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Os punks no espaço

Não se deixe enganar pelo sorriso reluzente dos astronautas:eles também chutam o balde, enchem a cara e dão vexame. Conheça a vida privada dos heróis espaciais.

Texto Tiago Cordeiro

Astronautas são caras legais. São legais porque realizaram um sonho de toda criança e da maioria dos adultos: o de participar de uma aventura no espaço. Não bastasse isso, eles são disciplinados, inteligentes e bem preparados fisicamente. De quebra, ainda arriscam a própria vida em nome do avanço da ciência, da tecnologia e da astronomia. Basta olhar para a fotografia de qualquer integrante da Nasa, de qualquer época. Aquele sorriso de comercial de pasta de dentes só confirma que eles são o que a humanidade conseguiu produzir de mais próximo de um super-homem de carne e osso. Acontece que astronautas também são gente. Têm pais e filhos, se apaixonam, tomam porre, ficam deprimidos, vão ao banheiro.

Recentemente, essa história da vida privada dos nossos maiores heróis foi transformada em livro pelo astronauta americano aposentado Mike Mullane, de 60 anos. Em Riding Rockets – The Outrageous Tales of a Space Shuttle Astronaut (“Dirigindo Foguetes: Os Contos Ultrajantes de um Astronauta de Ônibus Espacial”, inédito no Brasil), Mullane conta, por exemplo, a história de Robert Gibson, seu colega de turma. Na versão oficial da Nasa, Gibson é um astronauta respeitável, que viajou em 5 missões e passou um total de 36 dias no espaço. Em sua 5ª viagem, trabalhou na primeira acoplagem de uma nave americana à estação espacial russa Mir. Na versão de Mullane, Gibson é também um dos maiores mulherengos da história da corrida espacial, além de fundador, vocalista e guitarrista da primeira banda de rock formada exclusivamente por astronautas, o MaxQ. Nas palavras do autor, o grupo era como o lançamento de qualquer nave espacial: fazia muito barulho, mas nenhuma música.

Em outra metáfora músico-espacial, Mullane afirma que o ego de um astronauta é tão grande quanto o de uma estrela de rock. A galera da Nasa seria tão competitiva que até mesmo a foto oficial envolvia disputas – todo mundo queria ter a foto mais bonita e o autógrafo mais original, diz. Muitos fizeram várias sessões de fotografias até se dar por satisfeitos. Além disso, na hora de entregar à agência espacial o autógrafo oficial, vários passavam horas fazendo rascunhos até chegar à versão final.

Mike Mullane fez parte da turma de 1978, a primeira selecionada para voar nas shuttles, os ônibus espaciais da Nasa. Até se aposentar, em 1990, participou de 3 missões. Seu livro conta os bastidores de uma geração que misturava a agressividade do punk com um senso de humor troglodita. Era uma época muito diferente da anterior. Os astronautas dos anos 60 tinham sido verdadeiros desbravadores espaciais. Várias missões, como a descida da cápsula Eagle na Lua, onde o comandante Neil Armstrong fez história, tinham 50% de chance de acabar em tragédia. No final dos anos 70, e durante toda a década de 1980, o programa espacial tinha propósitos menos nobres. A maioria das missões simplesmente lançava satélites comerciais no espaço. Os astronautas tinham pouquíssima importância para o programa, e praticamente todas as suas atividades eram controladas a partir do comando na Terra. Ir ao espaço se tornou tão banal que a agência americana passou a enviar pessoas sem o menor treinamento, como o príncipe da Arábia Saudita, Salman Al-Saud, e o senador americano Jake Garn – que vomitou tanto no espaço que fez a Nasa aumentar a quantidade de sacos para enjôo nas naves. Essa falta de objetivo, somada aos vários anos de espera para participar de uma missão, criaram muito tempo ocioso, que essa turma tratou de aproveitar da melhor forma possível.

Boêmios em terra

Os astronautas dessa nova geração tinham que administrar conflitos de relacionamento. Pela primeira vez, uma turma de astronautas incluía mulheres, negros e acadêmicos vindos dos maiores centros de pesquisa dos EUA – e não apenas militares brancos, como o próprio Mullane. Estes últimos não estavam acostumados a usar roupas civis, e muito menos a trabalhar em condição de igualdade com o sexo oposto. Eles disfarçavam seu incômodo fazendo piadas machistas e brincadeiras de gosto duvidoso. Uma das 6 mulheres dessa primeira turma, Sally Ride, passou anos sem falar com Mullane depois que ouviu dele uma piada que continha a palavra tetas. Outra colega, Judy Resnik, encarava essa falta de cavalheirismo com mais humor. Mesmo assim, até ela saiu do sério quando colegas colocaram uma pequena cobra dentro de sua bolsa enquanto ela tomava banho. A idéia era que ela saísse do vestiário correndo, com a menor quantidade possível de roupa no corpo. Não deu certo, e a moça pôs os marmanjos para correr.

A cafajestagem dessa turma não conhecia limites. “Nós recebíamos o sinal da Playboy TV no quarto do centro de treinamento. Nas horas vagas, discutíamos como ficariam os seios das mulheres em um ambiente de gravidade zero”, afirma Mullane. Meses mais tarde, em sua primeira missão, ele iria descobrir que os seios realmente parecem maiores no espaço. Em compensação, as ereções masculinas também mudam – ficam mais fortes e doloridas.

Ao final do expediente no Centro Espacial Johnson, em Houston, no Texas, os astronautas tinham um ponto de encontro certo: o boteco Out Post Tavern, construído em um armazém velho. Sempre que possível, muitos deles viravam a noite bebendo cerveja. Os astronautas de origem militar, mais experientes com noitadas, gostavam de fazer trotes nos colegas acadêmicos. Em uma das festas, a pretexto de ensinar os companheiros a beber drinques flamejantes, fizeram com que vários deles queimassem os bigodes e os cabelos.

Mesmo nos eventos oficiais da Nasa, muito mais comportados, alguém sempre colocava vodca no ponche. Algumas comemorações especiais exigiam festas maiores. Para celebrar um ano dentro do programa da Nasa, a turma de Mullane aproveitou um feriado de 4 de julho e alugou uma casa. A idéia era fazer um churrasco com as famílias, mas 3 esposas de astronautas ficaram empolgadas demais. Depois de beber vinho a tarde inteira, tiraram os sutiãs e esfregaram os mamilos na vidraça da cozinha para os astronautas que estavam do lado de fora. A farra acabou quando uma brincadeira com fogos de artifício provocou um princípio de incêndio.

Apesar do comportamento adolescente, os astronautas eram tratados pela Nasa como porta-vozes. A agência espacial promovia eventos nos estados mais importantes, onde ficavam os senadores mais influentes, e fazia questão de desfilar seus pupilos. O problema é que a maioria deles não tinha o menor preparo para falar em público. Certa vez Mullane foi convidado a liderar a cantoria de America, the Beautiful, um hino patriótico que ele mal conhecia. Para sua sorte, Mullane lembrou-se do primeiro verso. Foi o suficiente. O público o acompanhou, e ele passou o resto da canção fingindo que conhecia a letra. Pior fez outro astronauta, que ficou nervoso na hora de falar em público e resolveu começar com uma piada pornográfica. O problema é que a palestra estava acontecendo em uma escola, e a média etária da platéia não atingia os 12 anos. No fim do dia, para aliviar a tensão provocada pelas aparições públicas, os nobres porta-vozes da Nasa corriam para o bar mais próximo. Sempre encontravam lá garotas dispostas a conhecer melhor um astronauta. Algumas se tornaram verdadeiras groupies, capazes de viajar para onde quer que eles fossem.

Sem controle no espaço

O tempo para brincadeiras era um pouco mais escasso durante as missões. Mesmo assim, o clima entre os astronautas era, digamos, descontraído. E as grosserias não partiam somente da ala masculina. Ao chegar ao espaço em sua primeira missão, em 1984, Mullane queria privacidade para trocar a roupa da decolagem por bermuda e camiseta – então esperou a colega Judy Resnik entrar no compartimento superior. Mas Judy apareceu de volta quando ele estava nu, no meio da Discovery, a 300 quilômetros da Terra. Ao ver a cena, elogiou o colega: “Bela bunda!” Só faltou beliscar.

Depois de constranger o amigo, continuou seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Ele iria à forra dias depois, quando a urina dos astronautas congelou e entupiu o banheiro da espaçonave. O banheiro não poderia mais ser usado, a menos que os astronautas quisessem ficar conhecidos como a turma que foi assassinada pela própria urina. A Nasa se recusou a interromper a missão por causa do problema, e orientou os tripulantes a usar sacos plásticos. Ir ao banheiro em um ambiente de gravidade zero nunca foi fácil, mas tornou-se uma operação ainda mais perigosa. Um jato muito forte de urina podia fazer com que ela saísse voando de encontro aos equipamentos, e um esguicho fraco demais poderia provocar uma bolha presa ao pênis. Imagine então a dificuldade para uma mulher. Ao ouvir as recomendações da central de comando em Houston, Mike virou para Judy e perguntou: “Vai me dizer que você não está com inveja do pênis agora?”

Ir ao banheiro sempre foi o momento mais delicado para todo astronauta. Ainda durante a primeira missão de Mullane, o comandante da espaçonave, Hank Hartsfield, gritou do banheiro, pedindo que ele lhe dissesse o momento exato em que a Discovery estivesse sobrevoando Havana. Não era difícil conversar com o chefe enquanto ele estava lá dentro – o banheiro consistia em uma cabine fechada apenas por uma cortina. Mullane teve alguma dificuldade para localizar a capital cubana, mas obedeceu. Só depois descobriu o motivo do pedido: Hank queria defecar sobre a cabeça de Fidel Castro. “Consegui soltar um muffin em cima daquele desgraçado!” Mas a brincadeira mais tosca de que se tem notícia foi protagonizada por Bill Sheperd, selecionado pela agência em 1984. Em uma de suas missões, o astronauta levou para o espaço uma salsicha escondida no bolso do traje. Foi ao banheiro e seguiu todo o ritual: tirou as roupas, prendeu o corpo no vaso sanitário a vácuo, caprichou na mira, vestiu-se de novo e fez uma faxina no banheiro. Na saída, Bill soltou a salsicha pela espaçonave. Ela ficou flutuando. Os outros astronautas acharam que aquilo era um dejeto que tivesse escapado do vaso e ficaram fugindo em pânico. Depois de alguns minutos de tensão, Bill pegou a salsicha nas mãos e a comeu. Só depois explicou a piada.

A turma dos astronautas punks acabou no final dos anos 80. Em 1986, a tragédia da Challenger, quando 7 pessoas morreram durante a explosão da nave, 73 segundos após o lançamento, deixou poucos motivos para brincadeiras. Judy Resnik, a amiga de Mike Mullane, estava nesse vôo. A professora Christa McAuliffe também. Foi a última astronauta não profissional aceita pela Nasa. Quando os restos das vítimas foram encontrados no mar, 6 semanas depois do acidente, um colar de ouro que Judy sempre usava foi localizado e entregue à família. Mike entrou em depressão e teve problemas com o comando da Nasa. Aposentou-se e ficou careta: de punk espacial, passou a palestrante profissional e autor de artigos de auto-ajuda.

Três gerações de astronautas

A turma de astronautas de Mike Mullane veio depois de uma geração de pioneiros. Os deuses da Apollo, que eram lançados em cápsulas na ponta de foguetes, usavam camisetas multicoloridas, ouviam Garota de Ipanema no espaço e voltavam de lá prontos para pregar a paz no mundo. Edgar Mitchell, que foi à Lua na Apollo 14, fez um experimento de transmissão telepática das imagens que ele estava vendo. Até onde se sabe, ninguém na Terra recebeu as imagens, mas Mitchell se tornou um guru da new age, fundador e líder do Instituto de Ciências Noéticas. Em um livro recém-lançado, Moondust (“Poeira Lunar”, inédito no Brasil), o jornalista britânico Andrew Smith mapeia a trajetória dos 12 maiores representantes de sua geração – aqueles homens que estiveram na Lua. Todos tiveram problemas de adaptação na volta à Terra. Dos 9 que ainda estão vivos, sobraram, por exemplo, um alcoólatra e um pintor obcecado por paisagens espaciais. A turma dos anos 80, marcada pela euforia em torno dos ônibus espaciais e pela ressaca provocada pelo acidente da Challenger, foi sucedida por uma geração de moços bem-comportados. Os astronautas que surgiram nos últimos 15 anos são tão caretas que um dos seus principais representantes, Tom Jones, começa sua autobiografia Sky Walking (“Andando no Céu”, inédito no Brasil), lançada no começo deste ano, com a frase: “Eu nunca teria tido o privilégio de representar os EUA no espaço sem o apoio de milhares de pessoas de todos os cantos desta nação de desbravadores”. Mullane disse que as festas da Nasa, hoje, são muito mais chatas do que as de sua época. “Esses novos astronautas dizem que a cerveja acaba com o condicionamento físico. Nós bebíamos um dia antes de ir para o espaço, para que o efeito diurético nos deixasse com as bexigas vazias na hora do lançamento.”

Para saber mais

Riding Rockets

Mike Mullane, Scribner, EUA, 2005

Sky Walking

Tom Jones, Smithsonian, EUA, 2006

Moondust

Andrew Smith, Bloomsbury, EUA, 2005