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Mudanças no clima podem gerar um Apartheid global, diz relatório da ONU

Documento alerta para um cenário em que os ricos pagam para escapar dos desastres climáticos — e o resto do mundo mergulha num sofrimento sem precedentes

Por A. J. Oliveira Atualizado em 26 jun 2019, 18h56 - Publicado em 26 jun 2019, 18h52

Segundo a ONU, o mundo poderá voltar a viver um apartheid. Só que, ao contrário do regime de segregação racial sul-africano da segunda metade do século 20, desta vez a separação será global, de classes — e causada pelo clima.

É uma das conclusões do relatório apresentado no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, na Suíça. Quem elaborou o texto foi Philip Alston, relator especial sobre extrema pobreza e direitos humanos. Como especialista independente, sua missão é averiguar para o conselho como esses temas estão caminhando nos países mais pobres do mundo. Segundo ele, as coisas não vão nada bem.

Alston prevê que a crise climática pode arrastar mais de 120 milhões de pessoas para a pobreza já nos anos 2030, jogando no lixo todo o progresso feito nos últimos 50 anos em desenvolvimento, saúde global e redução da pobreza. “Corremos o risco de um cenário de ‘apartheid climático’ em que os ricos pagam para escapar do superaquecimento, da fome e do conflito, enquanto o resto do mundo sofre desamparado”, diz o relator.

As implicações que as mudanças climáticas trarão para os direitos humanos serão imensas, afirma o especialista. Mas a grande maioria das instituições que zelam pelo tema ao redor do mundo mal começou a vislumbrá-las. Alguns dos âmbitos que devem ser gravemente afetados são os direitos à vida, comida, habitação e água. Os impactos que estão por vir também poderão trazer riscos às democracias.

E os pobres serão os mais castigados. “Perversamente, enquanto as pessoas na pobreza são responsáveis por apenas uma fração das emissões globais [de CO2], elas vão carregar o fardo das mudanças climáticas, e têm a menor capacidade de se proteger”, disse Alston. Como explica o relatório, populações de países pobres e em desenvolvimento costumam viver em áreas mais suscetíveis e em moradias menos resistentes. Elas costumam perder tudo quando são afetadas por algum desastre. E a inexistência ou ineficiência das redes de seguridade social dificultam sua recuperação.

Consequências como doenças, destruição de lavouras, aumento no preço dos alimentos, migrações forçadas em massa, invalidez por acidentes, mortes: são fatores catastróficos que atingem em cheio as classes mais baixas. Ainda não estamos no olho do furacão da crise climática. Neste século, já houve sete vezes mais mortes por desastres naturais nos países pobres do que nos países desenvolvidos.

De acordo com o relatório, a culpa pela inação para enfrentar as mudanças climáticas é da falta de liderança governamental e de comprometimento do setor privado. Mas os órgãos de direitos humanos também estão sendo complacentes com a questão e precisam começar a levá-la mais a sério. Alston afirma que a única solução é promover mudanças estruturais profundas na economia mundial, caminhando para um modelo verde e sustentável.

A crise do clima é, sem sombra de dúvidas, o maior desafio que a humanidade já teve de enfrentar. Mas é também uma grande oportunidade de passar a limpo certos entraves que há séculos impedem o pleno desenvolvimento das nações. Podemos, por exemplo, passar a encarar as mudanças climáticas não como obstáculo ao crescimento econômico, mas como um impulso para transformar esse crescimento. É isso ou o apartheid climático.

 

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