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Molécula da Semana: zolpidem, o hipnótico

Entre 2011 e 2018, as vendas de Zolpidem aumentaram 560% no Brasil. Foram vendidas 11,4 milhões de caixas só em 2018. Entenda como ele te põe para dormir.

Por Bruno Vaiano - 24 jul 2020, 13h29

Você dá um gole de cerveja. Começa a jornada do álcool. Algo entre 70% e 80% do etanol será absorvido rapidamente pelo intestino delgado. De lá, a malvada da cachaça pega carona na circulação sanguínea e chega ao cérebro. O que isso tem a ver com zolpidem? Calma, vamos chegar lá. Por enquanto, fica a dica óbvia: jamais misture álcool e remédios.⠀ ⠀

Seu cérebro é uma rede de neurônios. Os neurônios têm uma parte que recebe estímulos (os dendritos) e uma parte que envia estímulos (o axônio). Entre o axônio de um neurônio e o dendrito de outro neurônio há um vão chamado fenda sináptica. É lá por meio dessa fenda que os dois neurônios se comunicam.⠀ ⠀

Na membrana dos neurônios, bem na fenda sináptica, há algo chamado receptor GABA-A: uma espécie de portão que autoriza ou proíbe a entrada de íons de cloro (íons são átomos de cloro que estão carregados eletricamente. Nesse caso, a carga é negativa). O álcool abre o GABA-A e deixa um monte de cloro entrar.⠀ ⠀

Quando o cloro entra na célula, ele inibe a transmissão de impulsos entre os neurônios graças a um fenômeno chamado hiperpolarização. Seu cérebro começa a funcionar em câmera lenta.

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E é agora que vem o pulo do gato na explicação: o zolpidem te faz dormir porque também abre o receptor GABA-A. Bem como todos os demais remédios hipnóticos e sedativos (como os benzodiazepínicos, tipo o Lorazepam, e os anestésicos barbitúricos). É claro que abrir o GABA-A é só um pequeno componente do efeito desses remédios. Eles são metabolizados de maneiras distintas do álcool, e têm efeitos colaterais diferentes.

O que não é coincidência é que tantas pessoas precisem de um ou do outro para relaxar ao final do dia. De acordo com o Instituto do Sono de São Paulo, os brasileiros estão dormindo 1h30 a menos, em média, do que na década de 1990: são só 6h30 por noite. Mais de 70 milhões de brasileiros têm algum grau de insônia. Entre 2011 e 2018, as vendas de Zolpidem aumentaram 560% no Brasil. Foram vendidas 11,4 milhões de caixas só em 2018. Embora o Zolpidem seja um remédio seguro e menos viciante que o Lorazepam, não é recomendável consumi-lo em longo prazo.

Afinal, essa insônia raramente está sozinha. Em geral, os insones não conseguem dormir por causa de dor crônica, depressão, ansiedade, má-alimentação etc. Ou seja: o melhor é sempre combater as causas – e parar de abrir seus GABAs para qualquer íon cloro. Para saber mais, ouça o episódio sobre sono do nosso podcast Terapia, disponível no Spotify e no YouTube.

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Esse foi o Molécula da Semana – nosso post semanal sobre química no Instagram, que agora também vai aparecer no site. Aguarde a próxima molécula. Semana que vem, vamos falar do benzeno. 

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