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O fim da extinção

Cientistas prometem clonar no próximo século bichos que correm risco de desaparecer da face da Terra. Depois será a vez dos já extintos.

Wanda Nestlehner

Foram 133 anos de espera. Mas valeu a pena. Depois de passar todo esse tempo de molho num vidro no Museu Australiano, um feto de tigre- da-tasmânia – marsupial que, apesar do nome, se assemelha mais a um cachorro – virou coqueluche científica. A espécie está extinta desde 1936, mas, agora, pesquisadores da Austrália querem ressuscitá-la, produzindo um embrião por meio de clonagem. Por isso, estão doidos para pôr a mão naquela raridade guardada no museu. O projeto é apenas um dos muitos que mobilizam os cientistas, loucos para aproveitar a técnica usada na criação da ovelha escocesa Dolly, o primeiro clone do mundo, feito em 1997. Só que, agora, em prol da preservação da biodiversidade.

As experiências estão no começo, mas tudo indica que irão em frente. Genes não morrem. Eles podem se tornar inativos ou se degradar, mas desde que não estejam desintegrados podem ser, eventualmente, recuperados. Por isso tem gente querendo fazer desde mamutes, que já não andam por aí há uns 5 000 anos, até pandas gigantes e tigres siberianos, cujas populações minguam a cada dia. Claro que não vai ser fácil, mas se der resultados – e tem gente achando que dá – será uma novidade espetacular. As extinções poderão ser extintas!

“Calculo nossas chances em menos de 5%, num prazo de vinte anos e com orçamento de 50 milhões de dólares”, admitiu à SUPER o diretor do departamento de Biologia Evolucionária do Museu Australiano, Don Colgan, responsável pelo projeto de clonagem do tigre-da-tasmânia. Colgan não quer fazer promessas que não possa cumprir, mas tem grande esperança no seu feto em conserva, que, por sorte, não foi mergulhado no formol, mas em álcool, mais apropriado para preservar material genético. Enquanto não começa a trabalhar nele, o que deve acontecer nos próximos meses, sua equipe se diverte com uns pedaços de pele do tigre. Os pesquisadores já conseguiram encontrar cinco genes, que devem agora ser mapeados. É uma ninharia. Não se sabe quantos são os genes daquele animal, mas, para ter uma idéia, os do homem somam cerca de 140 000.

Só uma ferramenta

Muitos ambientalistas acreditam que o esforço empregado nesse tipo de projeto seria mais útil na conservação do hábitat das mais de 5 000 espécies hoje ameaçadas. “A extinção é um processo natural”, disse à SUPER o zoólogo mineiro Gustavo da Fonseca, diretor executivo do Centro de Pesquisas Aplicadas em Biodiversidade da Conservation International, entidade com sede em Nova York. “O que o homem tem que fazer é parar de acelerá-lo.”

Fonseca tem razão. Mas, se não houver prejuízo para os esforços tradicionais de preservação, não há por que deixar de procurar alternativas. “A clonagem é uma ferramenta. Temos que desenvolvê-la, assim como desenvolvemos a reprodução in vitro”, diz José Antônio Visintim, professor de Zoologia na Universidade de São Paulo, que tenta clonar bovinos, ainda sem resultados, há dois anos. “O papel do cientista é descobrir como fazer. Depois a sociedade resolve se deve realmente fazer.”

wanda.nestlehner@abril.com.br

Algo mais

O feto de tigre-da-tasmânia guardado no Museu Australiano virou picles em 1866. Há pelo menos outros cinco preservados, todos com mais de 70 anos, em museus ao redor do mundo. Com eles, acreditam os pesquisadores, será possível conseguir uma variabilidade genética capaz de sustentar a recuperação da espécie via clonagem.

Promessa de salvação

Os pesquisadores sabem que o caminho até a possível clonagem do tigre-da-tasmânia, extinto desde 1936, será bem longo.

1. O primeiro desafio é extrair e mapear genes de ossos, de pele, de partes do corpo e de fetos conservados nos museus, o que pode levar anos ou mesmo décadas.

2. Com um pedaço daqui, outro dali, pretende-se obter o genoma completo do bicho e introduzi-lo no óvulo de um primo australiano – o numbat (Myrmecobious fasciatus) ou o demônio-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) – para gerar um embrião.

3. O embrião deverá ir para o útero de uma mãe de aluguel da espécie escolhida.

4. A expectativa é de que o bicho resultante tenha boa porcentagem do DNA da espécie que não existe mais.

Mea culpa

Tudo indica que, há 5 000 anos, o homem acelerou o fim do mamute. Agora quer reverter o erro.

Um dos candidatos potenciais à clonagem ecológica é Jarkov, um mamute que passou mais de 20 000 anos encravado no gelo siberiano. Encontrado em 1997 e desenterrado em outubro passado, ele é um prato cheio para os cientistas. Ninguém ainda sabe se vai ser possível achar genes suficientemente preservados para a clonagem. De qualquer forma, há um bom estoque de células para se pesquisar – o bicho tem 3 metros de altura. Ao lado, você vê uma imagem de como ele era antes de morrer.

Procuram-se mães de aluguel

Os avanços da clonagem nos últimos anos são inegáveis. Por isso, a idéia de copiar animais selvagens não soa assim tão absurda, ainda que possa demorar um pouco para se tornar realidade. Em maio do ano passado, pesquisadores de Massachusetts, Estados Unidos, fizeram clones de bezerros, os primeiros depois da ovelha Dolly. Um mês mais tarde, nasceram ratos na Universidade do Havaí. A Nexia Biotechnologies, em Montreal, Canadá, clonou cabras em abril deste ano. Em maio, surgiu o primeiro porco, na Geron Bio-Med, na Escócia. No mesmo mês, nasceu o camundongo Fibro, primeiro macho obtido a partir de células adultas. Em setembro, a Universidade Texas A&M, em College Station, nos Estados Unidos, anunciou a criação do primeiro touro a partir de células de um animal morto. As amostras de pele foram retiradas um pouco antes da morte do bicho, um ano antes.

São bons passos. O problema é que para chegar a esses incríveis resultados os cientistas jogaram no lixo milhares de óvulos, as células sexuais femininas. Por razões que ainda não se conhecem direito, são necessárias muitas tentativas para conseguir um clone – e cada uma inutiliza um óvulo. No caso de animais de curral ou de laboratório, tudo bem. Essas células estão sobrando. O escocês Ian Wilmut, do Instituto Roslin, gastou nada menos que 277 delas para chegar a Dolly. No caso de espécies ameaçadas, no entanto, os óvulos são artigo de luxo. Retirá-los de uma fêmea de panda gigante – cuja população está em torno de 1 000 indivíduos hoje – só para fazer pesquisa pode ser um desperdício. A probabilidade de que sejam fertilizados naturalmente ou mesmo artificialmente são bem maiores. A fertilização in vitro já rendeu 44 filhotes do bicho, que se tornou símbolo do movimento ecológico.

Células emprestadas

A saída encontrada pela Academia Chinesa de Ciências foi lançar mão da célula feminina de um coelho branco japonês. Como as informações são muito controladas no país, até hoje ninguém sabe se o embrião resultante foi implantado numa fêmea para ser gestado. Se foi, e se tudo correu bem, o primeiro clone de panda deverá nascer no começo do ano 2000.

Será realmente uma boa notícia, pois tem muito pesquisador quebrando a cabeça com o dilema da escassez de óvulos. Ironicamente, a esperança para os bichos raros pode estar nas triviais vacas. No ano passado, cientistas americanos da Universidade de Wisconsin, em Madison, anunciaram ter usado células sexuais delas para criar embriões de porcos, ratos, ovelhas e macacos (veja o infográfico). É verdade que os clones não sobreviveram muito tempo, mas as pesquisas continuam. Pesquisadores coreanos, da Universidade de Seul, anunciaram ter misturado óvulo de vaca com DNA humano em 1997. Mas decidiram parar o experimento quando chegaram a quatro células.

Enquanto não se consegue fazer uma vaca dar à luz bichos diversos, a alternativa é recorrer aos parentes. Liderada pelo zoólogo Woo Suk Hwang, que já andou clonando gado, a equipe coreana se prepara para injetar núcleos de células de tigre siberiano em óvulos de tigre-de-bengala. Os dois bichos são bem parecidos geneticamente, só que o primeiro está desaparecendo. Há cerca de 400 na natureza. Do outro ainda existem uns 5 000. Acredita-se que, por serem parentes, o óvulo de um poderá acomodar bem o DNA do primo, transformando-o num embrião.

Filhos bastardos

Pesquisa da Universidade de Wisconsin misturou orelhas de porco, de ovelha, de rato e de macaco com óvulos de vaca para produzir clones.

1. Retirou-se o núcleo (que contém o DNA) de células adultas de várias espécies. O resto foi dispensado.

2. Com a ajuda de uma pesada dose de hormônios, a fêmea bovina produziu uma superovulação. Dos seus óvulos também foi retirado e dispensado o núcleo.

3. Na parte que sobrou de cada óvulo, chamada citoplasma, foi injetado o núcleo das células dos outros bichos.

4. As células começaram a se multiplicar em duas, quatro, oito, mas pararam por aí. Por que não se sabe.

5. Caso tivessem se desenvolvido normalmente, os embriões obtidos seriam implantados no útero de uma fêmea da espécie doadora do DNA, gerando um clone.

Zoológicos de genes congelados

Sem euforia, mas animados, pesquisadores de todo o mundo estão se preparando para a era da clonagem ecológica. Começam a guardar DNA retirado de células da pele e do sangue de animais selvagens. Até o Brasil já tem zôos congelados.

Jaguatiricas, onças, papagaios, cervos e lobos-guarás são os primeiros a doar suas células. “Nossa coleção inclui 500 amostras de seis felinos diferentes e 180 de várias espécies de papagaios”, contou à SUPER a geneticista Edislane Barreiros de Souza, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no campus de Assis, interior de São Paulo. Ela trabalha junto com a entidade ecológica Associação Mata Ciliar, que anda por aí espetando animais e recolhendo as preciosas amostras para o laboratório. Em Brasília, o Centro Nacional de Recursos Genéticos (Cenargen) preserva material de lobo-guará. O professor José Maurício Barbanti Duarte, da Unesp de Jaboticabal, por sua vez, faz uma biblioteca de cervídeos. “Temos DNA de 115 cervos-do-pantanal, quarenta veados-campeiros, trinta veados-mateiros e trinta veados-mão-curta”, disse ele à SUPER. “A maioria desses animais já está morta, mas seus genes poderão ser recuperados no futuro.”

Resgate genético

Otimismo demais? Talvez. O que Duarte não quer é perder tempo. Os bichos estão morrendo e levam com eles sua variabilidade genética. Claro que o ideal seria preservar todos na natureza, mas, se não é possível, então que pelo menos sua receita fique guardada.

Para a professora Edislane, a coleta de material tem vantagens que antecedem a clonagem. Ela pode servir para avaliar a real situação genética das populações que habitam ecossistemas espremidos pelo homem. Nesses lugares, os parentes passam a cruzar entre si, o que reduz a capacidade de adaptação da espécie, deixando-a mais suscetível a doenças. O conhecimento de seus genes vai ajudar na escolha de pares para cruzamentos futuros, além dos melhores candidatos à clonagem.

“Eu não tenho dúvidas de que caminhamos para desenvolver uma técnica útil à ecologia”, diz o veterinário brasileiro Lawrence Smith, há dez anos professor da Universidade de Montreal, no Canadá. Ele fez um clone de boi misturando duas espécies nativas da Índia que já vinham sendo cruzadas entre si. Seu bezerro tem 1 ano e 2 meses, é a cara do pai e vai muito bem, obrigado. Um ótimo agouro para os animais ameaçados, que podem precisar de óvulo alheio para ser clonados. Só há um problema. Poucos sabem, mas o citoplasma (a parte da célula que não é o núcleo) também tem genes, embora eles não definam características físicas. “Esses genes são os responsáveis pela reprogramação dos demais, os do núcleo, durante o desenvolvimento”, explica Smith. Os genes do citoplasma de seu bezerro são iguais aos da mãe (a doadora do óvulo para a clonagem), embora todo o resto tenha vindo do pai (o doador do núcleo).

No caso, a diferença não teve conseqüências. Mas, segundo Smith, pode ser uma pista de que não dá para fazer clonagem senão com espécies muito parecidas. Se houver incompatibilidade, a ordem para a célula se especializar corre o risco de não ser entendida e o desenvolvimento pára. Talvez seja por essa razão que os clones de outros bichos feitos com óvulo de vaca não vingaram. Mas quem garante que, com o tempo, os cientistas não vão entender melhor essa química e produzi-la todinha no laboratório? A possibilidade é grande. Por isso, no século XXI a extinção pode virar um problema do passado.

Estoque de receitas

A molécula que guarda as características dos bichos é armazenada em freezers ou em hidrogênio líquido.

1. As células do sangue ou da pele podem ser arquivadas inteiras, mas alguns pesquisadores preferem retirar o DNA, que fica no núcleo.

2. Para guardá-lo, a amostra de células precisa passar por várias lavagens com soluções que acabam por destruir o citoplasma e a membrana que recobre o núcleo das células.

3. Livres, as moléculas do DNA se exibem a olho nu na forma de um emaranhado de finíssimos fios brancos.

4. Uma pequena gota, com milhares de moléculas, vai para o freezer a 80 graus Celsius negativos ou para um tambor de hidrogênio líquido. Ali fica preservada por tempo indeterminado. O prazo de validade, acredita-se, passa dos 100 anos.

Para preservar um amigo

Clonar animais de estimação pode virar uma alternativa.

Em 1998, um casal de milionários americanos, que até hoje não se identificou, ofereceu 2,3 milhões de dólares a quem quisesse clonar sua cadela. Um exemplar de raça rara? Não. Missy é uma legítima vira-lata. Mas que vira-lata! Fiel, obediente, charmosa. Um amor. A Universidade Texas A&M topou na hora. “Pelo nosso compromisso de sigilo, não posso dizer quantos embriões já fizemos com o DNA da Missy”, disse à SUPER o veterinário Mark Westhusin, que lidera a equipe envolvida.

“Mas temos feito progressos.” A universidade é séria. Tem até um clone de touro no currículo. Afirma que aceitou a encomenda porque quer estudar a clonagem de canídeos em geral. Donos de cavalos também andam procurando quem queira clonar seus alazões. Mas nesse caso dá para entender: são bichos que valem fortunas e, quando morrem, bye bye galinha dos ovos de ouro. O veterinário João Junqueira Fleury, dono do Centro de Reprodução J.O., em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, inaugurou a moda no Brasil, mas só para armazenamento de DNA. Começou com Turbante, garanhão que era de seu avô, e agora já tem genes de quinze cavalos congelados. O serviço custa 1 500 reais.