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Qual a origem das cobras? Fóssil descoberto em Presidente Prudente traz novas pistas

Fóssil de 80 milhões de anos mostra que a evolução das cobras não é tão linear como a ciência pensava.

Por Ana Clara Caielli Barreiro 27 jul 2026, 19h00 | Atualizado em 31 jul 2026, 16h09
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Presidente Prudente, no interior de São Paulo, é conhecida como a “Capital do Oeste Paulista” por ser uma das principais cidades da região. Foi lá que, em 2020, uma equipe do Museu de Paleontologia de Marília encontrou o fóssil da Tametara mirim, uma espécie de cobra até então desconhecida.

O animal media cerca de 42 centímetros e viveu há aproximadamente 80 milhões de anos. Seus restos foram encontrados na Formação Adamantina, conjunto de rochas do Cretáceo Superior famoso por abrigar fósseis de dinossauros.

Por ser tão antiga, essa serpente pode fornecer pistas valiosas sobre a origem das cobras, um longo debate da paleontologia. Alguns pesquisadores defendem que elas surgiram no ambiente marinho; outros, que sua origem está no subsolo; e há ainda quem proponha uma origem terrestre, na superfície. Até hoje, não existe consenso científico sobre o tema.

A condição de preservação do fóssil chamou a atenção dos pesquisadores. Geralmente, os fósseis de cobras consistem em dezenas de ossos separados, que perderam sua articulação natural A Tametara, porém, foi preservada quase completa, e os ossos ainda estavam conectados. Ela representa o primeiro fóssil brasileiro de uma serpente com os ossos articulados.

Em todo o mundo, existem menos de dez fósseis articulados de serpentes do Mesozoico (período entre 252 milhões e 66 milhões de anos atrás), e o registro fóssil escasso dificulta ainda mais a busca pela origem das serpentes.  

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Desde a descoberta, os pesquisadores vêm tentando entender melhor as características da Tametara. Agora, após uma série de análises, concluíram que ela provavelmente tinha um estilo de vida subterrâneo. Os resultados foram publicados em 22 de julho no periódico científico Nature.

A equipe estudou o crânio da cobra, uma estrutura que revela muito sobre o modo de vida desses animais. Serpentes subterrâneas (fossoriais) são adaptadas a viver e escavar no subsolo e possuem uma anatomia para suportar esse ambiente, com crânios rígidos e reforçados. Já as espécies terrestres apresentam crânios com mais mobilidades.

Duas vistas de um fóssil de crânio de réptil, em tons de bege e marrom, incrustado em rocha. A imagem superior (b) mostra uma vista lateral com estruturas ósseas como PFr, F, P, Pro, CB, Soc, Oto, St, Q e Ce.V. A imagem inferior (c) exibe uma vista ventral, destacando PFr, Ptg, F, P, CB, Q, St, Oto e Soc. Escalas brancas indicam o tamanho em ambas as fotos
(Simões, T.R., Sobral, G., Macrì, S. et al. Exceptional brain and ecological diversity in the earliest snakes. Nature (2026)./Reprodução)
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O problema era analisar a anatomia interna do crânio sem danificar o fóssil. A solução dos pesquisadores foi recorrer à microtomografia computadorizada, uma espécie de raio X de alta resolução capaz de gerar um modelo tridimensional do fóssil. Assim, os pesquisadores puderam visualizar detalhadamente as estruturas internas do crânio e analisá-las em diferentes ângulos, sem precisar tocar no fóssil.

Coral-azul: a mais bela das cobras também é mortal

A técnica revelou um crânio denso, cheio de sobreposições entre os ossos e um ouvido interno. O cérebro, por sua vez, apresentava regiões ligadas ao processamento da visão menores e menos desenvolvidas do que as observadas em outras serpentes do mesmo período, indicando que enxergar provavelmente não era essencial para o animal. Juntas, essas características completam o bingo de traços de serpentes fossoriais.

Mas isso não significa que as cobras tenham surgido no subsolo. Para investigar essa hipótese, os pesquisadores aplicaram a mesma técnica à espécie Dinilysia patagonica, que viveu na região da atual Argentina aproximadamente na mesma época da Tametara. Nenhuma das duas pertence diretamente à linhagem das serpentes atuais, mas fazem parte de ramos evolutivos próximos.

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Após comparar os crânios e outras características anatômicas, a equipe concluiu que a cobra argentina provavelmente tinha um estilo de vida terrestre, sem adaptações para viver no subsolo.

Isso mostra que, há cerca de 80 milhões de anos, as serpentes já ocupavam diferentes ambientes e apresentavam uma grande diversidade ecológica. Em vez de uma única origem ecológica, é possível que diferentes linhagens tenham seguido caminhos distintos muito cedo na evolução.

“A origem das serpentes não foi moldada por um único evento linear, como se pensava tradicionalmente. Em vez disso, a evolução inicial das serpentes envolveu mudanças repetidas no uso do habitat e na ecologia sensorial, caracterizando uma história ecológica dinâmica na qual múltiplas linhagens exploraram independentemente estilos de vida fossoriais e não fossoriais”, concluem os autores no estudo.

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