que elas, ao longo das gerações, se tornem mais freqüentes, até se estenderem por toda a população. Isso é a seleção natural, e nada tem a ver com a opinião corrente de que os seres vivos são “construídos” para se adaptarem ao ambiente onde vivem. A evolução não tem esse objetivo, e também não obedece a um plano. Consiste apenas na interação entre a despretensiosa probabilidade (de que animais portadores de determinada característica benéfica tenham uma prole maior) e o processo casual da mistura de genes. A seleção natural é a combinação de probabilidade e acaso – e não tem nenhuma outra significação especial.

Se é assim, como poderemos prever como será o ser humano no futuro, se os únicos pontos de apoio de que dispomos são probabilidades e s variação casual? A chave para responder a essa questão está, exatamente, na probabilidade. Vamos examinar três profecias comumentes feitas pelos ficcionistas e verificar sua probabilidade de sucesso.

1 – Nossos descendentes terão apenas os quatro dedos maiores do pé – o menor se perderá, por não desempenhar nenhuma função especifica.

2 – Os maxilares e o queixo regredirão mais ainda.

3 – O cérebro encolherá, pois não será muito usado – o homem do futuro deixará que o computador pense por ele.
Seguramente, essas mudanças previstas não atendem às regras da evolução. Nada pode justificar a idéia de que homens sem o dedo menor do pé ou com o maxilar pequeno terão mais filhos que os outros. No caso do cérebro, podemos ter certeza também de que não há relação alguma entre inteligência e fator reprodutivo, mas pelo menos nesse campo vamos encontrar um fator até agora não considerado: a cultura. Nosso comportamento reprodutor está condicionado pelo meio ambiente em que vivemos, pelos valores que são ensinados. Sua influência, no entanto, não é biológica – o que aprendemos não se transmite hereditariamente.

Nas sociedades tecnológicas as famílias sempre são menores

Devemos considerar que a experiência pode aumentar ou diminuir a taxa de reprodução. O desejo de ser pai, em essência não é inato, resultado de um longo e lento processo de aprendizagem que, já vimos, não está sujeito à seleção natural. Como é possível, então, que algo que nada tem a ver com a evolução possa influir nela tão intensamente? Foi o sociólogo inglês Ronald Fisher quem estabeleceu o princípio, que chamou teorema fundamental da seleção natural, capaz de responder a isso. Sua conclusão final é que a medida da evolução depende diretamente das diferenças na taxa de reprodução. Ou seja, de que todos os homens tenham o mesmo número de filhos, ou que haja diferenças entre eles.

Em breve não haverá mais lugar para a evolução

Suponhamos que em um grupo humanos apenas a metade dos indivíduos gere todos os filhos possíveis e que em outro todos colaborem igualmente na reprodução. Nesse caso, a ocorrência de grandes transformações é mais provável no primeiro grupo, pois se a metade que respondeu pela proccriação se distinguir anatomicamente da outra metade, suas características já serão predominantes na geração seguinte (o fato de as características herdadas serem ou não vantajosas não importa, pois a seleção natural é um evento estatístico e não construtivo). No segundo grupo, ao contrário, não haverá evolução alguma, pois a geração seguinte será uma reprodução mais ou menos fiel da que a gerou. Fica clara, com esses exemplos, a maneira como a cultura e o aprendizado podem agir sobre uma possível evolução. Vemos que quanto mais crescem as populações dos países ocidentais desenvolvidos, e quanto mais elas passam a depender da tecnologia, menor fica a família média. Imagine-se um mundo em que só existam famílias com dois filhos, e ter-se-á exatamente o segundo grupo já descrito. Nesse mundo não há evolução.

Resumindo: nossa tecnologia avançada e nossa cultura farão surgir, em breve, uma sociedade em que não haverá lugar para a evolução, mesmo quando surgirem circunstâncias em que determinadas particularidades físicas sejam extremamente úteis para a sobrevivência dos indivíduos. Mas há um fato muito a ser considerado: a espécie homem possui um reservatório genético muito amplo, e nele não predominam as características das populações do mundo desenvolvido ocidental. Na verdade, predominam as características dos povos do Terceiro Mundo, onde as famílias são maiores. Certamente, entre essas populações existe, mesmo que atenuada, a influência da seleção natural. Na África e na Ásia os índices de nascimentos e mortes são muito elevados. Como ela poderá influir na evolução da humanidade?

Vamos a uma experiência hipotética: um homem qualquer herdou de seus pais duas características distintas, não relacionadas entre si. Uma delas é desvantajosa para sua capacidade de sobrevivência, mas não muito: a outra, ao contrario, é extremamente vantajosa. Deixemos de lado a influencia da cultura e suponhamos que esse homem venha a ter tantos filhos quantos seu patrimônio genético determine. Então, ele deixará muitos descendentes portadores da característica benéfica, mas também da característica desvantajosa. Como se pode prever qual das duas será predominante, algumas dezenas ou centenas de gerações mais tarde?

Há a destacar, ainda, outro atributo: a capacidade de resistir às doenças. Ela é muito mais importante para a propagação da espécie, por exemplo, do que a cor dos cabelos ou dos olhos. Temos de contar com um aumento mais ou menos desordenado da população mundial, com cada vez mais pessoas se aventurando em longas viagens e visitas a todos os pontos do planeta. Tudo isso aumentará as exigências de eficiência ao nosso sistema imunológico, que precisará dar conta de novas bactérias, novos vírus e demais fatores causadores de doença. Mas existe também a possibilidade de que a Medicina faça tantos progressos que se torne capaz de evitar quase todas as causas de morte e doença nas gerações futuras.

Ainda resta uma questão importante: o desenvolvimento do conhecimento cientifico e da capacidade tecnológica no campo da Biologia da reprodução. A fecundação in vitro já é uma rotina e não estamos muito longe da possibilidade de intervir diretamente na estrutura das células germinativas humanas. Certamente em poucas décadas estaremos em condições de substituir genes alterados por estruturas normais. Foi iniciado há pouco o trabalho de catalogar toda a informação genética humana- o projeto Genoma (SUPERINTERESSANTE número 6, ano 2) – numa espécie de mapa. Admite-se como quase certo que nos próximos 100 ou 200 anos o feto humano venha a se desenvolver no tubo de ensaio com a mesma segurança com que hoje se consegue a fecundação in vitro.

A tecnologia dominará o mundo biológico

Esses espaços de tempo parecem longos, quando comparados com a nossa vida, mas no campo da evolução as contas são diferentes. Mesmo que uma ação seletiva muito forte atuasse sobre algumas características humanas, seriam necessárias algumas centenas de gerações para que elas fossem fixadas pelo genoma. Como uma geração compreende vinte anos, mais de 1000 anos serão necessários para que uma característica se imponha pelo caminho da seleção natural. Mas a essa altura a engenharia genética terá progredido tanto que o processo evolutivo normal não terá importância para o homem.

Se tudo isso se concretizar, poderemos então concluir que o homem do futuro possuirá uma inteligência extraordinária, características anatômicas singulares, vida muito longa e grande resistência às doenças. Será consequência direta da intervenção técnica e do planejamento artificial, nada tendo a ver com o processo de evolução natural. Podemos dizer, então, que nesse futuro mais ou menos distante o processo evolucionista será paralisado na espécie humana. Em seu lugar, a tecnologia se imporá cada vez mais como soberana no mundo do biológico.

O professor C. Owen Lovejoy é chefe da seção de Antropologia Biológica da Kent State University, Ohio, Estados Unidos.