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Micróbios primitivos poderiam sobreviver em Marte

Pesquisa revela que extremófilos metanógenos – micróbios simples e arcaicos que sintetizam metano – se adaptariam às condições de vida do planeta vermelho

O preço a se pagar por um corpo tão cheio de funções quanto o de um mamífero é imobiliário. Ter estômago, pulmões e um cérebro capaz de conceber A Ilíada – e de ler esta nota – limita um bocado o número de hábitats possíveis para nós: o Saara é quente demais, a Antártida, muito fria, e no fundo do oceano a pressão é tão grande que seríamos esmagados. Um grupo de micróbios conhecidos como extremófilos, por outro lado, não faz questão de conforto nem de oxigênio. E uma nova pesquisa revela que vários deles se dariam bem na atmosfera de Marte.

A descoberta é de Rebecca Mickol, astrobióloga da Universidade de Arkansas (EUA), em artigo publicado publicado no periódico Origins of Life and Evolution of Biospheres. Se você estiver cansado da Terra e quiser pegar uma carona com essa família, formada por cerca de 50 espécies de micróbios simples e arcaicos, conhecidos como metanógenos, se prepare para algumas exigências exóticas.

Para eles, além de desnecessário, o oxigênio é tóxico. Eles retiram sua energia do hidrogênio e usam moléculas de dióxido de carbono, inimigo número 1 do aquecimento global, para produzir metano — a tal “metanogênese” que dá nome ao grupo. O metano é a molécula orgânica mais simples disponível em um livro de química do ensino médio. Embora ele possa ser sintetizado em erupções vulcânicas e outros fenômenos naturais, uma boa parcela dele vem de organismos vivos: você, só de soltar pum, produz 50 ml diários do gás. Onde há metano, portanto, há vida, e há uma quantidade razoável de metano na pequena atmosfera do planeta vermelho. Bingo: o primeiro pré-requisito de sobrevivência dos metanógenos está preenchido.

Vencidos os problemas gasosos, começam os problemas de pressão atmosférica. Na superfície de Marte, ela é pelo menos cem vezes menor que por aqui – nessas condições, é quase impossível manter a água em estado líquido. Mickol contou ao Phys.org que foi desafiador criar, em laboratório, um ambiente de baixa pressão livre de oxigênio, mas que as quatro espécies de extremófilos testadas não se abalaram com o esforço: passaram incólumes por até 21 dias de vida quase marciana. Mais uma barreira vencida.

Agora, falta somar temperaturas de até 100 °C negativos às condições atuais, o terceiro e último pré-requisito. A temperatura, mais próxima às médias noturnas de Marte, torna o ambiente simulado bem fiel ao original. Nessas condições, o Methanothermobacter wolfeii e seus primos viveriam no subterrâneo para se proteger da radiação solar. A pesquisadora deixou claro que o fato de haver formas de vida na Terra capazes de sobreviver em Marte não significa que exista vida por lá, uma ressalva importante para os ufólogos de plantão.

Comentários

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  1. Giovanna Campanelli

    Matéria muito interessante. Artigos sobre ciência astronômica sempre, na minha opinião, despertam atenção e interesse do leitor. Só gostaria de comunicar que no 2° parágrafo, na 2° linha, a palavra “publicado” se repete:

    “A descoberta é de Rebecca Mickol, astrobióloga da Universidade de Arkansas (EUA), em artigo publicado publicado no periódico Origins of Life and Evolution of Biospheres.”

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