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Quem depende de quem?

Eles evoluíram para nos agradar. Nós os agradamos para nos sentir evoluídos. Entenda por que essa parceria é tão essencial

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h39 - Publicado em 20 abr 2012, 22h00

Texto Gustavo Heidrich

À primeira vista, são eles que dependem de nós. Para comer, beber, jogar a bolinha… Mas basta visitar um pet shop para ver como somos dependentes deles.

Só o brasileiro gasta, em média, R$ 760 por ano com bichos de estimação. Tudo em troca de algumas lambidas, fidelidade e muito companheirismo. Mas o que exatamente tornou duas espécies diferentes tão unidas a esse ponto?

 

Criando laços

Pesquisas recentes mostram que os cachorros, assim como os lobos, não se organizam em hierarquias dominadas por um macho alfa. É o que defende o biólogo John Bradshaw, da Universidade de Bristol, Inglaterra. Segundo Bradshaw, na natureza as matilhas formam-se com membros familiares próximos, de até três gerações. Os mais velhos são os líderes naturais do grupo, mas o clima costuma ser mais de cooperação do que de submissão.

O erro estava na forma como os lobos eram observados até agora: animais vivendo em cativeiro e com indivíduos escolhidos ao acaso. O que acabava alterando a forma como se organizavam.

Adestradores que até agora pensavam que deveriam interpretar o papel desse líder para dominá-los estão voltando atrás e treinando os bichos com mais carinho e recompensas. Por isso, foi tão fácil dar certo a amizade entre homens e cães. Uma relação rara entre espécies diferentes, que o austríaco Konrad Lorenz, um dos mais famosos especialistas em comportamento animal, chamou nos anos 1960 de “o laço” – ligação que surge quando os dois animais enxergam vantagens na parceria. Lorenz ainda estudou outro fator que nos atrai nos cães: o “esquema bebê” – características típicas dos filhotes de mamíferos que eles conservam por mais tempo, como os olhos grandes e o corpo macio. Pesquisas comprovam: nós não conseguimos resistir. É o que faz muita gente promovê-los à condição de quase-humanos e vesti-los com casaquinhos ou criar um resort só para eles (veja o boxe acima).

 

Você é a mamãe

E não é só isso. “Para garantir a parceria, eles fizeram um esforço evolutivo para se tornarem cada vez mais atraentes para nós”, diz Ceres. Aprenderam até a interpretar nossas expressões faciais – coisa de que só os cavalos também são capazes. Tanto que muitos deles nem desconfiam que são cães. Principalmente filhotes que foram separados da mãe antes da 10a semana de vida, quando o animal ainda está construindo as primeiras relações sociais. Sem o convívio com a cadela e outros cães, não aprendem a ser cachorros. A herança genética não basta, e eles ficam confusos. Apegam-se aos seus primeiros cuidadores – esses cachorrões esquisitos sem pelos que usam roupas e andam em pé. Passam a pensar que você, caro leitor, é a mamãe. O que pode até levar a problemas como a ansiedade de separação. “Muitos cães sofrem quando o dono está ausente e se tornam depressivos ou agressivos”, afirma o veterinário Daniel Svevo. Uma codependência que provavelmente surgiu com os primeiros cães. “O tempo passou, mas as necessidades psicológicas e práticas que nos aproximaram deles são as mesmas, afirma Ceres Faraco, doutora em psicologia social pela PUC-RS e veterinária especialista em cães. Tanto que muitas vezes cruzamos raças até obter animais que dificilmente sobreviveriam sozinhos na natureza. Como o shih tzu, raça que precisa do dono até para aparar os abundantes pelos que encobrem os seus olhos (sem essa ajuda, eles saem tropeçando em tudo).

Pelo que percebemos olhando o número de pet shops nas ruas de qualquer cidade, o trabalho compensa.

“É consenso entre cientistas que o simples ato de fazer carinho em um cão é capaz de liberar endorfinas, gerando uma sensação de prazer”, afirma Daniel Svevo, veterinário, adestrador e terapeuta canino de São Paulo. Vale lembrar: endorfinas são hormônios da felicidade produzidos pelo próprio corpo, mas que têm capacidade de viciar como uma droga.

Dois bons exemplos de como, nesse duradouro relacionamento, um não pode viver sem o outro. ]

 

Os mais dependentes
Dálmatas têm pele sensível. Filhotes de boston terrier geralmente nascem de cesária. Como viveriam sem nós?

Yorkshire
Origem – Inglaterra, séc 19

Começaram sua “carreira” como caçadores de ratos. Depois de vários testes e cruzamentos, viraram cães de companhia e exposição. Mas os experimentos fragilizaram sua saúde. Eles têm ossos e dentes frágeis. E não gostam muito do convívio com outros cães – preferem os humanos.

 

Pug
Origem – China/Holanda, séc. 16

Essa raça bem antiga é também muito frágil: são comuns infecções na dobra sobre o nariz e machucados em seus olhos protuberantes. Ainda precisa de estímulos para praticar exercícios, caso contrário, pode ficar obeso.

 

Lulu-da-pomerânia
Origem – Alemanha, antes do séc. 19

 

Bichon frisé
Origem – Mediterrâneo, antes do séc. 14

 

Shih tzu
Origem – China, séc. 19

 

Boston terrier
Origem – EUA (Boston), séc. 19

 

Dálmata
Origem – Índia, há mais de 4 mil anos

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Bem antes da fama no cinema, no começo do século 19, eram conhecidos como cães que acompanhavam carruagens. Apesar do pelo curto, precisam de cuidados constantes: costumam sofrer de alergias e problemas de pele, além de 20 a 30% deles serem surdos.

 

 

Um dia no maior resort de cães do Brasil
Ofurô, acupuntura, spa, terapia, natação e ginástica são alguns dos serviços oferecidos a partir de R$ 200 por dia

O Planet Dog, maior resort de cães do Brasil, no centro de São Paulo, recebe cerca de 50 animais por dia. Veterinários, adestradores e terapeutas cuidam dos bichos até o fim da tarde. No pacote, que sai a partir de R$ 200 para um dia ou R$ 570 para cinco, estão incluídas alimentação com as melhores rações, sessões de ginástica, natação e brincadeiras em escorregadores e piscinas de bolinhas. O descanso é feito em uma casa exclusiva com colchão e cobertor (ou ventilador nos dias quentes). Há ainda um spa, com banhos de ofurô, cromoterapia e acupuntura. E de salão de festas para comemorar o aniversário dos hóspedes, com direito a bolo e decoração. “A culpa por deixar o cão sozinho durante o dia fez o serviço explodir nas grandes cidades. Hoje são 12 no estilo resort em São Paulo. Há dois anos, eram apenas dois”, conta Juliana Legnaro, proprietária do hotel canino.

 

 

Cães bem urbanos
A SUPER elegeu alguns cães que se adaptam bem à vida na cidade e não se estressam por morar em espaços pequenos

 

Pastor-de-shetland
Origem – Ilhas Shetland, antes do séc. 19

Ele é em essência uma miniatura do collie, e, como ele, pode ser um ótimo pastor e cão de guarda. Adora correr, mas se adapta tão bem aos donos que é indicado para sedentários e idosos.

 

Maltês
Origem – Arquipélago de Malta, há 2 mil anos

 

Lhasa apso
Origem – Tibete, antes do séc. 15

 

Cocker
Origem – Espanha, séc. 10

São afetuosos e costumam criar fortes laços com sua família humana. Vivem bem em apartamento desde que saiam diariamente para uma corridinha. Ganharam fama com o desenho A Dama e o Vagabundo e com a biografia da cocker Flush, escrita em 1933 por Virginia Woolf.

 

Schnauzer
Origem – Alemanha, antes do séc. 16

 

Cães ilustres
Terra-nova o herói de Napoleão

Em 1814, Napoleão conseguiu escapar do exílio na ilha de Elba em um pequeno barco pesqueiro. Mas era uma noite chuvosa e o imperador, que não sabia nadar, caiu no mar. Sorte que o terra-nova de um pescador estava a bordo. Pulou na água e o resgatou imediatamente. Napoleão, que nunca gostou de cães, passou a dever sua vida a um.

 

 

Para saber mais

O Sentido do Cão, John Bradshaw, Record, lançamento previsto para 2012.

 

 

 

 

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