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Posição do embrião no ovo ajuda a definir o sexo de uma tartaruga

Nos répteis, é a temperatura do ovo que define se o bebê é macho ou fêmea. Mas cada ponta do ovo tem uma temperatura diferente – e isso pode mudar o jogo.

Por Maria Clara Rossini - 1 ago 2019, 19h39

Quanto mais para a esquerda, mais quentinho. Quanto mais para a direita, mais frio. Um estudo publicado na Current Biology mostrou que a tartaruga é capaz de sentir a temperatura e se mover dentro do ovo quando ainda está em fase embrionária. Mas para entender como isso pode influenciar o sexo do animal, é preciso saber como funciona esse mecanismo nos répteis.

A maioria das pessoas está mais familiarizada com as fases embrionárias de mamíferos. O que determina o sexo de um bebê humano são os cromossomos sexuais. Mulheres possuem cromossomos XX e homens possuem cromossomos XY. O filho herda um cromossomo sexual da mãe e um do pai. A mãe sempre vai transmitir o cromossomo X, mas o pai pode transmitir tanto o X quanto o Y, resultando em bebês XX (meninas) ou XY (meninos).

Em alguns répteis, como as tartarugas, a história é bem diferente. O que determina se o embrião será menino ou menina é a temperatura em que o embrião se encontra. Ovos mais quentinhos geram fêmeas, enquanto ovos mais gelados geram machos. Em outros animais, como o jacaré-americano, o mecanismo é ainda mais singular: ovos de temperaturas muito altas ou muito baixas resultam em fêmeas, enquanto ovos de temperaturas intermediárias geram machos.

Uma diferença de apenas um grau já é determinante para o sexo da tartaruga. Acontece que há uma variação de temperatura considerável dentro do próprio ovo. A equipe de pesquisadores verificou uma diferença de 4,7°C entre uma extremidade e outra da casca. Isso significa que estar mais próximo de um dos lados pode definir se o embrião se tornará macho ou fêmea.

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Para verificar se isso acontece na prática, os ovos de tartaruga foram incubados em laboratório. Metade deles recebeu uma substância que bloqueia os sensores de temperatura do embrião. Por mais que os cientistas esquentassem ou esfriassem as extremidades dos ovos, os embriões permaneciam imóveis, resultando em ninhadas somente com fêmeas ou somente com machos (de acordo com a temperatura).

A outra metade dos embriões não recebeu a substância, ou seja: eles mantinham inalterada a capacidade de sentir a temperatura a que estavam submetidos. E aí os cientistas repetiram a experiência. Dessa vez, os embriões se moveram 6 milímetros para o lado mais ou menos quente. E isso resultou em uma ninhada com um número equilibrado de machos e fêmeas.

Para entender porquê, imagine uma espécie de tartaruga em que os filhotes incubados acima de 28 ºC se tornam machos; abaixo disso, fêmeas. Se a temperatura ambiente estiver 30 ºC e eles não puderem se mover no interior do ovo, nascerão só machos. Mas se for possível se refugiar em uma região do ovo em que a temperatura é 27 ºC, virão fêmeas também.

Segundo os cientistas, o mecanismo pode explicar como esses répteis sobreviveram à períodos em que a temperatura da Terra era diferente de hoje. Os embriões se mexem para tentar controlar a equivalência entre os sexos e garantir a proliferação da espécie. Mas essa é só uma hipótese, claro – muita pesquisa empírica ainda é necessária. 

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Uma limitação à hipótese é o tamanho do ovo. Ele pode ser muito pequeno para ter uma variação de temperatura considerável, ou o embrião pode ser muito grande para conseguir se mexer. Os pesquisadores acreditam que nem mesmo essa habilidade seria capaz de proteger as tartarugas do aquecimento global.

Atualmente, 84% dos ovos de Cabo Verde resultam em tartarugas fêmeas. E a tendência é piorar. Uma pesquisa da Universidade de Exeter prevê que 93% das tartarugas nasçam fêmeas no ano de 2100.

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