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Novos fósseis revelam como viviam os denisovanos, primos extintos dos sapiens

As descobertas, que incluem o primeiro osso do braço da espécie, indicam que esses hominídeos eram excelentes caçadores, apesar das ferramentas simples.

Por Bruno Carbinatto 14 set 2026, 08h00
Novos fósseis revelam como viviam os denisovanos, primos extintos dos sapiens Priorizar nos meus resultados Google

Uma pedreira abandonada no sudoeste da China revelou segredos valiosos sobre o modo de vida dos denisovanos, primos extintos dos sapiens. Uma grande leva de fósseis encontrados no local indica que esses hominídeos eram, há mais de 130 mil anos, exímios caçadores, ainda que suas ferramentas fossem bastante primitivas.

As descobertas, publicadas em dois artigos da revista Nature, incluem artefatos de pedra e de ossos construídos por eles. Esse é um dos maiores avanços no estudo dessa misteriosa espécie.

Os denisovanos foram hominídeos que, assim como os neandertais, conviveram e se reproduziram com os humanos. Prova disso é que humanos carregam em seu material genético DNA de origem denisovana; a herança é maior em pessoas do Leste e Sudeste Asiático e, principalmente, entre aborígenes australianos e nativos da Papua-Nova Guiné.  

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Ao contrário dos neandertais, porém, sabemos relativamente pouco sobre eles. A espécie só foi identificada em 2010, por meio do DNA encontrado em alguns poucos fragmentos de osso na caverna da Denisova, na Sibéria (Rússia) – daí o nome. Por anos, esses fósseis foram os únicos conhecidos deste grupo.

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A partir de 2019, novos vestígios da espécie foram sendo encontrados, especialmente na Ásia, e ossos localizados décadas antes foram identificados como sendo de indivíduos denisovanos graças à análise de suas proteínas, incluindo fragmentos de mandíbulas achados no Tibete e no Estreito de Taiwan. Em 2025, então, o rosto desse nosso parente foi finalmente revelado após o primeiro crânio da espécie ser identificado, na China. 

Agora, uma nova descoberta em uma caverna também na China traz um avanço valioso: sete novos fósseis denisovanos, incluindo o primeiro fragmento do braço de um indivíduo. E não só: o local estava repleto de ferramentas construídas por esses hominídeos e de restos de animais caçados por eles.

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Os itens foram encontrados em 2019 enquanto trabalhadores faziam uma restauração ecológica na Caverna Bianfu, localizada numa pedreira abandonada na província chinesa de Yunnan. Desde então, o local vem sendo escavado por arqueólogos, que encontraram diversas ferramentas e fragmentos de ossos.

Os achados eram, a olho nu, parecidos com pedaços de hominídeos, mas faltava saber qual espécie. Uma busca por DNA não deu frutos: a molécula é frágil e se degrada com o tempo.

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Múltiplas imagens de fósseis e modelos digitais de dentes e ossos. A e B mostram dentes em diferentes ângulos, alguns incrustados em rocha. C e D exibem dentes e seus modelos digitais em azul e cinza. E apresenta dois fragmentos ósseos. F e G mostram fragmentos de rocha com marcas e texturas. Uma barra de escala preta está presente
Fósseis de denisovanos encontrados no local. (Ruan, Q., Li, H., Xing, S. et al. Denisovans from southwestern China and their subsistence strategies. Nature (2026)/Reprodução)

A análise das proteínas dos fósseis, por sua vez, indicou que sete deles eram de indivíduos denisovanos: quatro dentes, dois fragmentos de crânios e um pedaço de rádio, um osso do antebraço. Esse é, inclusive, o primeiro vestígio do braço dessa espécie.

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As ferramentas encontradas no local eram feitas de ossos, semelhantes às produzidas pelos seus primos neandertais, ou de pedras lascadas. Elas eram simples e primitivas, produzidas com apenas alguns golpes, em vez de serem moldadas e aperfeiçoadas por meio da retirada de lascas pequenas. Ou seja, provavelmente eram feitas para uso imediato, e não frutos de um processo longo e focado em construir um item permanente.

Apesar disso, os denisovanos provavelmente eram caçadores habilidosos, já que a caverna estava repleta de ossos de mamíferos de médio e grande porte, incluindo de veados e de búfalos-asiáticos – animais que não são fáceis de capturar e exigem estratégias complexas e, possivelmente, trabalho em equipe. Os restos mortais indicam que os hominídeos sabiam inclusive retirar a medula óssea, uma parte rica em calorias e gorduras, dos ossos das suas presas.

O mais interessante é que os fósseis foram encontrados em camadas arqueológicas diferentes, o que indica que viveram em tempos distintos. Os cientistas estimam que os denisovanos identificados habitaram a caverna entre 167 mil anos atrás e 134 mil anos atrás.

Nove conjuntos de artefatos de pedra e osso, exibidos em pares ou trios, com setas amarelas indicando marcas de uso ou detalhes específicos. A escala vertical à direita mostra 5 cm.
Artefatos de ossos e pedra encontrados na caverna. (Ruan, Q., Li, H., Xing, S. et al. Denisovans from southwestern China and their subsistence strategies. Nature (2026)/Reprodução)

Já as ferramentas foram encontradas em camadas que vão de 190 mil anos atrás até 70 mil anos atrás, o que indica uma possível ocupação do local de até 120 mil anos. Não dá para saber, no entanto, se todas foram feitas por denisovanos.

“Este sítio arqueológico é significativo porque reúne fósseis, tecnologias e estratégias de subsistência em um único e longo registro estratificado”, diz Bo Li, professor da Universidade de Wollongong, na Austrália, e um dos autores do estudo. “Ele nos permite ir além de descobertas isoladas e distribuições inferidas pela genética, mostrando como os denisovanos realmente se adaptaram ao seu entorno. É uma prova de quão diversa era a tecnologia das antigas populações humanas no Leste Asiático.”

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