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O Fantasma de Ubajara: cientistas registram macaco-prego sem pigmentação

Manchas brancas pelo corpo de “Fantasma”, como foi chamado pelos pesquisadores, podem indicar falta de variabilidade genética e fragmentação da população

Por Tabita Said, para o Jornal da USP 24 fev 2026, 18h00
O Fantasma de Ubajara: cientistas registram macaco-prego sem pigmentação Priorizar nos meus resultados Google

O texto a seguir foi publicado originalmente no Jornal da USP.

Cientistas brasileiros publicaram o primeiro relato de leucismo em um Sapajus libidinosus, uma espécie de macaco-prego cuja variação de cores vai de pelagens marrom-escuras até amarelo-douradas claras, com extremidades geralmente pretas. A presença de manchas brancas mostra uma perda parcial de melanina na pelagem e é extremamente rara em primatas. 

Diferentemente do albinismo, que já foi identificado anteriormente em um macaco-prego-preto e em um macaco-prego-das-guianas, ambos em cativeiro, o caso relatado agora mostra um filhote, de aproximadamente três meses, com leucismo – doença congênita que causa perda parcial ou total de melanina na pelagem ou nas penas dos animais, embora a cor dos olhos permaneça escura, o que é considerado “normal”. 

O macaquinho, chamado informalmente pelos pesquisadores de “Fantasma”, vive no Parque Nacional de Ubajara – Unidade de Conservação de Proteção Integral localizada na região da Serra da Ibiapaba, Estado do Ceará, e administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

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“Eu estava instalando os gravadores de som na área, daí observei primeiro esse macaco branco ali, diferente, que nem era do nosso grupo de estudo. Fui atrás e vi esse filhote branquinho”, conta ao Jornal da USP o primatólogo Tiago Falótico, pesquisador associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, e presidente da Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo), associação brasileira de apoio à pesquisa.

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O animal foi observado duas vezes, em um intervalo de 30 dias. Todas as características estavam preservadas e seu comportamento foi o mesmo esperado de um infante saudável: era carregado pela mãe e, eventualmente, sua curiosidade também o levava a explorar o local sozinho. Mas estava socialmente integrado ao bando, sem sinais de rejeição pelos demais membros do grupo.


O Fantasma e o Jenipapo

Características do parque, como fragmentação territorial e intensa ocupação humana nas extremidades, poderiam indicar alguma influência que resultasse no aparecimento do leucismo entre os macacos. Entre essas influências estaria a poluição, alterações ecológicas ou mesmo uma mudança na alimentação padrão dos animais.

“Uma das hipóteses dessa diferença de coloração seria o fator ambiental. O primeiro é o genético, alguma mutação aleatória que deu essa característica. A outra seria a questão da alimentação, alguma deficiência alimentar ou algum poluente; alguma coisa que está contaminando os macacos que a gente nem tem ideia”, explica Falótico.

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O parque Ubajara tem 6.300 hectares e engloba florestas, montanhas, cavernas e cachoeiras, marcado por áreas úmidas e frias, no planalto, e outras secas, de transição para o semiárido, na planície. A diferença entre a parte de baixo e de cima do parque também se reverte em microclimas distintos, e uma diversidade de plantas e frutas.

No entanto, a tese da influência ambiental, a princípio, está descartada. “Se fosse alguma coisa mais ambiental, de poluição e de alimentação, a gente espera que veria muito mais [casos de leucismo] espalhados nos grupos”, argumenta o pesquisador, que não desconsidera a análise genética. “Não temos desse indivíduo, em particular, mas a gente pode pelo menos dar uma olhada se tem algum gene conhecido de leucismo rodando na população e que não está ativo. Mas, o mais provável, é que ele seja uma mutação nova.”

A pulga atrás da orelha tem uma razão de ser: ao descobrirem o Fantasma, os pesquisadores decidiram revisar vídeos e informações em antigos bancos de dados, onde encontraram registros de um macho adulto, que também apresentava uma mancha branca na cabeça, embora mais sutil. Esse macaco é o Jenipapo. E não: ele não é pai do Fantasma.

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Fotografia do Jenipapo é um macho adulto com uma mancha de pelo mais claro no topo da cabeça .
Jenipapo é um macho adulto com uma mancha de pelo mais claro no topo da cabeça. (Tiago Falótico / Extraída do artigo/Divulgação)

“O Jenipapo é de outro grupo, e provavelmente é o macho alfa de lá”, explica Tatiane Valença, coautora do artigo que foi publicado durante a conclusão de seu doutorado no Instituto de Psicologia (IP) da USP. Tatiane também é pesquisadora visitante do Instituto Max Planck de Comportamento Animal em Konstanz, na Alemanha. “O mais fofo do grupo do macaquinho branco é o Zeca, provavelmente o pai dele. A gente conhece bem”, completa a pesquisadora e atualmente coordenadora de campo na base de pesquisas da NeoPReGo no parque cearense.

“Na verdade, tem outra característica que a gente não colocou [no artigo], mas, além da cabeça, o Jenipapo tem uma descoloração nos testículos”, conta Falótico ao Jornal da USP. Nenhum outro macaco-prego com esses padrões foi observado pela equipe nessa população desde o início da pesquisa, há seis anos.

Fotografia de um filhote leucístico de macaco-prego-barbudo (Sapajus libidinosus) do Parque Nacional de Ubajara e sua mãe. Ele tem membros e cauda com coloração esbranquiçada, diferente do padrão de coloração da pelagem da mãe
Fotografia de um filhote leucístico de macaco-prego-barbudo (Sapajus libidinosus) do Parque Nacional de Ubajara e sua mãe. Ele tem membros e cauda com coloração esbranquiçada, diferente do padrão de coloração da pelagem da mãe. (NeoPReGo / extraídas do artigo/Divulgação)

O risco da perda de uma tradição

Para os pesquisadores, a presença de dois macacos-prego com padrões de coloração anormais é um sinal de alerta para manter um monitoramento de longo prazo. Não apenas preservando a espécie, mas uma longa tradição de uso de ferramentas que é passada de geração em geração.

“Essa população é bem interessante porque, durante o meu doutorado, eu descobri que eles usam não só as pedras para quebrar coco, como boa parte dos macacos-prego, mas eles também usam pedras para cavar e usam varetas para tirar aranhas de alçapão de tocas. Um comportamento que a gente só tinha visto na Serra da Capivara”, destaca Tatiane Valença.

Se a hipótese genética estiver correta, o leucismo pode ser uma consequência do cruzamento de uma população pequena na qual a diversidade genética diminui significativamente. Com isso, genes recessivos raros (que normalmente não se manifestam) ganham maior probabilidade de aparecer.

Somente o acompanhamento e o registro sistemático desses animais poderá confirmar o aumento dessa característica na população de macacos-prego do Ubajara, um parque que também sofre a pressão das mudanças climáticas e do desenvolvimento urbano.

“Esse sinal de mutação – um bicho com cor diferente – pode ser um indicativo de endogamia de uma população que está restrita, ali, num fragmento, e não está tendo fluxo gênico. E tem outros problemas, como a população de animais domésticos entrando e interagindo com os animais do parque”, aponta Tiago Falótico.

“Conservar essas populações é importante para a gente conservar a diversidade de tradições dos macacos-prego. Esses comportamentos são importantes para a sobrevivência desses animais, mas também nos ajudam, enquanto seres humanos, a entender mais sobre nós mesmos”, conclui Tatiane.

O artigo First observation of a leucistic bearded capuchin monkey (Sapajus libidinosus) foi publicado na revista Primates.

Mais informações: tiago@neoprego.org, com Tiago Falótico.

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