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Estudo com mais de 11 mil aves marinhas mapeia onde o mercúrio se concentra nos oceanos

O trabalho oferece uma nova forma de acompanhar a contaminação marinha em regiões remotas, onde medições diretas são raras.

Por Luiza Lopes 14 abr 2026, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h35
Estudo com mais de 11 mil aves marinhas mapeia onde o mercúrio se concentra nos oceanos Priorizar nos meus resultados Google

Cientistas usaram aves marinhas como uma espécie de “sensor biológico” para mapear a poluição por mercúrio nos oceanos. Ao analisar o sangue de 11.215 animais de 108 espécies espalhadas pelo planeta, a equipe conseguiu identificar onde o metal tóxico parece estar mais concentrado no mar.

O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, e publicado na revista Science of the Total Environment.

Grande parte do mercúrio que chega ao mar vem de atividades humanas. O carvão mineral, por exemplo, contém pequenas quantidades desse metal. Quando ele é queimado em usinas e indústrias para gerar energia, o mercúrio é liberado na atmosfera junto com a fumaça.

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Depois de entrar no ar, pode viajar longas distâncias carregado pelos ventos. Em algum momento ele volta à superfície com a chuva – e parte acaba nos oceanos.

No ambiente marinho, microrganismos podem transformar o mercúrio em uma forma química chamada metilmercúrio. Essa versão é mais tóxica e, principalmente, tende a se acumular nos seres vivos.

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O processo funciona como um efeito dominó. Pequenos organismos do mar absorvem traços do metal presentes na água. Peixes pequenos comem esses organismos e acabam acumulando mais mercúrio no corpo. 

Peixes maiores comem vários peixes menores, concentrando ainda mais o contaminante. No topo da cadeia alimentar, predadores acumulam as maiores quantidades.

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No caso das aves marinhas, muitas delas ocupam posições altas na cadeia e, portanto, acabam aglomerando mais substâncias.

Resultados

As aves marinhas percorrem grandes áreas do oceano em busca de alimento, mas retornam regularmente aos mesmos locais para se reproduzir. Assim, quando voltam às colônias, é possível coletar pequenas amostras de sangue – que revelam o que ingeriram nas últimas semanas, geralmente até cerca de dois meses.

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Por isso, entre 2017 e 2024, os cientistas coletaram 659 amostras de dez espécies de aves marinhas em colônias no Japão, no Alasca e na Nova Zelândia.

Ao mesmo tempo, a equipe revisou 106 estudos científicos publicados entre 1980 e 2025. Esses trabalhos reuniam dados sobre níveis de mercúrio no sangue de mais de 10.500 indivíduos adultos de 105 espécies.

Com as informações somadas, as concentrações mais altas apareceram no Atlântico Norte e no Pacífico Norte – regiões próximas à América do Norte, Europa e leste da Ásia.

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Já os níveis mais baixos foram registrados no Atlântico Sul e nas águas frias que cercam a Antártida. Isso não significa que essas regiões estejam livres de poluição, mas indica que as aves que se alimentam ali parecem absorver menos mercúrio ao longo da cadeia alimentar. Confira o mapa:

Gráfico da análise baseada em amostras de sangue de mais de 11.000 aves marinhas, a primeira estimativa biologicamente derivada da distribuição de mercúrio nos oceanos.
Distribuição global de mercúrio estimada a partir do sangue de mais de 11 mil aves marinhas. (THg: mercúrio total) (Universidade de Nagoya/Divulgação)

Os pesquisadores compararam seus resultados com os modelos usados há décadas para estimar a distribuição de mercúrio nos oceanos. A correspondência foi fraca: o mapa baseado nas aves não coincide bem com o que as simulações previam.

Isso acontece porque os modelos são baseados principalmente em cálculos e medições da água do mar, enquanto as aves refletem o que realmente está entrando na cadeia alimentar.

Para os autores, essa abordagem pode ajudar a avaliar se políticas globais estão funcionando, como a Convenção de Minamata, tratado internacional criado para reduzir as emissões de mercúrio. Como grande parte do oceano é difícil e cara de monitorar diretamente, as aves marinhas podem funcionar como uma rede natural de monitoramento. 

A análise também mostrou alguns padrões. As aves apresentaram níveis mais altos de mercúrio quando se alimentavam de presas que também são predadoras – ou seja, animais que já estão em posições altas na cadeia alimentar.

Além disso, o tamanho parece influenciar. Espécies maiores apresentaram mais metal acumulado, possivelmente porque vivem mais tempo e ficam expostas ao contaminante por mais anos.

Outro fator importante foi a profundidade das presas capturadas. Aves que se alimentam de animais encontrados entre 200 e 1.000 metros de profundidade apresentaram níveis mais elevados de mercúrio.

Estudos anteriores sugerem que, nessa faixa do oceano, o metal tende a se concentrar mais em alguns organismos marinhos. Entre os grupos mais expostos estão albatrozes e pardelas, que percorrem grandes distâncias em alto-mar e frequentemente capturam presas nessas águas mais profundas.

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