Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês

Oriente e Ocidente na busca das mesmas questões

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h52 - Publicado em 31 out 2004, 22h00

Cesar Deveza*

Na virada do milênio, nosso planeta, o grão de areia perdido no Universo, se debruçou um pouco mais para o Oriente. No século passado, uma das mais notáveis teorias do Ocidente foi a de que o Universo foi criado a partir de uma partícula hiperdensa, menor do que um átomo. Alguns milhares de vezes mais quente que o Sol, essa partícula explodiu e se expandiu por 15 bilhões de anos. A teoria do big bang, como foi chamada, é semelhante à teoria cosmogônica encontrada no Veda, texto do século 15 a.C. do bramanismo ortodoxo. O mito de Hiranyagarbha, “o ovo dourado”, explica que esse ovo mergulhado no oceano de energia indiferenciada se aqueceu progressivamente gerando Brahma, o criador. A partir daí se desenrola toda a criação do Universo. Coincidência? Alguns físicos que apóiam a teoria do big bang dizem que somos formados de “restos de estrelas que já existiram”. O Vedanta, uma das escolas ortodoxas do bramanismo do século 10 a.C., usa a máxima tat tvam asi, que, ao pé da letra, significa “tu és aquilo”, fazendo referência a que tudo que constrói o Universo também constrói o que somos. Outra coincidência?

Aqui no Ocidente, fomos do micro infinitesimal das subpartículas atômicas ao espaço infinito para responder questões intrigantes a respeito de nós mesmos – de onde viemos? para onde vamos? – e outras coisas do tipo. A filosofia oriental lançou-se também na busca das mesmas questões – só que procurou entender a mente e suas interações, o cosmo enquanto unidade e a relação íntima entre o micro e o macrouniverso.

Mesmo sendo um orientalista declarado, entendo que o homem lá e aqui é igual – nem melhor nem pior. Ainda que a base de conhecimento que norteia os caminhos da Grécia para cá sejam diferentes daqueles que orientam o mundo da Grécia para lá, buscamos respostas para as mesmas questões. A racionalidade grega, reforçada pelas idéias positivistas e pelo mecanicismo da revolução industrial, abriu um fosso cultural que dividiu o mundo filosófico em pelo menos duas tendências bem definidas: de um lado a comunidade tecnicista e científica que estuda a vida e os seres segundo sua natureza fisico-química; de outro, a filosofia oriental que entende o mundo e seus fenômenos por uma óptica em que cada ação isolada se encontra vinculada ao todo. Essa totalidade pressupõe uma Inteligência Universal que opera todas as ações através das mais variadas formas de energia.

Apesar de as grandes discussões entre mecanicistas e vitalistas terem ocorrido há pelo menos 200 anos, essa situação é presente ainda hoje. Um bom exemplo são as divergências entre defensores e detratores das medicinas não convencionais, como a homeopatia, o ayurveda e a medicina chinesa. Nessas situações, vemos a ciência ocidental querendo socar uma visão vitalista de medicina nos seus modelos mecanicistas de reprodução de eventos. Se acho saudável buscar explicações científicas para os mecanismos das medicinas vitalistas, preocupa-me o reducionismo de negá-las pela falta de um aparelho ou de um modelo que possa demonstrá-las. No entanto, para a sorte das “artes de curar”, como a homeopatia e a medicina ayurvédica, além de outras, seus adeptos estão mais interessados em seus resultados que nas explicações de seu funcionamento.

Por outro lado, a comunidade científica tem transposto importantes barreiras. Há quase 20 anos, uma tese sobre os efeitos terapêuticos do relaxamento obtido com técnicas de meditação e orações defendida pelo fisiologista Herbert Benson, de Harvard, abriu uma nova perspectiva de diálogo entre as duas culturas. Hoje, isso permite que conceituados pesquisadores estudem técnicas terapêuticas orientais estreitando esse diálogo.

Embora ainda haja um certo torcer de nariz entre os dois lados, sonho com o dia em que possa assistir a um abraço apaixonado de associação de idéias entre as duas culturas com o propósito de buscar uma fórmula infalível e única de gerar felicidade e amor. Aliás, essa imagem do abraço cósmico de um princípio imanente e de um transcendente é comum nos textos do yoga tântrico. Certamente outra coincidência. Om, shanti, shanti, shanti.

* Médico naturalista da Clínica YAM e mestre em lingüística sânscrita e cultura indiana antiga pela USP

Continua após a publicidade
Publicidade