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Modificação genética em bebês chinesas pode fazê-las viver menos

As meninas que tiveram seu genoma modificado antes mesmo de nascerem podem até ser imunes ao HIV – mas correm o risco morrer antes dos 76 anos.

Por A. J. Oliveira - 4 jun 2019, 18h48

Mesmo que esta nunca tivesse sido sua intenção, um cientista chinês pode ter condenado dois seres humanos inocentes a uma morte mais precoce — antes mesmo de nascerem. Foi nesse tipo de enrascada ética que o biofísico chinês He Jiankui se meteu ao tomar a decisão controversa de alterar o genoma de duas garotinhas gêmeas para torná-las resistentes ao HIV. Só que essa mesma mutação pode reduzir a expectativa de vida das pessoas a carregam.

A conclusão partiu de um estudo comandado por pesquisadores americanos e dinamarqueses, feito com nada menos do que 410 mil voluntários. Segundo a pesquisa, indivíduos com as duas cópias do gene CCR5 desativadas – assim como as bebês chinesas – podem até ter menos chance de contrair o vírus da aids, mas a proteção vem com um custo. Essas pessoas têm uma probabilidade 21% maior de morrer antes dos 76 anos em relação a quem tem ao menos uma cópia do gene funcionando.

Ainda não se sabe a causa dessa discrepância. O artigo, publicado nesta segunda-feira (3) na revista Nature Medicine, reforça ainda mais as duras críticas da comunidade científica contra o experimento anunciado por Jiankui em novembro de 2018. Ele usou a tecnologia CRISPR para criar os primeiros bebês com genomas editados da história. Foi prontamente condenado pelos colegas de outros países, pelo governo chinês e até mesmo por sua própria instituição, a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China.

Possíveis implicações provocadas pela modificação de um ou de outro gene humano são, no geral, uma incógnita para a ciência. O grande dilema ético por trás desses estudos é que não é somente a vida das pessoas modificadas que está em jogo — alguma eventual mutação desastrada pode acabar sendo herdada pelos descendentes e futuras gerações. É um tema delicado, e o consenso entre os cientistas é de que ainda é cedo demais para arriscar experimentações. Falta conhecimento teórico.

O que Jiankui fez foi deletar partes do gene CCR5 para desativá-lo por completo. Ele imitou uma mutação que ocorre naturalmente em certas populações humanas, que os cientistas chamam de CCR5-Δ32. É esse gene que comanda a produção da proteína que permite ao HIV penetrar as células do sistema imunológico. Por isso o chinês achou que seria uma boa ideia desligá-lo de vez. Mas evidências sugerem que detentores da mutação se tornam mais suscetíveis a certos vírus, como o da gripe e o do oeste do Nilo.

Na mesma época em que He fez seu anúncio, a bióloga evolucionista April Wei, da Universidade da Califórnia em Berkeley, desenvolvia um algoritmo para investigar a relação entre mutações e longevidade. Ela e o colega geneticista Rasmus Nielsen decidiram testar a ferramenta com o CCR5.

Wei afirma que os resultados corroboram a ideia de que remover o gene de embriões é uma verdadeira furada. “Mesmo se resolvermos as dificuldades técnicas e as questões éticas, poderíamos realmente editar um gene sem saber se poderá haver um efeito deletério?”, questiona Wei, em entrevista à Nature.

Antes de partir para pesquisas duvidosas que podem produzir consequências catastróficas, a engenharia genética deve entender melhor como funciona o genoma humano — para só então pensar em modificá-lo com segurança.

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