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Plutônio no café da manhã

O inacreditável programa de testes radiológicos conduzido pelos EUA.

Por Salvador Nogueira - 29 Maio 2020, 11h42
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Hoje, sete décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a possibilidade de um novo conflito global, desta vez travado com armas nucleares, não parece tão concreta. Mas era basicamente isso que esperavam – e para breve – os governos dos Estados Unidos e da União Soviética, mesmo antes da rendição final do Japão. E a pergunta que eles precisavam responder urgentemente era: pode uma nação sobreviver a um ataque atômico feroz? Só havia um meio de saber, e envolvia basicamente expor seres humanos à radiação.

O primeiro experimento americano aconteceu quase por acidente, em agosto de 1944, no Laboratório Nacional de Los Alamos, principal instalação do Projeto Manhattan. Um químico de 23 anos chamado Don Mastick acabou sendo exposto a 10 miligramas de plutônio quando o tubo que ele tentava abrir estourou feito uma garrafa de champanhe, e a solução espirrou para fora, molhando a parede. Mastick sentiu imediatamente um gosto ácido na boca que deu a dica: ele havia sido exposto ao vapor de plutônio.

Seu rosto e boca foram esfregados imediatamente, mas ainda assim, durante dias, tudo que ele precisava para fazer a agulha do sensor da câmara de ionização estourar a escala era soprar suavemente – estando do outro lado da sala. O químico também passou por uma lavagem estomacal e parte do plutônio foi recuperada. Mastick jamais teve um sintoma adverso, embora 30 anos depois ainda fosse possível detectar traços de plutônio em sua urina.

O episódio, contudo, veio na esteira de outros similares e fez com que os médicos de Los Alamos apresentassem a Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan, a recomendação de que fossem realizados experimentos humanos para esclarecer as dúvidas que não haviam sido respondidas nos testes em animais. E assim nascia um projeto americano para injetar pequenas doses de plutônio em humanos – sem que eles soubessem – e observar os resultados. O primeiro a receber sua dose foi Ebb Cade, um trabalhador negro do Tennessee, que foi injetado com 4,7 microgramas de plutônio em 10 de abril de 1945, em Oak Ridge.

Depois disso, outros três pacientes receberiam injeções similares, sem saber, entre abril e dezembro de 1945, no Hospital Billings, da Universidade de Chicago: um homem de 68 anos com câncer de boca e estômago avançado, uma mulher de 55 anos com câncer de pulmão e um jovem com doença de Hodgkin. O mais velho recebera apenas 6,5 microgramas, mas os outros dois tomaram 95 microgramas – a maior dose até então. Surpreendentemente, sem efeitos notáveis. Ainda não se sabia quanto plutônio o corpo humano podia aguentar.

Então, em maio de 1945, o médico Joseph Gilbert Hamilton, membro do Projeto Manhattan encarregado de realizar testes similares na Califórnia, injetou um “tratamento” em Albert Stevens, um homem com um diagnóstico equivocado de câncer de estômago (na verdade, era apenas uma úlcera) no Centro Médico da Universidade da Califórnia em São Francisco. Ele recebeu uma dose de 131 quilobecquerel (kbq) de plutônio, o que significa dizer que 131 mil núcleos sofriam decaimento a cada segundo na amostra utilizada. É uma barbaridade.

A dose permitida para um funcionário que lida com radiação, hoje, é de 5 REM (medida de radiação) por ano. Stevens recebeu 60 vezes mais. Durante as duas décadas em que sobreviveu ao plutônio, acumulou ao todo 6.400 REM. Morreu em 1966, do coração.

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Robert Oppenheimer, líder do Projeto Manhattan: experiências com radiação em humanos. Alfred Eisenstaedt/Getty Images

Uma história ainda pior viria a seguir, com a segunda cobaia. Era o pequeno Simeon Shaw, de 4 anos, que veio da Austrália após um diagnóstico raríssimo de sarcoma osteogênico, um tumor maligno que surge nos ossos. Ele foi trazido pelo Exército americano para a Califórnia e recebeu, em abril de 1946, uma injeção que continha plutônio. Um mês depois, deixou o hospital e retornou à Austrália, onde morreu em janeiro de 1947. E os experimentos prosseguiram. Um ferroviário negro de 36 anos, Elmer Allen, também recebeu uma injeção de plutônio após amputar seu joelho esquerdo por conta de um câncer ósseo. No hospital da Universidade de Rochester, em Nova York, outros 11 pacientes receberam “tratamento” semelhante.

No mesmo lugar, na mesma época, entre 1946 e 1947, seis pessoas também receberam injeções de urânio-234 e urânio-235, com o objetivo de ver quanto do material radioativo seus fígados poderiam tolerar antes de sofrer danos. Entre 1953 e 1957, 11 pacientes terminais no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, também receberam injeções de urânio. De acordo com os médicos, além de testar a resistência do organismo ao material radioativo, o experimento buscava verificar se havia acúmulo de urânio no cérebro, que pudesse talvez ajudar no tratamento de tumores por radioterapia. Ainda assim, as cobaias não teriam como se beneficiar disso, uma vez que a ideia era bombardear o urânio acumulado com nêutrons para efetivar o possível tratamento – procedimento que não foi realizado.

Os testes com urânio da década de 1950 foram coordenados pelo médico William Sweet. Ele disse, numa entrevista concedida em 1995, ter obtido consentimento dos pacientes e da família. Ainda assim, é improvável que eles tenham sido informados de que o procedimento não faria bem aos doentes e agrediria fortemente seu organismo.

Em 1947, em resposta à revelação dos horrores da experimentação nazista na Segunda Guerra Mundial, a AEC (Comissão de Energia Atômica) nos Estados Unidos divulgou sua nova política, dizendo que nenhuma substância que possa ser, ou suspeita de que seja, venenosa ou maléfica, deveria ser usada em seres humanos exceto quando (a) existir uma chance razoável de que ela vá melhorar a condição do paciente, (b) o paciente der seu consentimento informado e completo por escrito e (c) o parente responsável fornecer um consentimento similar, revogável a qualquer tempo durante o curso do tratamento.

Túmulo do menino Simeon Shaw, morto aos 4 anos após receber uma injeção de plutônio. Fairfax Media Archives/Getty Images

Apesar disso, vez por outra experimentos controversos foram realizados. Além das injeções de urânio da década de 1950, entre 1946 e 1953, um caso revoltante aconteceria na Escola Estadual Walter E. Fernald, em Massachusetts. O estudo era uma parceria entre a AEC e a fabricante de cereais Quaker Oats, e as cobaias foram 73 crianças com déficit cognitivo, que receberam alimentos turbinados com substâncias radioativas, supostamente para que se pudesse rastrear “como os nutrientes são digeridos”. As crianças naturalmente não sabiam do que se tratava. O que se disse a elas é que estavam formando um “clube de ciência”.

Entre 1961 e 1965, o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) administrou rádio-224 e tório-234, dois elementos radioativos, a 20 pessoas que haviam se voluntariado para “projetos de pesquisa sobre envelhecimento”. O experimento foi financiado pela AEC. E muitos outros estudos antiéticos ligados ao perigo das armas nucleares também foram conduzidos. Nas Ilhas Marshall, por exemplo, onde havia sido realizado o primeiro teste de uma bomba atômica no mar (no famoso Atol de Bikini), os habitantes eram constantemente expostos a rejeitos radioativos para que se pudessem observar os efeitos sobre a população. Aviadores das Forças Armadas americanas eram ordenados a voar por dentro dos cogumelos das detonações nucleares para a mediação do impacto da radiação sobre seus corpos.

Esses experimentos todos, conduzidos desde o início da Era Atômica, são conhecidos há relativamente pouco tempo. Eram todos secretos e acobertados pelo governo americano até 1993, quando o presidente Bill Clinton ordenou uma mudança de política e instituiu uma investigação, com a abertura dos arquivos. O comitê formado, do qual o historiador Jonathan Moreno fez parte, emitiu seu relatório em 1995, reconhecendo a má conduta ética. Da União Soviética, muito pouco se sabe sobre experimentos do tipo. Mas é preciso ser muito ingênuo para achar que não aconteceram – possivelmente, em versões piores.

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