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Olhar dominante

Flávio Dieguez

Não é antena, não. São os olhos de uma mosca macho que você está vendo nesta foto. Eles seduzem as fêmeas em benefício de um gene egoísta que quer sobreviver a qualquer custo.

Para algumas moscas, chamadas diopsidas, charme, mesmo, é ter os olhos o mais longe possível da cabeça, na ponta de hastes enormes. Quanto maiores as hastes de um macho, mais sucesso ele faz com as fêmeas. É o mesmo efeito provocado pela cauda do pavão e por outros atrativos em muitas espécies. Este ano, ao estudar as diopsidas, o especialista Gerald Wilkinson, da Universidade de Maryland, tornou-se o primeiro a dar uma explicação para esse comportamento feminino. Parece absurdo, mas a atração sexual é só um meio, não um fim.

A verdadeira função das hastes, segundo Wilkinson, é garantir a sobrevivência de um grupo de genes da mosca. Isso mesmo. Um fragmento de DNA “usa” o corpo do inseto em seu próprio benefício. “São genes egoístas”, explicou à SUPER o biólogo Andrew Pomiankowski, da Universidade College London, na Inglaterra. “Ainda não sabemos como esses blocos de DNA trabalham, mas eles são poderosos.” Prova disso é que, nas diopsidas, eles sempre ficam no corpo dos machos de haste comprida – os que geralmente são escolhidos para acasalar. Em outras palavras, existe algum tipo de ligação entre a preferência das fêmeas pelos olhudos e os genes egoístas. E é dessa maneira que eles dominam a reprodução dos insetos para se perpetuar.

Vem cá, meu bem

Galã, entre as moscas diopsidas, é isso aí: ter seis patas, alguns pêlos pelo corpo e olhos espetados em dois palitos. Nos leonardos di caprio da espécie, a distância entre os olhos tem 1 centímetro, o mesmo tamanho do bicho inteiro. Nos menos dotados, a distância é inferior a 0,5 centímetro.

Cara peculiar atrai fêmeas e cria muitas mais

O mesmo gene que estica os olhos das moscas diopsidas também interfere com os cromossomos e aumenta a população feminina. Veja como funciona.

Combate mortal de espermatozóides

Os espermatozóides dos machos têm cromossomos X (rosa) ou Y (azul). Mas só os espermatozóides com X carregam o gene dos olhos compridos. Para evitar concorrência, ele liquida os espermatozóides com cromossomo Y.

Discriminação sexual

Ainda não foi possível determinar de que maneira o gene egoísta destrói os espermatozóides. O fato é que, durante o acasalamento, só aparecem espermatozóides do tipo X, que se juntam ao X que está no óvulo feminino. Por isso, nascem fêmeas.

Vítima do próprio feitiço

Em geral, a proporção feminina nos grupos de moscas diopsidas é de 60%. Mas, às vezes sobe para 100%. Aí, o tiro sai pela culatra: não há mais acasalamento e o gene desaparece.