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Novo dicionário da anatomia

Quem conversa demais fala pelos cúbitos, mulheres que não querem ter filhos podem amarrar as tubas uterinas e dor de garganta é sinal de tonsila inflamada. Prepare-se: a partir de dezembro quatro em cada dez dos termos usados para designar as partes do corpo humano vão mudar

Lúcia Helena de Oliveira

Você vai falar esse medicinês

Calma, por enquanto ainda dá para se referir a dolorosas amígdalas inflamadas, ou a mulheres que amarram as trompas para evitar bebês. Dá até para falar pelos cotovelos, se quiser. Mas dentro de hospitais e escolas médicas a conversa logo será outra. A partir de 1º de dezembro, os especialistas deverão trocar mais de 2 000 palavras, ou seja, quase 30% dos 6 700 nomes usados para designar as partes macroscópicas do corpo humano. Se a gente levar em conta outras alterações, como as dos termos referentes às partes microscópicas e às partes de qualquer tamanho recém-batizadas, que nem tinham nome próprio, as mudanças chegam a 40% do medicinês. Apenas com o tempo – muito tempo, provavelmente – é que a nova nomenclatura poderá se popularizar.

“Só os dentistas vão ganhar 77 novos termos”, conta o anatomista Liberato J. DiDio, primeiro brasileiro a dirigir uma faculdade médica americana, a da Universidade de Ohio, onde trabalhou por mais de quarenta anos. “Cada curva dos dentes ganha um nome indicando sua localização exata. Queremos com essas inovações aumentar a precisão na hora de descrever um caso clínico.” As modificações estão sendo estudadas há sete anos por um seleto comitê internacional de 21 anatomistas eleitos por colegas de trinta países, do qual DiDio, hoje diretor da Universidade de Santo Amaro, em São Paulo, é o secretário-geral. Só há dois meses o grupo chegou a uma lista final. Ou quase final, porque aceita sugestões até 30 de novembro. Enquanto esse prazo não vence, qualquer um pode dar sua opinião (veja como na página 51).

No futuro, vai cair no vestibular

Os primeiros nomes anatômicos surgiram quando o homem das cavernas identificou os diferentes cantos do corpo. Depois, na Antiguidade, o estudo da Anatomia disparou. Só no final do século passado, porém, apareceu na Europa a primeira lista dos nomes usados pelos especialistas. De lá para cá, ela foi revisada várias vezes, a última delas em 1980. Mas nestes dezesseis anos nenhum anatomista andava muito satisfeito.

A atualização era necessária. Para alguns dicionários anatômicos, o fígado ainda tem quatro segmentos independentes entre si. Mas, graças a um trabalho do professor DiDio, em 1988 ficou provado que existem oito segmentos. Ou seja, o fígado de um único doador pode ser repartido entre oito crianças à espera de um transplante. Os especialistas queriam também eliminar erros do passado, como descrições malfeitas, e achavam que era hora de todos falarem a mesma língua. Hoje alguns órgãos atendem por nomes diversos, dependendo do país.

A meta do comitê é fazer com que as publicações médicas adotem já a nomenclatura recém-nascida. O segundo passo será corrigir os nomes nos livros escolares. Depois, os anatomistas esperam que os novos termos sejam cobrados no vestibular. Pode levar até uma década para que isso aconteça. Até lá você já deve ter se acostumado com as dores nas tonsilas, os ligamentos de tubas e, quem sabe, até aprenda a falar pelos cúbitos.

PARA SABER MAIS

Sinopse de Anatomia, L.J. DiDio, Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1974.

Anatomy, de E. Gardener, R. O’Rahilly e D. Gray, Saunder Co., Filadélfia, Estados Unidos, 1992.

O que muda da cintura para cima…

De preferência, os novos nomes do corpo humano indicam o que o órgão faz e não apenas a sua forma. Aliás, muitos formatos estavam descritos de um jeito errado, assim como as funções. Veja alguns casos:

Zigoma

[em grego, quer dizer “união de dois”] É o osso que liga as estruturas da face. Ex-malar (de “maçã” em latim). Muitos anatomistas antigos também eram botânicos e, por isso, comparavam as regiões do corpo com frutas, como no caso da “maçã do rosto”, onde fica esse osso.

Mandíbula

[“que morde”, em latim] Osso do queixo onde os dentes inferiores se fixam. Era conhecido por maxilar inferior (derivado de “queixo”, em latim). Está certo que ele fica no queixo, mas, como a meta é dar nomes indicando a função, o comitê preferiu o termo mandíbula.

Artéria torácica

[na origem latina, “vaso da região intermediária do corpo”] É uma artéria que irriga vários órgãos do tórax, não só as mamas, como o ex-nome, mamária interna, dava a entender. Agora as cirurgias de ponte mamária no coração serão de ponte torácica.

Sistema digestório

[na origem latina, “que transforma os alimentos”] É o conjunto dos órgãos responsáveis pela digestão. Ex-aparelho digestivo (“que facilita a digestão”). O final da palavra muda o sentido e, claro, o estômago e seus parceiros são mais do que meros facilitadores. Sistema, grupo de órgãos com tarefas parecidas, ficou no lugar de aparelho, que é a união de dois ou mais sistemas.

Hipófise

[de origem grega, significa “embaixo da região onde o cérebro é maior”] É uma glândula comandante, que governa várias glândulas do corpo. Também podia ser chamada de pituitária (relativo à mucosa das narinas, em latim), porque até o século XVII achava-se que ela produzia o muco nasal. O conhecimento avançou, mas o antigo nome persistiu até agora.

Tonsila

[do latim, quer dizer “massa arredondada de tecido”] É o aglomerado de células de defesa na garganta. Ex-amígdala (“aquilo com forma de amêndoa”, para os gregos). A mudança diferencia a estrutura da garganta de outra amígdala, que é parte do cérebro.

Proeminência laríngea

[a primeira palavra vem do latim e significa “saliência”] É a região onde a laringe se alarga. Antigo pomo-de-adão (pomu, em latim, é fruta carnosa) por causa do mito de que a maçã do pecado original teria ficado presa na garganta de Adão e seus descendentes. O nome muda para evitar discriminação. Afinal, as mulheres também têm essa saliência, embora menor.

Cúbito

[cubitu, em latim, é o osso da articulação entre o braço e o antebraço] Ex-cotovelo (medida usada pelos romanos, equivalente a três palmos), pois a articulação fica, mais ou menos, a essa distância da ponta dos dedos.

Ulna

[braço, em latim] Na verdade é um dos ossos do antebraço. Ex-cúbito, palavra mais apropriada para o velho cotovelo, a articulação do braço.

… e o que muda da cintura para baixo

Nenhuma parte do corpo levará o nome de seu descobridor. A mania só complicava, pois nem a função nem a forma do órgão ficavam evidentes. E ainda havia casos nos quais a fama ficou para outros e não para o verdadeiro autor da descoberta.

Tela subcutânea

[do latim, quer dizer “trama de fios diferentes sob a pele”] Na realidade, é uma trama de tecidos diferentes. Por isso ficou no lugar de hipoderme (do grego, simplesmente “sob a pele”). Esse termo não passava a idéia de que ali existe uma mistura de tecidos diferentes.

Complexo golgiense

É a única exceção. Trata-se de uma organela dentro das células, que sempre foi conhecida por complexo de Golgi, localizada pelo fisiologista italiano Camillo Golgi (1843-1926). Os anatomistas tinham que arrancar o nome próprio. E como queriam manter a homenagem ao médico que ganhou o Prêmio Nobel em 1906, a saída foi inventar um adjetivo.

Patela

[disco chato, em latim] É a articulação na altura dos joelhos. Ex-rótula (rodinha, na mesma língua). Para o comitê encarregado das mudanças, o osso estava mais para disco chato do que para rodinha.

Nódulos linfáticos

[nodulu, em latim, significa nó pequeno] Aglomerado de células defensoras. Antes também eram chamadas de gânglios linfáticos (gágglion, em grego, é uma estrutura pequena). A troca é para evitar confusão. Agora todo gânglio é do sistema nervoso. E os nódulos ficam para o sistema de defesa.

Fíbula

[o alfinetete que fechava a toga dos romanos] O osso da perna que era perônio (do diminutivo de peroné, em francês, peça que prende as cordas do violino). Fíbula venceu porque sua função é ligar as extremidades do osso tíbia do mesmo modo como o alfinete ligava as pontas da toga.

Tendão calcâneo

[tendão, de origem latina, quer dizer “o que se estende”] É o tecido fibroso no final da musculatura da perna que fica preso ao osso do calcanhar, o calcâneo. Seu nome anterior, tendão de Aquiles, apelava para o mito grego de Aquiles, herói cujo ponto fraco era bem ali.