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Orca: Dentes e cérebro

A inteligência da orcapesa tanto quanto seu grandecorpo na hora da caçada

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h36 - Publicado em 31 mar 2005, 22h00

Reinaldo José Lopes

Se algum dia você tiver a chance de caminhar pela praia nas ilhas Crozet, um fim-de-mundo entre a costa leste da África e a Antártida, é provável que presencie uma cena meio impensável: uma baleia encalhando por vontade própria. Não, o bicho não endoidou, mesmo porque essa não é exatamente uma baleia. Se prestar atenção nos guinchos desesperados que vêm da boca da presa, você consegue resolver o mistério: essa é uma orca, e ela acaba de arriscar o próprio couro só para abocanhar um filhote de elefante-marinho que tomava sol por ali. De repente, uma onda mais forte atinge aquela parte da praia e carrega a caçadora de volta para o mar, em segurança – e com o almoço no papo.

A técnica de captura nada ortodoxa é só uma amostra dos talentos múltiplos das orcas, um dos predadores mais versáteis e cheios de manhas da Terra. É claro que ter várias toneladas e dentes afiados ajuda, mas o segredo do sucesso desses bichos é mesmo o cérebro. Não é à toa: na verdade, a orca não é uma baleia, como muita gente pensa. Ela é, sim, um golfinho avantajado, animal que, como todo mundo sabe, é sinônimo de inteligência. “De fato, as orcas são cetáceos (o grupo das baleias e golfinhos) odontocetos, ou seja, que possuem dentes na boca, e atualmente se encontram na família dos delfinídeos, junto com diversas espécies de pequenos golfinhos”, afirma o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, da USP.

“Em português, durante muito tempo, se utilizava o nome ‘baleia-assassina’. Além de ser um termo pejorativo, ele traz problemas à compreensão do que os animais realmente são. Por isso, nos anos recentes, há uma tendência entre os pesquisadores para chamá-las de orcas, que quer dizer tonel ou barril em latim”, diz o pesquisador. Pelo menos em relação aos humanos, a fama de assassina é infundada, porque praticamente não existem relatos de um ataque direto dos bichos contra pessoas. Há quem diga que o significado original do termo se referia ao fato de que as orcas eram assassinas de baleias – nesse caso, até que é verdade. Que fique claro: ela só mata para se alimentar e, assim, sobreviver.

Mas reduzir esses animais a meros comedores de baleias, focas e afins não é muito justo. Na hora do jantar, as orcas não têm preconceito, e também se fartam de peixes, lulas, pingüins, tartarugas-marinhas e até lontras-do-mar. Como fazem alguns dos outros grandes carnívoros em terra, como leões e lobos, a especialidade delas é a caça coordenada, em grupo. “A sociabilidade é uma ferramenta de extrema valia para mamíferos que vivem em ambiente aquático”, diz Marcos César.

A vida debaixo d’água fez com que a evolução favorecesse uma espécie de sonar para achar a presa. Como o som se transmite muito depressa no meio aquático (viajando a uns 1 500 quilômetros por hora), os bichos usam os estalidos, um de seus tipos de chamado, para localizar o possível jantar. Basicamente, é como se o som viajasse até a presa, fosse rebatido na forma de eco, e as características das ondas sonoras que voltam permitissem a formação de uma “imagem mental” da presa, ainda que a água esteja turva. O mesmo mecanismo vale para verificar a profundidade da água, para evitar o encalhe, que só dá certo se for friamente calculado. Já os assobios, outro tipo de chamado, permitem a comunicação entre os membros do bando e a coordenação dos ataques. As horas e horas de gravações que os pesquisadores obtiveram mostram que cada bando têm seu próprio dialeto – um recurso para avisar os competidores de que eles não devem se aproximar, pois a presa já tem dono.

As diferenças de dialeto, aliás, se refletem também em preferências de caça. Uma das subpopulações mais bem estudadas da espécie, a das orcas que rondam as costas do Canadá e do noroeste dos Estados Unidos, se divide em basicamente dois grupos: residentes e transientes. As primeiras têm bandos bem maiores, que passam de 100 indivíduos, e ficam de olho principalmente em peixes, como salmões e trutas. As transientes, em grupos menores (compostos de no máximo poucas dezenas), caçam em águas mais rasas, perto de rochedos, por exemplo, e se concentram em mamíferos marinhos – principalmente focas.

Presas diferentes, estratégias diferentes. Os bandos maiores costumam brincar de cão pastor com os cardumes de salmões e trutas, cercando-os e direcionando-os para águas mais fechadas. Quando a concentração parece a ideal, todos mergulham e começam o banquete. Se o cardume está particularmente alerta e difícil de cercar, as orcas apelam para o que os cientistas chamam de comportamento percussor – trocando em miúdos, encher a água de pancadas com a cauda ou as nadadeiras, de forma a atordoar os peixes.

Os animais parecem conhecer tão bem a caça que, quando a comida é peixe, emitem seus sons típicos sem parar – sabem que as presas não conseguem ouvi-los. Mas tomam todo o cuidado para não ser vistos. Não é incomum ainda que as orcas subam um trecho dos rios da costa oeste da América do Norte atrás dos salmões, que vão procriar em água doce. Mas, quando vão dar um bote em um cardume, certificam-se de chegar por trás e, assim, surpreender os peixes.

A coisa muda de figura quando o alvo é outro cetáceo. Nesse caso, a estratégia da orca é manter o bico calado. Quando se trata de uma baleia de grandes dimensões, os adultos do bando avançam por todos os lados, mordiscando pedaços e mais pedaços do gigante marinho até que ele morra e seja devorado. Há relatos de que, como acontece entre os leões, os machos só começam a se alimentar quando as fêmeas já dominaram a presa grande – mas isso ainda precisa ser confirmado por novas pesquisas. Seja como for, os enormes pedaços de carne são engolidos de uma vez: as orcas não mastigam a comida.

No caso de presas menores, como focas, lobos-marinhos e elefantes-marinhos, os golpes de cauda e nadadeira ajudam a deixá-las fora de combate antes de serem devoradas. Mas, se o animal está esperto e não se arrisca a entrar na água, as orcas de lugares como a Antártida, por exemplo, costumam usar um truque que quase sempre se revela recompensador. Imagine um pingüim tranqüilo sobre uma plataforma de gelo. O que ele não sabe é que uma orca acaba de nadar para debaixo dela. Com um impulso, o cetáceo arrebenta a crosta congelada, joga o pingüim pelos ares e o agarra com a boca quando ele cai de volta.

Talvez o mais surpreendente na vida desse “lobo dos mares” é que os cientistas comprovaram a existência de uma forma rudimentar de cultura entre os bandos de orcas. Animais que caçam por encalhe, por exemplo, só habitam dois pontos do planeta: além das Ilhas Crozet, na região argentina da Patagônia. “Mães passam a estratégia para os filhotes por meio de treinamentos e da própria captura”, conta Marcos César. “E isso passa de geração a geração. Por que nem todas as populações de orcas fazem isso? Por que há populações que se alimentam somente de peixe e outras que comem exclusivamente animais de sangue quente? Muito provavelmente há uma contribuição da transmissão cultural”, afirma o biólogo. Pelo visto, técnica de caça também é cultura.

Frisbee de arraia

Orcas adoram brincar. A pesquisadora Ingrid Visser encontrou na costa da Nova Zelândia um grupo de orcas que mergulhava até 20 metros para capturar arraias. As arraias, com até 2 metros, pertenciam a três espécies diferentes. A cientista via uma das orcas subindo para a superfície com o bicho vivo na boca e o jogando para as outras, até que o peixe ficasse provavelmente numa posição em que não houvesse risco de feri-la com sua cauda venenosa. Só então a orca devorava a arraia. Ingrid acha que essa tática seja também um jeito de ensinar orcas mais jovens a lidar com presas perigosas.

Como é a caçada

Orca sai da águapara abater presa

1. Preparar…

Da água, a orca localiza o alimento

2. …Apontar…

Ela toma impulso e se lança sobre a superfície sólida

3. …Fogo!

A presa é capturada e a orca volta rapidamente à água

Fatos selvagens

Nome vulgar

Orca, baleia-assassina

Nome científico

Orcinus orca

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Dimensões

Até 9,8 metros de comprimento

Peso

Até 10 toneladas

Principais armas

Batidas de rabo, dentes de 10 centímetros, cérebro avantajado e sistema de sonar

Comportamento social

Bandos que variam entre algumas dezenas e pouco mais de 100 indivíduos

Ataques a humanos

Não há relatos confiáveis sobre esse tipo de evento na natureza

Expectativa de vida

Média de 35 anos (machos) e 50 anos (fêmeas)

Quanto come

Até 400 quilos por dia

Dieta

Trutas, salmões, lulas, elefantes-marinhos, leões-marinhos, focas, baleias-jubartes, arraias, lontras-do-mar

Principais inimigos

Tubarões-brancos

Se você encontrar uma

As orcas nunca vão perseguir um nadador humano até matá-lo, mas é bom não tentar contato físico com os bichos

Para saber mais

Na livraria

Dolphin Societies – Discoveries and Puzzles – Karen Pryor e Kenneth S. Norris (org.), University of California Press, EUA, 2004

Becoming a Tiger – How Baby Animals Learn to Live in The Wild – Susan McCarthy, Harper-Collins, EUA, 2004

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