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Liderança feminina na ciência: as finalistas do Prêmio Claudia

Conheça as três mulheres que representam o Brasil em iniciativas pioneiras nas áreas de ciência e saúde - e vote na sua favorita para o 22º Prêmio Claudia

O Prêmio Claudia chega à sua 22ª edição como maior premiação feminina da América Latina e traz, na categoria Ciência, três mulheres responsáveis por liderar e representar o Brasil em projetos históricos de projeção internacional, ainda que em áreas bem diversas: astrofísica e saúde.

Conheça cada uma das finalistas e suas contribuições – e vote na sua favorita pelo site do Prêmio.

Elisabete Dal Pino

O universo pode ser um lugar violento: é fusão nuclear para cá, emissão de gases a temperaturas altíssimas para lá, supernovas, colisões de buracos negros… Mas é exatamente nesses cataclismas que estão alguns dos maiores mistérios.

Para estudá-los, o Brasil conta com a astrofísica Elisabete Dal Pino. Com 59 anos, ela tem credenciais de peso: dois pós-doutorados, um em Harvard e o outro em Berkeley. A professora da USP é líder brasileira do Observatório CTA, o Cherenkov Telescope Array. O projeto internacional vai reunir mais de 100 telescópios para criar o maior observatório de detecção de raios gama que já existiu – e assim, entender melhor alguns dos eventos mais “truculentos” do universo.

Os raios gama são o tipo de radiação com mais energia que conhecemos. A maior parte da radiação (ou luz) que estamos acostumados a ver no espaço é emitida por objetos bem quentes: quanto maior o calor da fonte de radiação, mais cheia de energia ela vai ser. Só que os raios gama têm tanta energia que objetos não são nem capazes de ficar quentes o suficiente para emiti-los. É preciso um ambiente especial para que eles apareçam – geralmente, eventos violentos como explosões ou jatos de material expelido próximo a buracos negros gigantes no centro do universo. E é por isso que é tão importante estudar raios gama: eles são uma pista que leva diretamente ao coração de eventos extremos, para que possamos compreendê-los melhor.

O problema é que a maioria desses raios não chegam até nós. Ainda bem: nossa atmosfera filtra com muita eficiência esse tipo de radiação, porque em grandes quantidades ela destruiria o metabolismo dos seres vivos da Terra. Só que, em termos de ciência, isso torna tudo mais difícil. 

Entra aí Elisabete e o CTA. Os raios que a equipe planeja detectar com os telescópios interagem com a atmosfera. O produto final desse encontro é uma cascata azul de partículas subatômicas. Aí o negócio fica interessante. Nada viaja mais rápido que a luz no universo – isso no vácuo. No ar, a luz desacelera minimamente, em 0,03%. E, nessas condições, as partículas cheias de energia viajam mais rápido que ela. Elas criam um “flash” azulado chamado de Efeito Cherenkov.

Esse tipo de flash é raro e dura bilionésimos de segundo. Para não perder a chance de captá-lo, o CTA vai ser uma rede com uma centena de telescópios de diferentes tamanhos, espalhados entre o hemisfério sul e o norte. A informação detectada nessas chuvas de partículas vira a tela de trabalho de cientistas como Elisabete, que ganham a dificílima tarefa de entender o que esses dados significam.

Projetos astronômicos envolvem tipos variados de especialistas. Tem quem trabalha observando as estrelas, mas o foco de Elisabete é nos números. A pesquisadora trabalha com modelagem, usando equações para dar um sentido matemático ao que os telescópios captam no universo. São esses cálculos que nos ajudam a entender os mecanismos que guiam o comportamento e a evolução das galáxias, as estrelas e os demais objetos espalhados por aí.

E é nessa área que Elisabete coleciona pioneirismos. Ela estudou o que permite que raios cósmicos, aquelas partículas que viajam próximas à velocidade da luz até chegar na Terra, ganhem tanta aceleração assim. Inaugurou no Brasil o uso de equações de fluidos magneto-hidrodinâmicos para analisar como se comportam os gases nas estrelas e galáxias. Por trás desses diferentes projetos, o princípio é sempre o mesmo: entender como as leis da Física, as mesmas que funcionam aqui na Terra, regem também a formação e evolução dos mais diversos objetos no universo.  

Marilda Mendonça

Uma criança que nasce hoje no Brasil tem chance praticamente zero de ter sarampo – com sorte, em mais algumas gerações, vai virar coisa de filme de época, tipo poliomielite.

Uma das responsáveis por essa façanha é Marilda Mendonça, virologista da Fiocruz. Ela mesma passou por uma baita crise de sarampo na infância e abraçou a luta para acabar com a doença nos anos 1990.

O vírus é extremamente contagioso, o que significa que é preciso manter quase a população toda imunizada (ou seja, vacinada), para evitar os surtos. Isso por causa do chamado “efeito rebanho”: quando existe uma quantidade muito grande de gente imune a uma doença, ela não consegue formar a “corrente de contágio” necessária para se espalhar. E assim, mesmo quem não é vacinado fica mais protegido de uma epidemia.

Só que a proporção de gente que precisa estar imunizada para criar o “efeito rebanho” varia de doença para doença – e alguns casos são mais complicados que os outros. Para caxumba, por exemplo, a proporção necessária fica entre 75% e 86% de população imunizada, segundo a OMS. Para o sarampo, é bem maior: 95% precisa estar vacinada.

Esse número o Brasil alcançou em 1992, depois de uma campanha gigantesca de vacinação liderada por autoridades como Marilda. O Programa de Imunização virou referência para a América Latina e até para o próprio Brasil na hora de combater uma doença parecida, a rubéola. Menos letal que o primo sarampo, ela é um risco maior para grávidas, por causar problemas de desenvolvimento para o feto.

A rubéola zerou em 2009. O sarampo, em 2015 (sumido em 2000, reapareceu brevemente há 2 anos por uma queda na taxa de vacinação – ela continua importante!). Mas o cenário já mudou: quando a doença aparece, é controlada e isolada rapidamente, em vez de matar milhares.

Controle de epidemias seguiu como especialidade de Marilda, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ela foi protagonista no combate à H1N1, a gripe suína, que trouxe pânico em 2009. E para coroar a trajetória, Marilda fez parte do grupo de quatro brasileiros que recebeu o Certificado de Erradicação da Organização Panamericana de Saúde (Opas), em abril deste ano.

Janice Zanella

Falando em gripe suína, a terceira das indicadas nesta categoria também é virologista. Mas em vez de trabalhar com humanos, seu foco são os bichos – o que também acaba protegendo a gente.

Pesquisadora da Embrapa desde o início da carreira, Janice Zanella é chefe de um centro que estuda e cria normas de prevenção para doenças respiratórias em aves e suínos. Na crise de H1N1 de 2009, ela participou das análises do vírus e da equipe que desenvolveu a vacina para animais, depois de uma temporada nos EUA estudando o vírus influenza.

No Brasil, isolou o vírus pela primeira vez em suínos. E sua guarda não baixa: seu desafio na Embrapa inclui garantir a segurança da carne em todos os lugares em que ela é produzida, desde os abatedouros gigantescos até junto dos produtores menores, com menos estrutura.

A cientista é representante brasileira no projeto de vigilância global da Organização Mundial de Saúde Animal quanto ao vírus influenza em suínos.