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E se o sexo não desse prazer?

Se o prazer sexual nunca existisse provavelmente seríamos menos sociáveis — e bem menos evoluídos

Por Rafael Kenski Atualizado em 20 abr 2018, 16h46 - Publicado em 31 mar 2002, 22h00

O prazer é algo tão intrínseco ao sexo para os seres humanos que é difícil dissociar as duas coisas. Quem entende do assunto diz que o prazer sexual é tão importante para nós que se ele não existisse talvez não fôssemos uma espécie tão evoluída.

Se o prazer sexual nunca existisse, portanto, provavelmente a única espécie afetada seria a humana. Os indícios sugerem que essa é uma característica unicamente humana e que foi um dos fatores que nos diferenciou no processo evolutivo. “A cópula de um golfinho, por exemplo, dura um minuto, uma satisfação muito efêmera para sustentar sozinha a perpetuação dessa espécie”, afirma o etólogo César Ades, da Universidade de São Paulo. Nas espécies não-humanas, enfim, o que leva macho e fêmea a copular é uma programação biológica adaptada a cada bicho. Alguns sentem-se atraídos por cantos, outros por odores ou penas.

Já o ser humano é diferente. “Nossa sexualidade deixou de ser um instinto e se misturou com o psíquico”, diz o psicólogo Renato Mezan, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No processo evolutivo, isso ocorreu quando começamos a produzir cultura. A partir daí, passamos a escolher o parceiro não mais pela programação biológica. O sexo deixou de servir só para a procriação e cada vez mais é fonte de prazer. A mudança foi também biológica. Tanto que as mulheres, apesar do seu período fértil limitado, copulam o ano todo.

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Se o prazer sexual fosse eliminado, isso alteraria não só nosso corpo, que provavelmente teria algum gatilho sexual biológico (algo que chamasse a atenção do parceiro, como cheiros, sons e rituais explícitos), mas também nossas relações sociais. As mulheres, por exemplo, seriam procuradas apenas na época do acasalamento. Formar uma família seria mais difícil. Há várias hipóteses para o que aconteceria então. Uma das mais interessantes é a de que sem o sexo prazeroso seríamos uma espécie menos sociável. Isso traria grandes implicações.

Nosso cérebro, por exemplo, talvez não se desenvolvesse tanto. Isso porque este órgão não nasce pronto — é menor do que o de um adulto por um motivo óbvio: um cabeção adulto não passaria entre as pernas da mãe. A solução evolutiva foi nascermos com um cérebro pequeno, que cresce depois. Só aos 5 anos o ser humano consegue ter alguma independência. Sem o apoio social, teríamos que nascer mais acabados, o que acarretaria ter um cérebro menor na idade adulta.

Mas e se o prazer sexual desaparecesse hoje, de uma hora para outra? Pode parecer estranho para quem acha que o casamento é o túmulo da libido, mas o sexo é o alicerce da união estável. Sem as delícias da cópula, o casamento ruiria. “O prazer é um cimento para relacionamentos duradouros”, diz César Ades. Se isso acabasse, os casamentos precisariam de outras compensações sociais ou simbólicas, como a valorização do marido dedicado à família. Filhos, nesse caso, passariam a ser gerados só de maneira programada. Com o passar dos anos, o casal que decidisse procriar leria um folheto explicativo sobre o assunto e repetiria os procedimentos enquanto assiste à novela.

Como não teria graça, mesmo, é provável que o sexo sofresse menos restrições. Não precisaria ser escondido, porque, afinal, ninguém sairia transando à toa. A nudez não ofenderia tanto. Ou seja, se não fosse tão bom, seria liberado.

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