🔥 Esquenta Black Friday com PREÇO BAIXO! Assine Revista Impressa + Digital Premium e aproveite! 🤑

Por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos

País tem uma megabiodiversidade, com potencial imenso de desenvolvimento de medicamentos extraídos da natureza.

Por João Batista Calixto 14 set 2026, 16h44
Por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos Priorizar nos meus resultados Google

é diretor presidente do CIEnP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos) e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O texto a seguir foi originalmente publicado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por pesquisadores. Vale a visita.

O Brasil vive um paradoxo. É uma das maiores potências mundiais em biodiversidade. O país possui uma longa tradição de uso de plantas medicinais. E ainda conta com uma comunidade científica capaz de produzir conhecimento de qualidade internacional. Mas essa combinação ainda não se transformou em patentes, medicamentos inovadores e produtos com valor agregado para a sociedade.

A nossa biodiversidade precisa ser encarada não apenas como patrimônio ambiental, mas também como infraestrutura estratégica para Ciência, tecnologia, saúde. E também para o desenvolvimento de produtos inovadores na área da bioeconomia.

Isso não significa transformar os ecossistemas em simples fontes de matérias-primas. Por meio de utilização sustentável, precisamos gerar conhecimento, produtos de alto valor agregado e benefícios econômicos para a sociedade. E também devemos incluir as comunidades detentoras de conhecimentos tradicionais.

O Brasil ainda reúne poucos exemplos de sucesso dessa transformação. O caso mais conhecido é o captopril®, medicamento hoje muito usado contra a hipertensão arterial. Seu desenvolvimento teve origem nos estudos pioneiros do professor Sérgio Henrique Ferreira, que atuava na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com o uso do veneno da jararaca Bothrops jararaca, uma cobra encontrada em diversas regiões do país. Seus estudos contribuíram para compreensão dos mecanismos envolvidos na hipertensão e para desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora de angiotensina.

Continua após a publicidade

Outros exemplos incluem fitoterápicos desenvolvidos a partir de plantas medicinais. Como o anti-inflamatório Acheflan®, produzido com as folhas da Cordia verbenacea, o xarope contra tosse Melagrião®, baseado na Mikania glomerata, e o calmante Sintocalmy®, à base de Passiflora incarnata.

Entre 20 fitoterápicos registrados na Anvisa analisados pela nossa equipe em 2016 e 2026, esses três seguem sendo os únicos desenvolvidos no país. Os demais são oriundos de plantas importadas, principalmente da Europa e da Ásia.

Os estudos pré-clínicos para o desenvolvimento desses três medicamentos naturais foram desenvolvidos pelo nosso grupo. A trajetória bem sucedida deles demonstra que é possível transformar conhecimento sobre plantas medicinais em produtos comercialmente disponíveis, com provas cientificas de eficácia e segurança. Ainda assim, eles permanecem como exceções. Uma minoria diante da dimensão da biodiversidade brasileira e do volume de pesquisas realizadas no país.

Continua após a publicidade

E o marco regulatório brasileiro para acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado faz parte desse complexo sistema.

A Lei nº 13.123/2015 estabeleceu regras para acesso ao patrimônio genético. Além disso, foram estabelecidas regras sobre conhecimento tradicional associado e exploração econômica de produtos derivados. E isso inclui mecanismos de repartição de benefícios.

O grande desafio, em minha opinião, é conciliar proteção da biodiversidade, respeito aos direitos das comunidades e condições favoráveis à pesquisa e à inovação.

Continua após a publicidade

Ensinamentos chineses e indianos

Um artigo publicado na prestigiada revista científica Nature Medicine destaca a importância de integrar diferentes evidências. Isso inclui ensaios clínicos, estudos de efetividade comparativa e dados do mundo real. E mais: ferramentas como inteligência artificial, genômica, proteômica e análise de bases de dados para avaliar as terapias baseadas em plantas.

Essas abordagens podem revelar interações complexas e padrões difíceis de identificar pelos métodos convencionais no estudo de terapias da medicina tradicional.

As experiências chinesas e indianas nos mostram que a inovação em medicamentos exige uma estratégia integrada e de longo prazo. E é importante valorizar a transformação do conhecimento tradicional em produtos modernos.

Continua após a publicidade

E adotar estratégias capazes de conectar proteção da biodiversidade, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, propriedade intelectual, regulação, indústria e financiamento.

Há muito tempo, a China compreendeu que transformar conhecimento tradicional em inovação exige muito mais do que pesquisas acadêmicas isoladas.

Em março de 2025, o Escritório Geral do Conselho de Estado da China publicou um documento. Nele, estabelece uma política de estado estratégica e abrangente. A ideia é melhorar a qualidade dos medicamentos tradicionais chineses e promover o desenvolvimento de alta qualidade da indústria.

Continua após a publicidade

A política começa pela própria base biológica. São medidas para proteger espécies medicinais, estabelecer bancos de dados sobre recursos, desenvolver tecnologias de cultivo e reprodução.

Além disso, busca melhorar sementes e mudas, padronizar o cultivo, controlar a qualidade. E visa ainda assegurar a rastreabilidade e o fornecimento estável das matérias-primas.

Na etapa industrial, prevê modernização das fábricas, incorporação de tecnologias digitais e inteligentes. Com isso, fortalecer as empresas para atuarem em toda a cadeia de valor.

Mais importante, estabelece uma ligação direta entre ciência, inovação e desenvolvimento industrial. E apoia pesquisa básica e aplicada, integração entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, ciência regulatória, validação em escala-piloto e industrialização.

A estratégia prioriza doenças crônicas, doenças graves complexas e multialvo e de difícil tratamento e novas doenças infecciosas. E também busca desenvolver medicamentos tradicionais com eficácia clínica comprovada.

A propriedade intelectual também ocupa lugar central. Por meio do uso integrado de patentes, marcas, indicações geográficas, proteção de variedades vegetais, segredos tecnológicos e proteção do conhecimento tradicional.

Para atingir esses objetivos são previstos instrumentos financeiros, crédito e seguros para cultivo de matérias-primas e desenvolvimento de medicamentos.

Em síntese, a China procura construir uma política de Estado que começa na proteção dos recursos biológicos e do conhecimento tradicional. Passa pela pesquisa científica e pelo desenvolvimento tecnológico. E termina em produtos regulados, protegidos por propriedade intelectual e capazes de competir internacionalmente.

Gargalos da cadeia de inovação

O contraste entre Brasil e China não deve ser comparativo sobre números ou qualidade dos pesquisadores. A questão é essencialmente sistêmica.

O Brasil possui políticas públicas relacionadas a plantas medicinais e fitoterápicos desde 2006. Além de possuir universidades e institutos de pesquisa com experiência na área, empresas farmacêuticas, centros tecnológicos, agências de financiamento e uma agência reguladora estruturada.

O que ainda falta é integrar esses componentes em uma estratégia de longo prazo.

Política efetiva com a chinesa deveria estimular projetos desde o desenvolvimento de extratos padronizados a descoberta de moléculas ativas.

E levar os resultados encontrados até estudos pré-clínicos e clínicos, registro na Anvisa e produção industrial.

Os mecanismos de financiamento também precisam acompanhar toda essa trajetória. Não basta financiar a descoberta se não houver recursos para as etapas pré-clínica e clínica. É essencial também pensar em escalonamento, transferência de tecnologia e colocação do produto no mercado.

É igualmente necessário fortalecer a formação de recursos humanos, estimular parcerias entre academia e empresas e superar obstáculos regulatórios, tecnológicos e operacionais.

Muitas publicações, poucas patentes e inovação tecnológica

O paradoxo brasileiro aparece quando se compara a nossa riqueza biológica com a capacidade de transformá-la em inovação. Pesquisadores brasileiros estudam a biodiversidade nacional há décadas. Artigo de revisão publicado por nosso grupo mostra que nossos pesquisadores publicaram 63 mil artigos científicos sobre plantas nos últimos 10 anos.

Apesar dessa produção expressiva, a transformação desse conhecimento em medicamentos é pequena. Estudo de revisão sobre patentes de medicamentos derivados de plantas medicinais brasileiras identificou 25 pedidos envolvendo plantas nativas entre 2003 e 2008. A maioria das invenções havia sido originada em universidades e centros de pesquisa brasileiros. Mas esses depósitos não se traduziram em produtos, em grande parte pela ausência de parcerias com a indústria.

O problema, portanto, não está na capacidade de gerar conhecimento. Mas na dificuldade de transformá-lo em propriedade intelectual, produtos regulados e tecnologias que cheguem ao mercado.

O Brasil: uma potência mundial em biodiversidade

Essa experiência deveria provocar uma reflexão profunda no Brasil. O país possui uma das maiores biodiversidades do planeta. São seis grandes biomas terrestres e extraordinária diversidade de ecossistemas costeiros e marinhos.Estimativas indicam que aproximadamente 20% das espécies conhecidas no mundo ocorrem em território brasileiro. O país possui cerca de 45 a 50 mil espécies conhecidas de plantas e fungos.

Essa diversidade biológica é acompanhada por uma igualmente rica diversidade cultural.Povos indígenas, comunidades tradicionais e populações rurais desenvolveram conhecimentos sobre propriedades e usos de plantas e outros organismos. Essa combinação constitui uma vantagem científica e econômica extraordinária.

Produtos naturais representam uma fonte comprovadamente importante de novos medicamentos. Estima-se que aproximadamente 35–40% dos medicamentos tenham alguma relação com produtos naturais.

O Brasil, portanto, possui elementos fundamentais para ocupar posição de liderança: biodiversidade, conhecimento tradicional e competência científica. Falta uma política de Estado.

Uma parceria estratégica com a China pode ser de grande valia para impulsionar a inovação em bioeconomia no Brasil.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Capa da revista Veja, um celular e um notebook exibindo conteúdo digital, sobre fundo escuro com o texto BLACKFRIDAY repetidoBanner de Black Friday com fundo roxo e preto, exibindo a palavra BLACKFRIDAY repetida. À direita, um laptop prateado com uma imagem de carro na tela, um smartphone com um site de notícias e uma revista Veja aberta com uma foto de comida.
ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ESQUENTA BLACK FRIDAY

Revista em Casa + Digital Premium

Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).