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O alquimista de Frankenstein

Johannes Konrad Dippel, possível inspiração de Mary Shelley, tentava criar monstrinhos em seu laboratório

Álvaro Oppermann

Uma noite sem luar deixava o Castelo de Frankenstein nas trevas em 10 de agosto de 1673. Nesse ambiente, uma mulher deu à luz um bebê do sexo masculino, pequeno e de cabelos negros. O menino mirrado se tornou um alquimista, e rumores começaram a correr a seu respeito: o povo dizia que descobrira a fórmula da juventude. Aldeões assustados garantiam, de pés juntos, que no recesso do seu laboratório produzia homúnculos (seres humanos diminutos e deformados).

O trecho acima não foi extraído de Frankenstein, de Mary Shelley. É a descrição da vida de Johannes Konrad Dippel, uma das figuras mais enigmáticas do século 18.

Quando Dippel veio ao mundo no castelo em Darmstadt – que de 1252 a 1662 abrigara a família Frankenstein (um sobrenome razoavelmente comum) –, o lugar era um albergue para desvalidos e feridos de guerra. Seu pai, um pastor luterano, buscou refúgio ali por causa das perseguições religiosas na Alemanha da época.

Dippel cursou medicina e teologia entre 1691 e 1698. A sua paixão, porém, era a alquimia. Ao lado de experimentos que resultaram em compostos químicos úteis – como a descoberta do pigmento azul-da-prússia, usado por tintureiros e pintores –, Dippel gastava seus melhores esforços na busca do Arcanum Chymicum, um composto alquímico que seria a fonte da juventude. Com ele, garantia, viveria até os 135 anos (não se sabe por que esse número, e não outro). Também se dedicava à tentativa de transmutar chumbo em ouro – chegou a montar um laboratório em Berlim para isso. Sua inspiração eram os tratados medievais de alquimia, que já estavam com pouco crédito na época – Isaac Newton e Robert Boyle já haviam demonstrado sua falta de embasamento científico. Ainda assim, Dippel e vários outros continuaram perseguindo em vão essa quimera.

No fim da vida, Dippel montou um laboratório de alquimia no castelo de um nobre em Berleburg, no norte da Alemanha. Seu desejo era fabricar ouro em quantidade suficiente para comprar o Castelo de Frankenstein, onde nascera. Não deu certo, e o pobre Dippel morreu envenenado – provavelmente com cianeto de potássio – num experimento em 1734. O tresloucado sonho alquímico acabara.

Grandes momentos

• Dippel nasceu e passou a juventude no Castelo de Frankenstein. Gostava tanto do local que, ao nome de batismo, acrescentou um “von Frankenstein” na assinatura.

• Radu Florescu, estudioso romeno autor de Em Busca de Frankenstein, garante que Mary Shelley se inspirou no alquimista para compor o trágico doutor Victor Frankenstein do seu romance. Mary conheceuo castelo (e a saga de Dippel) no ano de 1816.

• Dippel tentou criar homúnculos. O método era bizarro: fertilizar ovos de galinha com sêmen humano, tampando com menstruação o orifício feito na casca.