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O homem que se lembra de tudo

Ele é tetracampeão americano de memória. Consegue decorar e guardar na cabeça quantidades inacreditáveis de informação. E só descobriu esse superpoder por causa da avó. Viaje conosco pela mente de Nelson Dellis: o dono de um dos cérebros mais poderosos do planeta.

Feijoada no prato, caipirinha na mão e um baralho na cabeça. É o que tem o loiro alto sentado à minha frente. Enquanto arremessa cartas entre as porções de couve e torresmo, o homem diz: “Ás de ouros, rei de copas, rainha de paus…”.

A cena atrai poucos olhares das mesas ao redor. Afinal, quem ouve aquela voz calma cantar cartas em inglês nativo imagina uma situação corriqueira no badalado restaurante de comida brasileira – um gringo aprendendo truco, por exemplo. Mas, de perto, não há dúvidas: o que acontece ali beira o sobrenatural. Aquele homem não tem como ler as cartas que sobrevoam a mandioca e os bolinhos de arroz. De olhos fechados durante todo o tempo em que distribui o baralho, só existe uma coisa que ele pode ler: a própria mente.

Mas isso não é problema para o tetracampeão americano de memória, Nelson Dellis, de 31 anos. Dono de uma das mais poderosas mentes do planeta, ele memoriza um baralho inteiro com a facilidade de quem decora o endereço de casa. Momentos antes de distribuir as cartas, passou os olhos no baralho por apenas 77 segundos – e conseguiu jogar uma sequência de 52 cartas para dentro da cabeça.

Na verdade, isso é pouco para ele. Nelson consegue memorizar nada menos do que 20 baralhos – e recitar a sequência exata de 1.040 cartas. Foi o que ele fez este ano, ao vencer pela quarta vez o campeonato americano de memorização. Ele veio ao Brasil para participar de um evento sobre memória e saúde do cérebro – após o qual passou um dia com a reportagem da SUPER.

“Como diabos é possível manter milhares de cartas… na cabeça?”, pergunto eu, que mal mantenho as palavras de uma frase no cérebro. Nelson dá um sorriso, aponta um trio de cartas na mesa e diz: “Isso sou eu assinando um chihuahua”. Ok. A caipirinha está forte, mas não é para tanto. Peço que ele explique melhor. “Eu sou o ás de ouros, meu pai é o rei de copas e Paris Hilton é a rainha de paus”, diz. “Ah, agora sim!”, penso em dizer. Mas ele resolve desencarnar o Chapeleiro Maluco e me explicar como faz para engolir cartas com o cérebro: “Simples: basta ler as histórias que o baralho conta”. 

Soa meio como feitiçaria, mas é pura lógica. Para entender o método de Dellis, é preciso apenas cartas e imaginação. Primeiro, tire uma carta do baralho e escolha uma pessoa para ela – se for o ás de paus, por exemplo, uma solução fácil é escolher um ás nos tacos de madeira: o campeão de sinuca Rui Chapéu. Depois, escolha uma ação e um objeto para a mesma carta – no caso, a ação pode ser “jogar sinuca” e o objeto, chapéu. Agora repita o processo com as outras cartas. Quando terminar todas, pegue três cartas ao acaso, coloque em uma sequência e leia: 1) a pessoa que está na primeira carta, 2) a ação que está na segunda e 3) o objeto que está na terceira. Pronto, o baralho vai te contar uma história. 

Ao transformar o baralho em palco de historinhas, Nelson se torna uma espécie de diretor de teatro das cartas. Pergunto a ele que critérios usa para selecionar seus protagonistas. “No caso do ás de ouros, a solução foi simples: escolhi a mim mesmo porque é a minha carta favorita”, explica. “Já com o rei de copas, também foi óbvio. Como todas as cartas do naipe de copas são pessoas da minha família, o rei só poderia ser meu pai.”

Certo, mas por que Paris Hilton como rainha de paus? Antes que pense bobagem: “Rainha de paus em inglês é `queen of clubs¿ (algo que também significa rainha das boates)”, diz ele. “Tudo a ver com Paris, não é?”  Criar historinhas é um jeito simples e eficaz de gravar trios de cartas. Mas como memorizar um baralho inteiro com elas? A resposta não é óbvia. Mas é simples: tudo mora num mesmo palácio.  

Brilho eterno do palácio da lembrança

Há 2.500 anos, caiu a casa na Grécia Antiga. Ou melhor: caiu o teto de um palácio inteiro no meio de um jantar. No exato momento em que o poeta Simônides de Ceos pisou fora do palácio, destroços de rocha e mármore soterraram e desfiguraram todos os convidados, tornando impossível o reconhecimento dos corpos entre as ruínas. Simônides, então, fechou os olhos e imaginou cada passo que deu no palácio, desde a recepção do jantar até o momento do trágico acidente. Abriu os olhos e imediatamente disse, um a um, o nome e o lugar de cada pessoa sentada à mesa no jantar. 

O mito do homem que reconstruiu um palácio na cabeça deu nome a uma nova técnica de memorização: o “palácio da memória”, método que consiste em gravar informações na mente como se fossem passos dentro de um caminho. Codificado, refinado e amplamente utilizado durante a história, o método fez sucesso além do território grego. Com ele, senadores romanos decoraram discursos, escolásticos medievais memorizaram a Bíblia, trovadores renascentistas recitaram poemas e acadêmicos de todos os séculos ostentaram erudição.

Mas aí surgiu a imprensa, que despejou uma enxurrada de livros baratos e acessíveis no mercado. Em um mundo com informações facilmente à disposição, a utilidade das técnicas de memorização despencou. E o palácio caiu (em desuso). Mas ainda hoje há lugares em que o método sobrevive com a mesma força dos tempos de Simônides: os campeonatos de memória.

Na realidade, dá para memorizar cartas em qualquer espaço imaginário. Um pálacio imponente, um palacete assobradado, a saudosa maloca ou a casa da sua tia, tanto faz. O único requisito para um cenário ser promovido a “palácio da memória” é que se possa imaginar caminhos nele. Ou seja, serve praticamente qualquer coisa. O campeão de memória malaio Yip Swee Chooi, por exemplo, usou o próprio corpo para memorizar as 56 mil palavras das 1.774 páginas do dicionário chinês-inglês.

Mas é aconselhável escolher palácios vastos para competições. Afinal, não é em qualquer cabeça de alfinete que vão caber 100 mil dígitos do número pi – recorde memorizado pelo japonês Akira Harugachi durante um evento realizado em Tóquio no ano de 2006. Harugachi memorizou todos esses dígitos e depois os recitou em voz alta, um a um, o que levou inacreditáveis 16 horas e 30 minutos. Não errou nenhuma vez.

O lugar que Dellis escolheu para guardar suas cartas não tem nada de suntuoso. Antes de pegar o baralho na mão, ele bolou um trajeto com 18 passos dentro do próprio quarto – o suficiente para armazenar todas as historinhas que cabem em 52 cartas: 17 trios mais uma. Quando Dellis lê o primeiro trio, imagina uma historinha acontecendo no início do caminho. A partir daí, cada novo trio conta outra história que se encena no próximo passo do trajeto. E assim vai até que o baralho chega ao fim. Nesse ponto, Dellis pode arremessar o baralho pela janela que não faz nenhuma diferença. Cartas agora são tão úteis para ele quando um palácio em ruínas é para Simônides.  

É exatamente esse o momento em que Dellis fecha os olhos. Retomando uma tradição mnemônica de mais de 2.500 anos, ele refaz todo o caminho trilhado no palácio que ergueu dentro da memória.

Um cara comum

Memorizar baralhos pode ser uma habilidade impressionante. Mas é apenas um dos múltiplos talentos de Dellis. Sabe a revista aqui na sua mão? Ele a devora tão facilmente quanto os bolinhos de arroz na mesa (“Delicioso. É o melhor petisco”, diz). Ele não fala português, mas memoriza rapidamente todas as palavras dos textos da SUPER. É fichinha para quem consegue decorar um jornal inteiro. Páginas, texto, manchetes, imagens, créditos, telefones, anúncios, tudo. E não para aí.

Digamos que eu me levante, pegue um cartão de crédito de cada uma das mesas ao lado (SOS, cleptomaníacos anônimos) e mostre a Dellis. Em menos de cinco minutos, ele terá todos os números na cabeça – todos os dígitos de até 32 cartões. E isso é só aperitivo perto da quantidade de informação que Dellis ingere todos os dias em sua dieta de cinco horas de treinamento: 7 baralhos, 360 palavras aleatórias, 600 nomes, 1.500 dígitos numéricos e 100 linhas de poesia.

“Esse cara não é normal.” Taí um pensamento difícil de evitar. Basta passar os olhos no parágrafo acima para enxergar Dellis como uma espécie de gênio introvertido e esquisito. Mas a real é outra. “Sou bem normal. Tenho amigos. Não sou nerd”, afirma. “Também saio, vou a festas, encho a cara e ajo feito bobo, como qualquer um”, diz ele, para em seguida arrematar a frase com um gole de caipirinha. Nas horas que passei com Dellis, ouvi sobre os perrengues que ele enfrentou ao tentar escalar o Everest em 2011, os solos de guitarra que está aprendendo no momento e os truques de memória que costuma fazer para impressionar garotas durante o xaveco.

De quebra, também me contou histórias curiosas, como a do dia em que a ex-namorada dele (uma brasileira) disse: “Vá ao mercado e compre esses itens aqui, por favor”. Minutos depois, Dellis volta para casa de mãos abanando. “Amigo, você precisava ver a cara que ela me fez”, disse. Pudera. A sua namorada entenderia se você esquecesse uma lista de pouquíssimas coisas? Mas e se você fosse campeão de memória? A supercapacidade de Dellis não o impede de esquecer coisas banais, corriqueiras, às quais não estiver prestando atenção.  

Ele é formado em Ciências da Computação pela Universidade de Miami, e trabalhou alguns anos como programador de software. Só foi se interessar por memorização em 2009, quando sua avó morreu após lutar contra o Alzheimer – doença cujo efeito é, justamente, a progressiva destruição de todas as memórias do cérebro. “Foi muito difícil, principalmente no fim, quando ela já não conseguia se lembrar de quem eu era.”

A partir daí, Nelson começou a treinar a própria memória, como forma de se proteger contra um possível caso de Alzheimer na velhice. Criou a Climb for Memory, uma ONG que junta suas duas paixões (memorização e alpinismo) e organiza eventos beneficentes para financiar pesquisas contra a doença. Hoje ele vive de dar palestras e workshops sobre memória – e de disputar competições.

No USA Memory Championship deste ano, realizado em Nova York no mês de abril, Nelson levou o título (que já tinha vencido em 2011, 2012 e 2014) após passar por várias etapas eliminatórias. Primeiro, os competidores tinham de memorizar 117 nomes e rostos em 15 minutos. Depois, uma sequência de 500 números em apenas 5 minutos. Na terceira etapa, um baralho com 52 cartas – no menor tempo possível. Em seguida, tinham de decorar uma lista com 200 palavras (em 15 minutos) e, na semifinal, memorizar uma bateria de fatos diversos sobre as vidas de seis pessoas: quais são seus pratos preferidos, número de telefone, hobbies, bichos de estimação etc. Depois dessa enorme maratona, veio a grande final: memorizar dois baralhos em cinco minutos. Nelson foi o único a conseguir passar por tudo isso.

O evento foi patrocinado pela empresa farmacêutica DSM, que produz uma versão industrializada do ácido docosa-hexaenoico: um ácido graxo, conhecido como DHA, que teoricamente tem efeitos benéficos sobre a memória e o aprendizado. Quando está se preparando para um campeonato, Nelson às vezes toma comprimidos de DHA – que também pode ser obtido naturalmente pela ingestão de peixes como salmão, cavala e sardinha.

“Eu poderia fingir ser um gênio. Mas a verdade é que aprendi tudo com muito treino. O que faço, qualquer um pode fazer”, diz. E ele fala sério. “Ei, você mesmo pode me desafiar um dia. Um colega seu se deu bem.” Dellis se refere ao jornalista americano Joshua Foer, que decidiu começar a competir depois de cobrir o campeonato mundial de memória. Foer conseguiu vencer o campeonato americano em 2006 e contou a história no livro Moonwalking with Einstein (lançado no Brasil com o título A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo). Não tenho a pretensão – ou a coragem – de competir. Mesmo assim, é impossível não ficar curioso. Será que as técnicas dos campeões de memória realmente funcionariam em um cérebro comum? Taí um ótimo tema para uma futura reportagem. Mas… será que eu vou me lembrar disso?

DIETA DA LEMBRANÇA

As informações que Dellis memoriza a cada dia – para se exercitar, quando não está em campeonato.

7 baralhos e a ordem de suas cartas

600 nomes

1.500 números

100 linhas de poesia

OUTROS GIGANTES

Dellis é tetracampeão americano de memória. Mas não é o único capaz de feitos impressionantes:

100.000 NÚMEROS foram memorizados pelo japonês Akira Harugachi, que os recitou de cabeça numa demonstração pública de 16 horas. São dígitos do número Pi, que tem casas decimais infinitas.

56.000 PALAVRAS, dispostas ao longo das 1.774 páginas do dicionário inglês-chinês, foram decoradas em 2011 pelo médico malaio Yip Chooi, que venceu o campeonato de memorização em seu país.

Como memorizar as coisas – like a boss

Veja as principais técnicas usadas pelo tetracampeão

1. Associe as informações a coisas

Dellis usa uma técnica chamada “palácio da memória”, inventada na Grécia Antiga. Para se lembrar de uma sequência de cartas, por exemplo, ele associa cada uma a uma parte da própria casa. Você também pode associar informações a partes do seu corpo (como o malaio Yip Chooi, que decorou um dicionário de 1.774 páginas assim).

2. Converta números em nomes

Dellis transforma números em letras – que depois associa a um nome. O número 27, por exemplo, se transforma em BG (porque “b” e “g” são, respectivamente, a segunda e a sétima letra do alfabeto). Aí, ele associa a sigla a um nome: BG, no caso, é Bill Gates. Parece complicado, mas é mais fácil do que decorar os números em si.

3. Foque nos detalhes

Quando você conhecer uma pessoa, escolha uma característica física e associe ao nome dela. É muito mais fácil se lembrar de “Ana ruiva” ou “José do bigode” do que “Ana”ou “José” apenas. Quanto mais características você conseguir atribuir, melhor (“Ana ruiva com franja que usa aparelho”, por exemplo).

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