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Leve-me ao seu líder

Quer entender de administração de empresas ou política? Os cientistas mostram que, quando o assunto é liderança, os melhores professores são leões, abelhas e elefantes

Por Álvaro Oppermann Atualizado em 31 out 2016, 18h47 - Publicado em 31 Maio 2008, 22h00

Quando o presidente da Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, anunciou que deixaria o comando do grupo (13º maior fabricante de aço do mundo), a empresa contratou diversos consultores internacionais para auxiliar na escolha do novo presidente. A sucessão foi tida como a mais bem planejada na história dos negócios no Brasil. Pode estarrecer, mas zoólogos na África demonstraram que a sucessão da Gerdau foi muito parecida à escolha de líderes nos bandos dos leões africanos. Assim como filhotes de leões, o novo presidente da Gerdau foi preparado durante anos – mas só sagrou-se líder depois de vencer outros 20 concorrentes.

Quando o assunto é liderança, a semelhança entre os humanos e os animais não param. Nos anos 70, o primatologista Frans de Waal demonstrou que os chimpanzés são tão hábeis negociadores políticos quanto nós. Em 2005, um estudo da Universidade de Regensburg, na Alemanha, descobriu que a tática de uma formiga para tomar um formigueiro rival é a mesma utilizada por guerreiros medievais. E pesquisadores dos EUA perceberam que elefantes da África, quando crescem sem líderes hierárquicos, se tornam adolescentes tão rebeldes quanto esses ao lado. Cara de um, focinho de outro? É ler para crer. Bem-vindo à selva do poder, bicho.

Abelhas contra Shakespeare

No interior da colméia, a abelha rainha aproxima-se do alvéolo onde se desenvolve a futura soberana. Ela quer escutá-la. A abelhinha em gestação já é uma pupa, ou seja, não se trata mais de uma larva, e está em vias de atingir o pleno amadurecimento. Separadas pela fina membrana da cela real, as duas trocam uma conversa (assim como os humanos, as abelhas usam um conjunto de sons para se comunicar). A rainha quer saber se a sua filha já está pronta para tomar o seu lugar. Depois, a matriarca – junto com seu séquito de abelhas trabalhadoras – rumará para o exílio e formará uma nova colméia, ou se preparará para a morte. Quando isso acontecer e a futura rainha sair da cela real (a cavidade na colméia onde ocorre a gestação), a sua primeira tarefa será macabra. Destruirá o alvéolo de todas as irmãs ainda não nascidas, que também poderiam ser rainhas. O ato sangrento é essencial para a paz da colméia. Se a nova rainha não o cometer, a colméia pode abrigar uma disputa familiar tão funesta quanto a que envolveu as irmãs Goneril, Regane e Cordélia na tragédia Rei Lear, do dramaturgo inglês William Shakespeare. Na peça, o rei Lear decide deixar o trono em nome das 3 filhas. Sem querer, o soberano desencadeia uma disputa entre as irmãs e outros membros da família real. A briga acaba com Lear e Cordélia presos e executados, Regane envenenada e Goneril morta por suicídio.

Se não acontece nas colméias, a tragédia de Shakespeare está mais perto do mundo dos leões. Entre os reis da floresta, 80% dos filhotes não alcançam a maturidade. Muitos morrem por falta de comida, mas um grande número de filhotes é assassinado por outros leões machos sem vínculo de parentesco com as crias.

CPI das bananas

O livro de cabeceira do político americano Newt Gingrich é Chimpanzee Politics (“A Política dos Chimpanzés”, sem edição brasileira), de Frans de Waal. Ele recomenda o livro aos aspirantes à vida política, junto com os escritos de Thomas Jefferson ou a Constituição dos EUA. Gingrich diz que foi copiando os chimpanzés que ele se tornou porta-voz do Congresso americano.

Na luta por poder e prestígio, nem sempre são os chimpanzés mais fortes que se dão bem. O que eles fazem pelo poder? Trocam favores, cuidam uns dos outros, cultivam alianças úteis entre amigos e famílias e, quando brigam, se reconciliam para manter a paz. “Trechos de Maquiavel parecem diretamente aplicáveis à vida dos chimpanzés”, escreveu De Waal em Chimpanzee Politics. O cientista estudou a intriga pelo poder entre Jeroen e Luit, dois chimpanzés do zoológico de Arnehm, na Holanda. O bando de 8 animais era liderado por Jeroen, que se mostrava autoritário. Luit se rebelou contra ele. Começou a contestá-lo e a desrespeitá-lo com uma tática cheia de esperteza. Resolveu paparicar e dar presentes aos colegas de jaula, como bananas e amendoins. Em 3 meses, Luit destronou Jeroen.

Em Washington, o congressista Gingrich usa a mesma estratégia. Fez alianças com republicanos e democratas para desbancar o adversário. “Com isso, Gingrich ganhou estatura na política americana”, escreveu o seu biógrafo, o jornalista John M. Barry, no livro The Ambition and the Power (“A Ambição e o Poder”).

Os elefantes rebeldes

Os dados são alarmantes. Desde 1992, no Parque Nacional de Pilanesberg, na África do Sul, elefantes adolescentes estupram e matam rinocerontes fêmeas. Em 2003, também, o vilarejo de Kyambura, em Uganda, se tornou palco de um ataque súbito dos paquidermes. Detalhe: todos machos e adolescentes. Segundo a revista New Scientist, dezenas de casas e plantações foram destruídas no local. Aldeões foram mortos, esmagados ou pisoteados pelos animas. Ao todo, no ano de 2005, nos países africanos da Zâmbia, Tanzânia e Serra Leoa, mais de 300 camponeses tiveram de evacuar suas casas, aterrorizados por elefantes jovens. Como membros de gangues, os elefantes destroem rotineiramente cidades e plantações, matando jovens, velhos e crianças. Na Índia está acontecendo a mesma coisa. “Os rugidos eram terríveis”, diz um morador de um vilarejo do estado de Jharkhand, no norte da Índia, atacado por elefantes em 2001.

Quem encontrou explicação para tanta fúria foi uma professora de psicologia animal da Universidade do Oregon, nos EUA, Gay Bradshaw. Num artigo para a revista Nature ela constatou: “Os elefantes estão passando por um estresse crônico, um tipo de trauma que afeta a espécie toda”. A causa da violência, para ela, é a destruição do ecossistema clássico dos elefantes. Filhos de mães solteiras e sem líderes tradicionais, eles crescem sem noção de disciplina, tornando-se rebeldes. “Décadas de matança, de separação de pais e filhos e perda do habitat natural destruíram a intrincada teia de relações sociais e familiares responsável pelo desenvolvimento dos elefantes na natureza”, diz ela. Do lado humano, as palavras são parecidas. “O padrão de identificação da garotada não é mais a família. É a rua”, diz o sociólogo Hélgio Faria dos Santos, que estudou adolescentes infratores de Diadema (SP). “E na rua vale a lei do mais forte”, diz.

As formigas de Sun Tzu

A cabeça decepada ainda estava presa às mandíbulas da invasora. Não é manchete de jornal. A cena faz parte das 2 500 horas de videoteipes sobre formigas gravadas pela equipe da pesquisadora alemã Susanne Foitzik, da Universidade de Regensburg, da Alemanha. Entre 1999 e 2001, Susanne pesquisou o comportamento peculiar de 20 espécies dos artrópodes na costa leste dos EUA e Canadá, que possuem o hábito de tomar de assalto outras colônias e escravizar as formigas residentes.

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A tática parece tirada do clássico de estratégia militar A Arte da Guerra, de Sun Tzu. As formigas da espécie Protomognathus americanus, por exemplo, volta e meia escravizam as formigas Leptothorax longispinosus. Para tanto, utilizam uma tática cara ao mestre chinês: o ataque-surpresa, que é cuidadosamente planejado. Primeiro, um pelotão de reconhecimento avalia o terreno e identifica pontos de ataque. O pelotão captura formigas rivais, que são examinadas pelas outras Protomognathus. Sabendo contra quem vão lutar, elas partem para um ataque fulminante e violento. Com suas mandíbulas fortes, as Protomognathus matam o maior número possível das residentes. Com as mandíbulas, desmembram o corpo das Leptothorax. “O objetivo é seqüestrar as pupas (os filhotes) da colônia atacada”, diz Foitzik. Isso aumenta o poderio das formigas Protomognathus americanus. As cativas, levadas para a nova colônia, serão criadas como integrantes legítimas do formigueiro. Ali, seu status será como o de um escravo na Roma antiga, passando o resto da vida em servidão, mas com uma exceção. Enquanto em Roma os escravos não podiam exercer funções militares, as formigas cativas engrossam as milícias das conquistadoras: “As Leptothorax, criadas pelas Protomognathus, atacam as formigas de sua espécie quando se tornam adultas”, diz Susanne Foitzik.

Cansaço na selva

Na única entrevista que concedeu à imprensa durante o seu mandato militar, o ex-presidente do Brasil Ernesto Geisel disse a todos que “a Presidência era um fardo terrível”. Pois dois pesquisadores dos leões na Tanzânia, Craig Packer, da Universidade de Minnesota, nos EUA, e Robert Heinsohn, da Universidade de Camberra, na Austrália, concluíram que os animais carregam um fardo semelhante. Eles notaram sinais de agitação, em alguns casos, ou de letargia, em outros, nos líderes de bandos de leões, sobretudo em grupos que sofrem ataques de humanos. “Os líderes são os primeiros a sair em defesa do bando e a se ferir. Trata-se de um quadro de estresse da espécie”, escreveram os dois.

Nas maiores empresas brasileiras, acontece um problema parecido. É o que revela uma pesquisa da psicóloga mineira Betania Tanure com 965 altos executivos do país. “Oitenta e cinco por cento deles se dizem infelizes no trabalho”, afirma Tanure, que fez da pesquisa o livro Sucesso e (In)Felicidade. Talvez seja por isso que, como revelou a consultoria americana Egremont, o tempo de permanência dos presidentes nas empresas está diminuindo. Hoje, nos EUA, fica em 8,3 anos. Uma década atrás, era de 11,5 anos. Na década de 1970, passava dos 20 anos. Se continuar caindo, o mandato corporativo vai ser o mesmo que o de um leão na liderança de seu bando: entre 3 e 6 anos.

O rei está morto

O nome da formiga Leptothorax minutissimus serve como descrição física. O minutissimus quer dizer que ela é muito pequena. O que essa formiguinha tem de nanica, porém, tem de esperta. Para se apoderar de uma colônia de formigas muito maiores, ela emprega uma estratégia arriscada: torna-se agente infiltrada. A pesquisadora Susanne Foitzik e sua equipe gravaram em vídeo a operação. O alvo da invasora era um formigueiro da espécie de grandalhonas Leptothorax curvispinosus.

Sem ser percebida, ela entra no formigueiro e aproxima-se da rainha. Por causa do tamanho diminuto, se aloja facilmente sob o corpo real, e, aos poucos, começa a sufocar a presa. Em 3 semanas, a invasora estrangula e mata a rainha, tomando seu lugar e virando líder do formigueiro invadido. “As trabalhadoras não fazem nada para salvar sua rainha”, diz Foitzik. E se acomodam pacificamente à usurpadora.

A mesma estratégia foi usada pelo nobre Afonso Henriques, na península Ibérica. Em 1139, ele possuía um exército mixuruca, mas uma grande ambição. Invadia o castelo dos senhores feudais à noite e os degolava. De manhã, anunciava aos servos que tinham um novo senhor. De pescoço em pescoço, Afonso Henriques subjugou outros nobres e assim… fundou o reino de Portugal, tornando-se Afonso 1º. Conta-se que a conquista foi quasi per latrocinium (“quase por latrocínio”). O quasi, é claro, era um eufemismo. Como no formigueiro, ninguém deteve o nobre.

 

Para saber mais

O Gorila no Escritório

Richard Conniff, BestSeller, 2007.

Survival Strategies

Raghavendra Gadagkar, Harvard University Press, EUA, 1997.

 

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