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Nuvem cósmica esconde estrelas

Bem perto da Terra, uma nuvem cósmica esconde estrelas muito jovens. Quando elas nasceram, os faraós ainda estavam construindo as pirâmides

Augusto Damineli Neto

Na noite de 27 de julho do ano passado, apontei o telescópio de 1,60 metros do Laboratório Nacional de Astronomia, em Brazópolis, Minas Gerais, para a nebulosidade da Lagoa, na constelação de Sagitário, na ponta do Triangulo chamado Taça de Chá. Foi como se estivesse vendo uma gravidez por um aparelho de ultra-som: surgiram cerca de quinhentas estrelas- bebês, numa área de 55 trilhões de quilômetros. Consegui vê-las porque boa parte da luz das estrelas jovens sai como ondas de calor. Ou seja, elas emitem raios infravermelhos, que são invisíveis, como um comprimento de onda de um milésimo de milímetro. E eu tinha regulado o equipamento para captar luz nessa faixa.

Depois, reduzi a quantidade de luz que vinha da região mais brilhante e vi algumas estrelas bem maiores que o Sol, ainda envoltas maiores que o Sol, ainda envoltos na “placenta” – imensos volumes de gás da nuvem . O envoltório de gases indica que as estrelas são muitos jovens. Mais novas até que a Herschel 36 (H36), a estrela mais jovem que se conhece. A H36 tem 10 000 anos e também fica na Lagoa. As estrelas que eu vi podem ter nascido na época da construção das pirâmides do Egito, há cerca de 3 000 anos. No entanto, o Cálculo preciso das idades das irmãs caçulas da H36 não é tarefa simples e ainda deve levar muito tempo.

Milhares de estrelas estão nascendo nesse “berçário estela” muito perto de nós. A nebulosidade da Lagoa fica 4 500 anos-luz (um ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros). Em termos astronômicos, isso é um “pulinho” da terra. Ainda assim, é muito difícil fazer o exame pré-natal da nebulosidade para ver como estão se desenvolvendo os “embriões cósmicos”.
É que embriões mais fracos são escondidos pela poeira interestelar e ofuscados pelas estrelas mais brilhantes. Ela mostra a nebulosa à luz visível. Os pontos azuis, à luz visível. Os pontos azuis, à beira da nuvem, são estrelas com até dez vezes a massa do sol e 2 milhões de anos de idade. A área mais brilhante marca o centro da nebulosa, onde se escondem estrelas muito mais jovens que as azuis. Uma delas é a H36. A H36 nasceu longe de suas irmãs azuis porque as estrelas não surgem todas de uma só vez, mas em varias ninhadas e em diferentes lugares. É que os gigantescos bebês têm uma luz forte demais e não deixam os gases e a poeira se condensarem ao seu redor. Por isso, o berçário da Lagoa mudou de lugar. Há 2 milhões de anos, ele ficava onde agora estão os astros azuis. Hoje ele está no local onde nasceu a H36.

Aconteceu os seguintes forma: a luz forte das estrelas azuis e também os chamados “ventos” estelares – a matéria gasosa que elas ejetam para o espaço – pressionaram a matéria da nuvem, fazendo-a se condensar em grandes bolhas. A força da gravidade, então, foi empurrando as partículas umas contra as outras. Até que elas começaram a trombar entre si e a se esmagar, provocando reações nucleares. Pronto, surgiu mais uma estrela. E o ciclo se repete, até consumir toda a matéria da nuvem.
Num primeiro momento, a ciência nos reduz a micróbios, quando nos faz ver tão longe e não nos permite voar até lá. Por outro lado, é fascinante ter à frente um punhado de mundos que ninguém viu antes, como um jogo, na tela do computador. Todos os mundos, como os da lagoa, passaram a ser, então, lugarejos dentro do cosmo do homem. Como diz o poeta francês Paul Valéry (1871-1945), “eu contenho o universo que me contem”

A luz visível da nebulosa
A lagoa aparece no telescópio como uma nuvem avermelhada e centro brilhante. Os pontos azuis não são embriões. São estrelas jovens, Nascidas há 2 milhões de anos.

O centro em raios infravermelhos
A luz infravermelho não pode ser captada pelo olho. Mas é registrada por câmeras especiais que mostram centenas de pontos luminosos imersos em poeira interestelar. São estrelas ainda bebês.
A Herschel 36, de 10 000 anos de idade, está bem no centro, escondida pela luz intensas.

Placentas feitas de poeira e gás
Os embriões de estrelas se desenvolvem no centro da nebulosidade da Lagoa, envoltos em matéria cósmica. 

A Herschel 36 e suas caçulas 
Reduzido a intesidade da luz que vem do centro da nebulosa, dá para ver a Herschel 36. É a mancha amarelada maior. As manchas menores são outras estrleas, ainda envoltasna poeira. Elas podem ter sugeirdo à época da construção das pirâmides do Egito, há apenas 3000 anos.