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O quão gelada foi a última era do gelo? 7,8 °C, diz novo cálculo.

É metade da média de temperatura do globo no século 20. E esse número pode ser usado em cálculos importantes sobre o aquecimento global atual.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
28 ago 2020, 15h18

Uma equipe multidisciplinar da Universidade do Arizona, nos EUA, determinou que a temperatura média da Terra durante a última era glacial, que atingiu seu ápice há 20 mil anos, foi de 7,8 °C. Para fins de comparação, a temperatura média ao longo do século 20 foi de 14 °C. 

“Na nossa experiência pessoal, pode não parecer uma diferença tão grande”, admite a geóloga Jessica Tierney, que liderou o estudo publicado no periódico Nature. “Mas, na verdade, é uma mudança gigantesca.” Boa parte do norte da Europa, da Ásia e da América passou o período coberta permanentemente por gelo. No Ártico, a temperatura era 14 °C mais baixa que a média atual (que já é 34 °C negativos nos invernos atuais).

Estudar a última era glacial é importante não só para descobrir mais sobre os ecossistemas e a geologia da época, mas também porque os acadêmicos que se dedicam ao aquecimento global antropogênico (isto é, causado pelo ser humano) podem usar esses dados para calcular, com cada vez mais precisão, o quanto a temperatura do planeta varia em resposta a mudanças na concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

Durante a última era glacial, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era de 180 partes por milhão, o que é bastante baixo. De lá até a época da Revolução Industrial ou seja, até a época em que o ser humano praticamente não poluía a atmosfera , a proporção subiu para 280 partes por milhão. Repetindo: essa parte é obra exclusiva da natureza.

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Hoje, com a contribuição humana, a concentração está em 415 partes por milhão. Com esses números em mãos, a equipe de Tierney determinou que, cada vez que a concentração de carbono na atmosfera dobra, a temperatura média do planeta aumenta 3,4 °C. Não por coincidência, esse valor cai exatamente no meio da janela (algo entre 1,8 °C to 5,6 °C) indicada por modelos e simulações que usam outros métodos. 

O acordo de Paris quer limitar o aumento de temperatura a no máximo 1,5 °C além dos níveis anteriores à Revolução Industrial. O problema é que, se tomarmos como parâmetro a sensibilidade do clima às variações na concentração de carbono – 3,4 °C para cada vez que a concentração dobra –, é improvável que o aumento seja inferior a 2 °C. Já há poluição demais. 

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Além disso, o problema óbvio da média é que ela não indica como cada região do planeta reage à mudança. Os polos são mais sensíveis: ficam mais frios quando o clima esfria e mais quentes quando o clima esquenta (no começo do texto, mencionamos que a temperatura do ártico caiu duas vezes mais que a média do globo há 20 mil anos). Como é lá que se concentra boa parte do gelo, e é o derretimento do gelo que aumenta o nível do mar, estamos em maus lençóis. 

A equipe do Arizona usou a concentração de fósseis de plâncton como base para estimar a temperatura há 20 mil anos. Na época, obviamente, não havia termômetros, mas a população desses seres marinhos minúsculos e abundantes é sensível a mudanças climáticas. Esse é só o primeiro passo do cálculo, é claro. Depois, entram em cena complexas simulações de computador.

Uma técnica parecida poderá ser usada no futuro para analisar outros períodos da história da Terra – períodos em que houve aquecimento, e não resfriamento. Assim, a comunidade científica poderá calibrar com cada vez mais precisão suas previsões sobre o futuro da Terra. E tentar evitar um desastre climático que já está em andamento.

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