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Peixe-bolha: o animal mais feio do mundo ou o mais injustiçado?

Conheça o bichinho que já ganhou um prêmio de feiúra e entenda por que o título é sacanagem: nas pressões abissais do leito do mar, ele tem uma cara diferente.

Por Bela Lobato 18 out 2024, 18h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h08
Peixe-bolha: o animal mais feio do mundo ou o mais injustiçado? Priorizar nos meus resultados Google

Em 2003, uma equipe de pesquisadores catalogava a fauna e a flora do fundo do mar da Nova Zelândia. Kerry Parkinson, hoje ictiologista (especialista em peixes) do Australian Museum, era apenas uma pesquisadora iniciante e ficou responsável por tirar fotos de “tudo que fosse encontrado e fosse taxonomicamente incerto, estranho, ou que a gente não soubesse o que era”, ela contou ao The Spinoff

Foi naquele momento que ela tirou a foto de um peixe desconhecido que virou meme, estampa de camisetas, bicho de pelúcia. O peixe fez sucesso nas redes no começo dos anos 2010 por ser tão… esquisito. Ele é caído, pelancudo, viscoso e lembra uma figura humana. Ele foi apelidado de Mr. Blobby, nome de um personagem da TV britânica. Em português, o seu nome popular é peixe-bolha. 

Foto de um peixe-bolha.
A foto de 2003 que virou meme, tirada pela ictiologista Kerry Parkinson. Mr Blobby, além da aparência bizarra, ainda tinha um crustáceo parasita no cantinho da boca. (Kerryn Parkinson)/Australian Museum/Reprodução)
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Depois de alguns anos sendo meme, em 2013, ele foi eleito o animal mais feio do mundo. O prêmio foi um concurso organizado pela Ugly Animal Preservation Society (Sociedade de Preservação dos Animais Feios, em tradução livre), uma organização criada pelo humorista Simon Watt.

O seu objetivo é, por meio do humor, conscientizar as pessoas sobre a importância de distribuir os esforços de conservação de espécies entre animais que não são tão fofos aos olhos humanos.

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“Nós só protegemos os animais com os quais nos identificamos porque são bonitinhos, como os pandas. Se as ameaças de extinção são tão ruins quanto parecem, então concentrar-se apenas na fauna mais carismática é perder completamente o foco.”, disse Watt à BBC na ocasião do prêmio, em 2013. “Não tenho nada contra os pandas, mas eles têm seus apoiadores. Essas espécies precisam de ajuda”.

A verdade é que o julgamento do peixe-bolha é uma grande injustiça: eles só têm essa aparência bizarra quando são retirados das profundezas em que vivem. Em seu habitat natural, ninguém veria nada de especial na beleza (ou  feiura) do dito-cujo. Olha só: 

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Foto de um peixe-bolha.
Peixe-bolha no fundo do mar: apenas um peixe qualquer. (Wikimedia Commons/Reprodução)

Ninguém sabe qual é a espécie exata do peixe-bolha que aparece na foto viralizada em 2003, mas há duas possibilidades: Psychrolutes microporos e Psychrolutes marcidus. Ambas vivem na região entre a Austrália e a Nova Zelândia e são conhecidas popularmente como peixe-bolha.

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Elas vivem em profundidades extremas, entre 600 e 1.200 metros. Lá embaixo, a pressão pode ser mais de cem vezes maior do que a pressão atmosférica no nível do mar. Por isso, o peixe-bolha tem uma variedade de adaptações para viver em habitats de alta pressão, que incluem o corpo mole, os ossos macios e pouca massa muscular. Não é à toa que ele fica tão deformado aqui na superfície, em condições amenas.

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Eles também não têm bexigas natatórias, um órgão de armazenamento de gases que ajuda os peixes ósseos a controlarem a densidade do seu corpo de modo a regular a profundidade do mergulho. Sem ela, a flutuação dos peixes-bolhas depende da sua composição rica em gordura, que faz com que eles sejam um pouquinho menos densos do que a água ao redor.

Quando um peixe-bolha é retirado de seu habitat, a descompressão faz com que ele se expanda e sua pele relaxe, distorcendo suas características e dando-lhe aquele narigão característico. Isso é semelhante ao que ocorre com águas-vivas que vivem em ambientes abissais (a mais de 4 mil metros de profundidade).

Sabe-se muito pouco sobre o peixe-bolha. Ele é um animal pouco estudado pela dificuldade de acessar seu habitat e, segundo o Ugly Animal Preservation Society, por ter pouco apelo popular.

O que sabemos é que ele se alimenta principalmente de crustáceos, mas topa qualquer coisa que flutue até sua boca. Nas barrigas de peixes-bolha, cientistas já encontraram fragmentos de estrelas-do-mar, corais, anêmonas, sacos plásticos, pedras e até bicos de polvo.

Todas as vezes que a espécie foi avistada, os indivíduos estavam sozinhos, e não se sabe muito sobre como eles se reproduzem. Eles aparecem raramente em redes de pesca, e não são considerados comestíveis. Apesar disso, em 2019, um peixeiro de Sidney comeu um e relatou que era um dos melhores sabores que já havia provado.

Hoje, a maior ameaça ao peixe-bolha não é a pesca e nem o bullying dos humanos, mas o aquecimento das águas oceânicas. Os ambientes aquáticos são muito sensíveis a essas mudanças, que têm acontecido mais rápido do que as previsões.

Talvez o peixe realmente não mereça o título de campeão da feiura, se somos nós que estamos destruindo o ambiente dele. E tem mais: se a gente fosse visitar o peixe-bolha lá embaixo, nossos corpos implodiriam. Seríamos transformados em um patê nojento, e ele, bonitão, ficaria nos assistindo.

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