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Por que os negócios precisam de cientistas

Artigo de Michael P. Schulhof, vice-presidente da Sony nos Estados Unidos, analisa como sua profissão de cientista o ajudou na carreira de executivo.

Vinte anos atrás eu era um físico que trabalhava com experiências de espalhamento de nêutrons no Laboratório Nacional de Brookhaven. Agora, como vice-presidente da Sony americana e presidente da Sony Software, represento a empresa tanto nos negócios da área eletrônica quanto na do entretenimento. Passo meus dias discutindo e cuidando de projetos que vão desde novos desenvolvimentos em alta definição até a música popular. Minha experiência tem-me convencido de que uma formação em ciência pura é a preparação ideal para os negócios. E vou além: os negócios americanos poderiam ser muito melhores se tivessem mais cientistas e menos executivos dirigindo suas corporações.

Por que eu acho que um detector de nêutrons me preparou para a vida na Sony? Como físico, estava fazendo um trabalho importante e trabalhando com pessoas que eu admirava. Mas olhei em torno do laboratório e me perguntei se era isso o que eu queria estar fazendo dali a vinte anos. Pensei que gostaria de tentar o mundo dos negócios, mas eu não tinha certeza absoluta. Quando dividi minha incerteza com meu conselheiro de tese, o renomado pesquisador Robert Nathans, ele me deu alguns conselhos que jamais esqueci. “Não se preocupe com isso, Mickey”, ele disse. “Você é um físico. Físicos não fazem nada que realmente não queiram fazer. Se você entrar no mundo dos negócios e achar que não gosta disso, irá embora.”

Obviamente, eu gostei e fiquei. Mas fiquei como físico. Não importa o que diga a descrição do meu cargo, ainda sou um cientista. E tenho tratado problemas de negócios da mesma forma que trato de problemas científicos. As lições que aprendi como cientista foram uma base excelente para negócios. Algumas delas são básicas, como uma sólida ética. As escolas de administração yuppie dos anos 80 valorizavam a idéia de que se devia trabalhar por muitas horas. Essa tendência, porém, estava na moda nos laboratórios muito antes que alguém tivesse ouvido falar de Michael Milken (executivo americano, ex-diretor da corretora falida Drexel Burham Lambert, inventou os junk bonds – papéis de alto risco. Acusado de fraude, foi preso em 1991 e libertado em janeiro último). Lembro-me bem de quando ficava sentado até as 3 da manhã tomando conta de nosso precioso reator de feixe de alta luminosidade durante uma experiência. As horas não importavam. Era o resultado que contava.

Quando você tem um desafio muito importante, o tempo pessoal significa muito pouco. Essa é uma lição que eu carreguei para minha vida na empresa. Ciência também encoraja minha curiosidade intelectual. Claro, era o que me atraía para a Física em primeiro lugar. Mas o trabalho no laboratório de Brookhaven me ensinou o quanto é estimulante fazer da curiosidade intelectual o centro da vida profissional. Minhas responsabilidades tinham, obviamente, mudado. Mas a curiosidade intelectual é fundamental para me manter trabalhando nesse mundo. Em ciência, você aceita a curiosidade intelectual como uma coisa intrínseca. Eu queria que isso fosse mais comum nos negócios.

Gostaria também de ver executivos desenvolverem um pouco da tenacidade que é comum na ciência. Os executivos tendem a ser impacientes. Os cientistas com quem trabalhei eram ansiosos para ver resultados. Mas sabiam que você devia construir a fundação primeiro, antes de pensar em colocar o telhado. Eles me ensinaram, por exemplo, a importância de dominar os fundamentos de um assunto antes de fazer um trabalho novo, realmente significativo. Logo depois que a Sony comprou a Columbia Pictures, comecei a ler scripts de filmes que estávamos produzindo. Isso me indispôs com algumas pessoas da parte operacional. Uma delas me perguntou desafiadoramente por que eu queria os scripts. Até me disse que não me deixariam assumir decisões criativas. Respondi que ela não estava entendendo. Eu não estava interessado em dizer aos especialistas em criação como fazer filmes, mas, na verdade, em conhecer o processo.

Aprender o máximo que você puder sobre os detalhes é uma lição, de fato, desencorajada em muitas escolas de administração. Elas promovem a idéia enganosa do administrador genérico – o(a) profissional acabado(a), cuja educação o preparou para entrar em qualquer tipo de negócio e dirigi-lo. O mito de executivos que podem ser colocados em qualquer lugar criou uma geração de administradores migrantes nos negócios americanos. Muitos deles não têm tempo ou disposição para aprender qualquer coisa, com profundidade, sobre os negócios pelos quais são responsáveis. Ao contrário, eles trazem as teorias das escolas para cada tarefa. E muito freqüentemente não se detêm o tempo suficiente para avaliar se suas teorias são válidas ou não.

Essa é a grande diferença entre executivos diplomados e cientistas diplomados. O executivo diplomado aceita a teoria como um evangelho. O cientista diplomado aceita a teoria como um ponto de partida para a experimentação. Uma tendência igualmente perigosa nas escolas que formam administradores é seu potencial para restringir a criatividade. Quanto maior a reputação das escolas, maior o risco dos que nelas se formam de confiar mais na teoria de administração do que na criatividade pessoal. Há um momento para se fazer as coisas do jeito de Wharton ou do jeito de Harvard (Wharton e Harvard são conceituadas escolas de administração nos Estados Unidos). Mas há também um momento de fazer as coisas do seu próprio jeito.

Para ser realmente bem-sucedido em negócios, você deve ser um criativo corredor de riscos. Eu gastei cerca de 7 bilhões de dólares da Sony para comprar companhias como a Columbia Pictures e a CBS Records. Foram aquisições estratégicas que dão suporte à nossa visão de longo prazo para a Sony. Você tem de ter sua própria visão do futuro. E precisa de confiança para investir nessa visão. Não é muito diferente da abordagem da pesquisa científica. As pessoas que mais admiro em ciência tinham criatividade para desenvolver visões a longo prazo, assim como tinham coragem de se agarrar a elas, a menos que a pesquisa provasse que estavam erradas.

Nos próximos anos, os homens de negócios serão chamados a resolver problemas complexos de alto risco, não só para suas empresas como também para a sociedade como um todo. Alguns desses problemas envolverão decisões sobre tecnologia, meio ambiente, economia e mercado e até mesmo sobre o governo. Os cientistas compreendem o processo do pensamento crítico. Sabem como analisar problemas concentrando-se em elementos importantes e desprezando os irrelevantes. Entendem que são os resultados realmente importantes que exigem um esforço permanente. Estão dispostos a admitir que há coisas que não entendem e se dispõem a descobrir o que não sabem. O mundo dos negócios precisa desse tipo de visão e dessa coragem intelectual. Poderia absorver esse pensamento pegando alguns dos seus executivos e levando-os de novo à escola para fazerem doutoramento em ciência. Fascinante, mas improvável. Então, acho que os negócios devem ter a responsabilidade de recrutar mais cientistas.