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Sexo na cabeça

O psiquiatra Simon Baron-Cohen acredita que a diferença entre homens e mulheres está no cérebro

Alessandro Greco

Foto: Simon Baron-Cohen/Wikimedia Commons

Você já viu um homem chorar no final de uma novela? E uma mulher apaixonada por motores de carro? Pode até ser que sim, mas, mesmo que não consigamos determinar o porquê, essas cenas são muito raras. Para o inglês Simon Baron-Cohen, a questão é a diferença entre o cérebro masculino e o feminino. Diretor do Centro de Pesquisa de Autismo da Universidade de Cambridge, Inglaterra, Baron-Cohen escreveu o recém-lançado livro The Essential Difference: The Truth about the Male and Female Brain (“A Diferença Essencial: a Verdade Sobre o Cérebro Masculino e Feminino”, sem tradução para o português). Ele afirma que o cérebro feminino seria, em geral, mais bem adaptado para o mundo social, mais ligado aos sentimentos e emoções.

O masculino estaria mais preocupado com o mundo abstrato, com as regras por trás de sistemas como computadores, automóveis, equações matemáticas ou música. A partir do conflito entre o impulso de sistematizar e o de se afeiçoar às coisas do mundo, Baron-Cohen conseguiu trazer novas explicações para doenças como o autismo e para a personalidade de alguns dos maiores cientistas da história, como Albert Einstein e Isaac Newton. De sua casa, em Cambridge, ele conversou com a Super sobre sua obra.

Você acredita que o cérebro masculino é mesmo diferente do feminino?

Minha teoria é psicológica. Eu pesquiso o tipo de informação que atrai mais cada tipo de cérebro. Acredito que a mente masculina é atraída mais facilmente por sistemas e para entender como eles funcionam. Já o cérebro feminino presta mais atenção às emoções.

E de onde vêm essas diferenças?

Elas são uma mistura de experiência de vida e de herança genética. O nosso aprendizado é importante para nos dar mais empatia ou para que possamos entender melhor os sistemas. Mas encontramos diferenças entre homens e mulheres já no nascimento, antes que eles possam ter qualquer experiência. Sabemos que algumas dessas diferenças são fruto de hormônios que agem ainda durante a gestação, que talvez sejam controlados pelos genes.

É possível dizer que cada sexo possui um cérebro de tipo diferente?

Não, as evidências que tenho sugerem que nem todos os homens possuem um cérebro masculino e nem todas as mulheres, um cérebro feminino. Na verdade, há pessoas que possuem um cérebro do tipo oposto ao do gênero do qual fazem parte.

Quais as vantagens e desvantagens de cada tipo de cérebro?

Primeiro, quero deixar claro que um não é melhor que o outro. Eles são simplesmente diferentes. O cérebro feminino tem vantagem no mundo social e o masculino, no mundo abstrato. Se você tem empatia, é fácil entender os sentimentos e pensamentos das outras pessoas sem nenhum esforço. Se você tiver facilidade para sistemizar, pode olhar para um máquina nova ou um sistema abstrato, como um código, e enxergar um padrão sem precisar fazer muita força. O cérebro masculino é muito bem adaptado para matemática, engenharia, computação e para áreas técnicas em geral, em que o conhecimento é organizado de acordo com leis ou regras. O feminino é muito bem adaptado para entender a relação entre as pessoas e para atividades que envolvem o cuidado com gente, como a medicina e o magistério.

Não seria mais vantajoso para a espécie humana ter um cérebro balanceado, bom em sistemas e em empatia?

Sim. A maioria das pessoas tem um cérebro assim. Somente na média as mulheres tendem a ter mais empatia e os homens, uma melhor compreensão de sistemas. Essa diferença parece ser fruto da evolução, que levou cada sexo a ser mais adaptado a uma área.

Em seu livro você fala das formas extremas de cérebro masculino e feminino. Que formas são essas?

Achamos que o cérebro masculino extremo corresponde ao autismo. Essas pessoas acham muito difícil ter empatia e, para elas, o mundo social é muito confuso. Por outro lado, podem passar horas, quase obsessivamente, com sistemas. O cérebro feminino extremo ainda não foi estudado. Especulamos que ele exista e que seja o oposto do masculino extremo.

E por que ele não foi estudado?

Porque pode ser que ele não leve a uma deficiência, como é o caso do autismo.

Você afirma que o autismo pode ser, em parte, hereditário. Por quê?

Há boas evidências de que o autismo atravessa gerações de famílias. Há uma incidência maior dessa doença em famílias com pessoas talentosas em áreas como matemática, física e engenharia do que em famílias com maior habilidade na área de humanas. Ainda não foi encontrado nenhum gene ligado a essa doença, mas há uma boa chance de que podemos encontrá-lo.

Você diz no seu livro que dois dos maiores físicos da história, Isaac Newton e Albert Einstein, podem ter tido síndrome de Asperger, uma variante do autismo em que as pessoas têm raciocínio e linguagem normais, mas muita dificuldade para lidar com o mundo social. Por quê?

Isso é baseado em um artigo publicado este ano pelo professor Ioan James, da Universidade de Oxford, Inglaterra. Ele estudou a vida desses dois físicos – e de outros também – e viu que eles possuíam muitas características de pessoas com síndrome de Asperger. Einstein foi descrito como uma criança solitária e sonhadora, com dificuldade para fazer amigos. Sua fala não era considerada fluente até os 9 anos de idade. Obviamente, não se pode fazer um diagnóstico definitivo de alguém que está morto e, de qualquer forma, seria antiético fazê-lo se a pessoa não estiver procurando ajuda.

Por que é difícil para a pessoa com síndrome de Asperger entender como funciona o mundo social?

O comportamento das pessoas não é previsível – diferentemente do mundo não social, do mundo inanimado. A única forma de entender a ação de outras pessoas é imaginar os pensamentos e sentimentos dela. Se você acha isso difícil, como muitas pessoas com a síndrome de Asperger afirmam achar, o mundo social não é somente complicado, mas muitas vezes assustador.

É possível que alguém com essa síndrome tenha uma vida social normal?

Sim, se as pessoas que estão próximas dela tiverem tolerância e a valorizarem. Se, ao contrário, elas acharem que é difícil lidar com quem sofre desse mal, isso pode levar a problemas muito graves para o portador da síndrome de Asperger, até mesmo à destruição da sua vida social.

Você adiou a publicação do seu livro por alguns anos. Por quê?

Até cinco anos atrás, esse tipo de teoria seria potencialmente controverso. Não teríamos um debate aberto e balanceado. Há 20 anos, essas idéias seriam consideradas sexistas ou simplesmente como algo que tentava perpetuar a discriminação ou a desigualdade entre os sexos. Não estou interessado nessas questões, mas sim na forma como funciona o cérebro masculino e o feminino. Decidi agora lançar meu livro porque já podemos fazer essas perguntas de forma mais aberta.

Qual tipo de cérebro você tem?

Para mim, é muito difícil julgar. Estive envolvido na criação do teste usado para determinar qual o tipo de cérebro que cada pessoa tem. Os testes funcionam melhor quando você não tem nenhum tipo de conhecimento prévio deles. Não é o meu caso.

 

Simon Baron-Cohen

• Tem 45 anos e estuda autismo há mais de 20 anos

• Tem três filhos

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