OFERTA 10.10! Revista impressa com o MENOR PREÇO DO ANO! 🤑 Assine agora!

Pela primeira vez, cachalotes são filmadas dando cabeçadas umas nas outras

Descoberta ajuda a explicar relatos do século 19 e abre novas pistas sobre interações e disputas entre esses animais.

Por Luiza Lopes 24 mar 2026, 19h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h35
Pela primeira vez, cachalotes são filmadas dando cabeçadas umas nas outras Priorizar nos meus resultados Google

Relatos de marinheiros do século 19 descreviam cachalotes como animais capazes de usar a cabeça como um martelo, golpeando embarcações com força suficiente para danificá-las ou até afundá-las. Essas histórias ajudaram a inspirar o romance Moby Dick (1851), do escritor Herman Melville, que narra a obsessão do Capitão Ahab por uma grande baleia branca após um ataque no mar. 

Apesar da fama do livro, esse tipo de fenômeno nunca havia sido confirmado de forma sistemática pela ciência. Agora, um estudo publicado na revista Marine Mammal Science apresenta o primeiro registro em vídeo desse comportamento.

Pesquisadores da Universidade de St Andrews, em colaboração com a Universidade dos Açores e a ONG Asociación Tursiops, usaram drones para observar cachalotes no Atlântico entre 2020 e 2022. As imagens, captadas nos Açores e nas Ilhas Baleares, mostram os animais dando cabeçadas uns nos outros de forma deliberada, além de registrar o contexto social em que isso ocorre.

Continua após a publicidade

“Foi realmente emocionante observar esse comportamento, que sabíamos que havia sido hipotetizado há muito tempo, mas ainda não documentado e descrito sistematicamente”, disse o biólogo Alec Burslem, autor principal do estudo, em comunicado. Confira:

Continua após a publicidade

As cachalotes (Physeter macrocephalus) pertencem ao grupo das baleias com dentes (odontocetos), que inclui também golfinhos e orcas, e se diferenciam das baleias “de barbatana”, como a baleia-azul, que filtram alimento da água. 

São os maiores predadores com dentes do planeta e podem pesar cerca de 50 toneladas. Sua cabeça ocupa até um terço do corpo e abriga estruturas usadas na produção de sons para ecolocalização, um sistema que funciona como um “sonar biológico” e permite ao animal navegar e localizar presas no oceano escuro.

Continua após a publicidade

Até agora, a principal hipótese era que esse tipo de cabeçada estivesse ligado a disputas entre machos adultos, possivelmente durante competição por fêmeas. Mas os novos registros mostram que quem mais aparece executando esse comportamento são indivíduos subadultos, ainda em fase de desenvolvimento.

Isso levanta dúvidas sobre a função das cabeçadas. Elas podem fazer parte de interações sociais, como testes de força, brincadeiras ou formas de estabelecer hierarquia dentro do grupo. Também é possível que sejam um treino para combates que ocorrem em profundidades maiores, longe do alcance da observação humana.

Continua após a publicidade

Orcas estão oferecendo comida para humanos. Por quê?

Há, porém, um ponto que intriga os cientistas. A cabeça das cachalotes abriga estruturas delicadas, essenciais para a comunicação e a ecolocalização. Um uso frequente como “arma” poderia representar um risco evolutivo. Por isso, alguns pesquisadores argumentam que esse comportamento talvez não seja tão comum ou intenso quanto os relatos históricos sugerem – ou que ocorra em contextos muito específicos.

Continua após a publicidade

Ainda assim, a descoberta dá novo peso às narrativas antigas. Um dos episódios mais famosos envolve o navio Essex, que naufragou em 1820 no Pacífico, próximo às Ilhas Galápagos, após ser atingido por uma cachalote. 

O Essex era um veleiro de cerca de 27 metros dedicado à caça de baleias, atividade comum na época. Segundo relatos históricos, o animal colidiu com o casco ao menos duas vezes, abrindo uma brecha que levou ao afundamento da embarcação. O ataque foi descrito pelo sobrevivente Owen Chase, que ocupava o posto de imediato (o oficial logo abaixo do capitão, responsável por auxiliar no comando do navio e supervisionar a tripulação) em um relato publicado anos depois:

“Virei-me e o vi a cerca de 500 metros diretamente à nossa frente, vindo com o dobro da sua velocidade normal de cerca de 24 nós, e parecia ter dez vezes mais fúria e sede de vingança no seu semblante. As ondas voavam em todas as direções à sua volta com o violento e contínuo bater da sua cauda. A sua cabeça estava meio para fora da água, e foi assim que ele se aproximou de nós e atingiu o navio novamente.”

O caso teve grande repercussão na época e mais tarde inspirou Melville a escrever Moby Dick.

Outros naufrágios atribuídos a cachalotes, como os dos navios Ann Alexander (1851) e Kathleen (1902), também reforçam a ideia de que esse comportamento pode ocorrer em situações específicas.

Para os pesquisadores, a principal novidade não é apenas confirmar que as cabeçadas existem, mas entender como e por que acontecem. Nesse ponto, a tecnologia teve papel central. O uso de drones permitiu observar os animais de cima, com mínima interferência, algo difícil de alcançar a partir de embarcações.

“Essa perspectiva aérea única para observar e documentar o comportamento próximo à superfície é apenas uma das maneiras pelas quais a tecnologia de drones está transformando o estudo da biologia da vida selvagem”, afirmou Burslem. 

“É empolgante pensar em quais comportamentos ainda não vistos poderemos descobrir em breve, bem como em como mais observações de cabeçadas podem nos ajudar a esclarecer as funções que esse comportamento pode desempenhar. Se houver pessoas com filmagens semelhantes, gostaríamos muito de entrar em contato com elas.”

Os próprios autores destacam que ainda são necessárias mais observações para tirar conclusões definitivas. Por enquanto, o estudo abre uma nova frente de investigação sobre a vida social das cachalotes e sugere que parte das histórias contadas por baleeiros há mais de dois séculos pode ter, sim, um fundo de verdade.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas

ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ESQUENTA 10.10

Revista em Casa + Digital Premium

Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).