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Mundos fedorentos

Gás de vulcão dá vida às luas Tritão e Io

A recente descoberta de vulcões em Tritão, lua de Netuno, a coloca no rol das luas fedidas. Isso significa que ela tem reservas de amoníaco suficientes para abastecer todas as donas de casa da Galáxia. O fornecimento é inesquecível. A amônia jorra dos vulcões gelados da zona polar de Tritão misturada com poeira fina, sob o impulso de jatos de nitrogênio. Arrastadas pelos ventos, essas substâncias formam esteiras de fumaça de até 100 quilômetros de comprimento. Foi o que mostraram as naves americanas Voyager, que por lá passaram há alguns anos. A causa desses fenômenos foi apresentada na revista americana Science, por 63 cientistas da Universidade do Arizona. É que a capa polar de Tritão é recoberta por um estranho continente, feito de nitrogênio sólido a 237 graus abaixo de zero, e 50 metros de espessura. A luz do Sol atravessa essa camada transparente e, abaixo dela, é absorvida pelo solo escuro do satélite. A energia da luz volta a ser irradiada, mas como raios infravermelhos, que não atravessam o gelo. Este se aquece por baixo, formando cavernas cheias de gases.

Quando tudo explode, o gás comprimido rompe a camada de nitrogênio e sobe na forma de plumas de 8 quilômetros de altura. Isso está ocorrendo no pólo sul de Tritão por ele estar no fim da primavera. O verão chega após o ano 2000 e durará dezenas de anos. Durante esse tempo, a capa polar sul será vaporizada, indo se condensar de novo em forma de gelo no pólo norte. Esse ciclo, que faz ora um, ora outro pólo apontar para o Sol, se repete a cada 600 anos. O complexo calendário de Tritão vem do fato de seu eixo de rotação estar muito inclinado, apontando quase na direção do Sol, contrariamente ao que ocorre na Terra e na maioria dos outros corpos planetários (pouco inclinados). Bem longe de Tritão, em torno de Júpiter, gira outra lua, Io, do mesmo tamanho que a primeira, mas ainda mais nauseabunda. Io lembra a descrição bíblica do inferno, onde chafarizes de enxofre enfeitam jardins fumegantes. Os vulcões de Io são muito mais violentos e quentes que os de Tritão, atingindo 17 graus Celsius. O Pele, por exemplo, ejeta 1000 toneladas de matéria por segundo a uma altura de 300 quilômetros. Ele foi descoberto quase por acaso, por uma engenheira de navegação da equipe da Voyager, Linda Morabito.

Para checar a posição precisa da nave, Linda media as posições de estrelas próximas à borda do satélite. Assim, viu uma apagada pluma em forma de sombrinha projetando-se acima do pólo sul de Io. Nada além de estrelas era esperado naquela posição. Então, um refinado processamento de imagem por computador mostrou que se tratava de uma erupção vulcânica, exatamente como haviam previsto Stanton Peale, da Universidade de Santa Bárbara e seus colaboradores Patrick Cassen e Ray Reynolds da NASA. Suas previsões baseavam-se no efeito de maré. O problema é que o interior de Io deveria sofrer fortes tensões devido à imensa força gravitacional de Júpiter e de três luas suas, Europa, Ganimedes e Calisto. O calor resultante seria de 10 milhões de megawatts. Assim, as rochas derretidas subiriam para a superfície, libertando gases e partículas sólidas. Os chafarizes de Io ejetam essa mistura que cai sobre o solo, tapando os buracos e dando-lhe um aspecto de pizza coberta por mozzarella e rodelas de tomates derretidos. Em conseqüência dessa cobertura constante da superfície, o material vulcânico desempenha um papel rejuvenescedor sobre as luas. Ele apaga, por assim dizer, as rugas de rachaduras e cicatrizes deixadas pelo impacto de meteoros. Depois do enxofre, Io passará a expelir outros materiais, e o mesmo ocorrerá em Tritão. Essas duas luas, então, devem perder o estigma de malcheirosas. Como a Lua da Terra, as cicatrizes se cristalizarão em suas faces. Estarão mortas.