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Hominídeos fabricavam ferramentas de pedra há 2.6 milhões de anos

Encontrados na Etiópia, artefatos são o registro mais antigo de que nossos parentes primitivos produziam objetos do tipo.

Arqueólogos encontraram, na Etiópia, a evidência mais antiga de que humanos primitivos dominavam a produção de ferramentas complexas de pedra. Podemos chamar de “ferramentas complexas” pedaços de rocha lapidados com formato pontiagudo – ótimos para tarefas como cortar objetos e cavar buracos.

Estima-se que as ferramentas encontradas pelos pesquisadores tenham entre 2.61 milhões e 2.58 milhões de anos de idade. Elas estavam enterradas junto a uma coleção de 300 artefatos de pedra no sítio arqueológico etíope de Ledi-Geraru. Até então, as ferramentas de pedra mais antigas tinham idade estimada entre 2.58 e 2.55 milhões de anos, e haviam sido retiradas de um sítio arqueológico em Gona – também na Etiópia.

A região do país africano, que fica ao leste do continente, está repleta de evidências que remontam ao passado dos primeiros hominídeos. A cinco quilômetros de Ledi-Geraru, por exemplo, pesquisadores descobriram o fóssil mais antigo do gênero Homo que se tem registro: um pedaço de mandíbula com 2.8 milhões de anos, encontrado em 2013. Por isso, há boas chances de que as peças tenham de fato sido fabricadas por parentes primitivos dos humanos atuais.

 (David R. Braun/Reprodução)

Rochas com o formato que você vê na foto acima são comumente chamadas “olduvaienses”. O nome estranho tem um motivo: foi na Garganta de Odulvai, que fica na Tanzânia, que as primeiras ferramentas de pedra do tipo deram as caras.

É verdade que existem exemplos ainda mais antigos que as pedras de Ledi-Geraru e seus 2.6 milhões de anos. No Quênia, mais precisamente no sítio arqueológico de Lomekwi, cientistas já acharam ferramentas de pedra na casa dos 3,3 milhões de anos de idade. A evidência mais recente, porém, é uma prova mais consistente que a manufatura de objetos de pedra já estava incorporada à vida dos hominídeos – dada a quantidade de objetos encontrados no local.

Outro ponto que chamou atenção foram as diferenças entre as ferramentas desenterradas no Quênia para aquelas achadas na Etiópia. Apesar de serem semelhantes às olduvaienses, as pedras de Ledi-Geraru em nada se parecem com os modelos mais antigos.

“Mesmo quando olhamos com cuidado buscando por padrões, quase não há relação entre aquilo que era produzido em locais arqueológicos mais antigos e as ferramentas que os primatas mais modernos usavam”, disse Will Archer, um dos autores do estudo, em comunicado.

Segundo o estudo, que foi publicado na revista científica PNAS, essa discrepância sustenta a hipótese de que os primeiros grupos do gênero Homo se dividiram muito cedo. Isso teria feito com que tais grupos, que povoaram partes distintas da África, enxergassem as pedras como um recurso útil para se produzir ferramentas em momentos diferentes – o que explicaria, também, a aparência distinta. Ou seja: é possível, de acordo com os pesquisadores, que ferramentas de pedra tenham sido “inventadas” várias vezes.

“Algo aconteceu há 2,6 milhões de anos, e nossos ancestrais se tornaram mais precisos e habilidosos em golpear as extremidades das pedras para fazer ferramentas”, completa Archer. “Os artefatos encontrados em Ledi-Geraru capturam essa mudança”.

Para que a tese dos cientistas seja comprovada, porém, é preciso que se encontre evidências ainda mais antigas. Pedras pontiagudas alguns milhões de anos mais velhas podem dar uma clareza maior sobre o quão refinadas eram as ferramentas dos primeiros hominídeos – que inauguraram sua própria linhagem há pelo menos 2.8 milhões de anos.