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Morte provisória: humanos são postos em animação suspensa pela 1ª vez

A técnica consiste em injetar soro gelado na artéria aorta para deixar o corpo a 10 ºC – o que dá mais tempo para realizar cirurgias em feridos graves.

Por Bruno Vaiano - 22 nov 2019, 16h43

Médicos de um pronto-socorro em Baltimore, nos EUA, colocaram pela primeira vez pacientes humanos em um estado conhecido como “animação suspensa” – uma espécie de hipotermia induzida de propósito. A notícia com gostinho de ficção científica foi revelada em um simpósio na Academia de Ciências de Nova York no último dia 18. 

Para colocar um paciente em animação suspensa, é preciso injetar diretamente em sua artéria aorta (a mais importante do corpo) uma grande quantidade de soro gelado. Quando a temperatura alcança algo entre 10 ºC e 15 ºC, a respiração e os batimentos cardíacos se reduzem a um patamar mínimo, indetectável sem auxílio de aparelhos. O organismo passa a funcionar em câmera lenta – se a vida fosse um vídeo, isso equivaleria a dar uma pausa para não apertar o stop

Depois da cirurgia, basta reaquecer o corpo e reanimar o coração. Na teoria, pelo menos. Pessoas não são lasanhas. Experimentos com porcos, porém, são otimistas: mostram que os animais podem voltar à vida após 3 horas na friaca sem efeitos colaterais graves.

O objetivo da técnica – chamada tecnicamente de preservação e ressuscitação de emergência (EPR) – é aumentar as chances de sobrevivência de vítimas de acidentes graves, disparos de arma de fogo ou facadas quando eles chegam à mesa de cirurgia. Se um ferido já perdeu mais de 50% do sangue e tem uma parada cardíaca durante o atendimento, ele só tem 1 chance em 20 de sair vivo. Com auxílio da EPR, os médicos ganham minutos (ou até horas) a mais para intervir – o que pode colaborar com o desfecho do procedimento. 

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Ainda não sabemos o quanto colabora: essas cobaias (serão dez até o final do ano) são parte de um estudo clínico pioneiro, cujos resultados só serão divulgados no final de 2020, após uma análise minuciosa. Samuel Tisherman – líder do estudo, que foi realizado em um hospital na Universidade de Maryland – não revelou o número de pacientes que já foram resfriados, nem quantos sobreviveram.

Os resultados dessas dez pessoas serão comparados ao de outras dez que chegaram ao hospital com quadros clínicos semelhantes mas foram submetidas à cirurgia tradicional. Assim saberemos se a EPR de fato é eficaz. Depois que o coração de um paciente para, os médicos têm apenas cinco minutos para reestabelecer a circulação de sangue antes que o cérebro sofra danos irreversíveis pela baixa oxigenação.

Como as baixas temperaturas diminuem ou interrompem as reações bioquímicas no interior das células (lembra das aulas de Química? O calor é um ótimo catalisador), elas param de exigir oxigênio constantemente e ficam em um estado letárgico. É por isso que, pelo menos no papel, a EPR tem potencial para evitar problemas no cérebro e em outros órgãos importantes de feridos em estado grave.

A FDA (uma espécie de Anvisa americana) autorizou que o estudo fosse realizado sem consentimento prévio dos pacientes – pelo simples motivo de que eles provavelmente já iam morrer de qualquer forma. Mas há um site em que qualquer cidadão pode registrar que não aceita ser cobaia. Quem ficou com medo de ir para o freezer pode se garantir.

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