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Temperatura crítica

Alterações inéditas no clima e na temperatura colocam um cenário de catástrofe no horizonte do planeta. Felizmente, a Era do Hidrogênio está chegando

Gilberto Stam

O clima da Terra já passou por mudanças radicais. Entre os diversos períodos de glaciação, as temperaturas foram de um extremo a outro, remodelando continentes inteiros e varrendo milhares de espécies animais e vegetais. Do ponto de vista do planeta, portanto, o aquecimento global que observamos hoje beira o irrelevante. Mas, para uma espécie em particular, o Homo sapiens, isso tem um significado marcante: ele é o único que pode reverter a situação – pela qual, em grande parte, é responsável.

A temperatura média do planeta subiu 0,6 grau Celsius desde 1861, época das primeiras medições com termômetro. Parece pouco, mas essa “febre” já fez com que, ao longo do século 20, geleiras derretessem o bastante para elevar o nível do mar em até 15 centímetros. Os recifes de coral, hábitat de 65% das espécies de peixes do planeta, estão se transformando em um amontoado cinzento de rocha sem vida. Animais como o urso polar e o pingüim-de-magalhães tiveram suas rotas de migração afetadas. “Se o aquecimento global continuar, provavelmente nenhum ecossistema do mundo estará a salvo”, garante Lester Brown, diretor do Worldwatch Institute, uma das mais importantes e respeitadas instituições ambientais do mundo .

Uma parte da responsabilidade pelo aquecimento pode ser creditada a causas naturais, como atividade vulcânica e incêndios espontâneos nas florestas. “Não se sabe ao certo até que ponto a ação humana pode afetar o ciclo natural do planeta”, diz José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mas a maioria dos cientistas, inclusive os renomados que participaram do último relatório do Painel Intergovernamental da ONU sobre mudanças climáticas, não hesita em apontar o ser humano como responsável pelas assombrosas mudanças no clima.

 

O que pode ser feito

Para interromper o aquecimento global, será preciso substituir os combustíveis fósseis por uma fonte limpa de energia, que não produza o gás CO2, principal causador do efeito estufa. Uma das saídas sensatas é o hidrogênio, o elemento mais abundante do universo. Em vez de gases tóxicos saindo pelo escapamento dos automóveis, por exemplo, teremos vapor de água – hidrogênio (H) reagindo com oxigênio (O), que produz água (H2O). A partir de 2004, deve chegar ao mercado alemão o Necar4, carro da DaimlerChrysler que incorpora a nova tecnologia . A Ford, a GM e a BMW também estão incubando lançamentos similares. Tudo indica que, em breve, outras grandes montadoras investirão fortunas para não perderem esse bonde da história.

Segundo Christopher Flavin, do Worldwatch Institute e um dos autores do anuário O Estado do Mundo, “já estamos na Era do Hidrogênio”. Na verdade, é apenas o começo. O hidrogênio ainda é muito caro para ser distribuído nos postos de abastecimento. Tem mais: para produzi-lo é preciso quebrar as moléculas de água e separar o hidrogênio do oxigênio e, embora a matéria-prima saia de graça, esse processo consome quantidades enormes de energia. E não adianta nada fazer isso queimando carvão ou petróleo, processo que produz mais CO2. O primeiro desafio, portanto, é obter energia abundante a partir de fontes renováveis, que não gerem CO2, para então produzir hidrogênio. O segundo desafio é baratear a célula de combustível – a bateria de hidrogênio que vai substituir o tanque de gasolina e funcionar também como gerador para fábricas e prédios.

O pioneirismo formal da nova era energética ficará, provavelmente, com a Islândia. O país já retira 70% da sua energia de fontes renováveis, como as de hidrelétricas, nossas muito conhecidas, e de fontes geotérmicas, à base de água proveniente da atividade vulcânica. Em quatro anos, os primeiros ônibus movidos a hidrogênio devem entrar em circulação por lá. Segundo estimativas de executivos da Shell, em cerca de 15 anos os demais países estarão seguindo o exemplo da Islândia e o mundo rodará ao sabor do hidrogênio. É emblemático: até a Shell, essa gigante do petróleo – por sinal a mesma que está sendo acusada pela contaminação do solo e da água em torno da sua fábrica de agrotóxicos em Paulínia, SP -, já investe firme em pesquisas de energia renovável. Ao que parece, não haverá lugar para as empresas que não se adaptarem ao novo mercado.

Outra excelente opção para energia renovável de que dispomos atualmente é a velha e boa energia eólica, gerada pelo vento. Ela cresceu 24% por ano na última década em todo o mundo, seu custo diminuiu seis vezes e, em alguns países, já ensaia um enfrentamento direto com os combustíveis fósseis.

A energia solar, vedete do movimento verde dos anos 70, ainda é um tanto cara para competir no mercado, mas, aos poucos, se transforma numa boa opção. O Japão tem prédios 100% supridos pela estrela mãe. No Brasil, um programa do Centro de Referência em Energia Solar e Eólica Salvo Brito já instalou 6 000 sistemas de energia solar em comunidades carentes e isoladas. “Sai mais barato do que instalar a fiação toda”, disse Hamilton Moss, coordenador do Centro.

Existem duas tecnologias de energia solar. Uma delas é a fotovoltaica, muito cara e pouco popular, que usa materiais semicondutores para transformar luz em eletricidade. Outra é a térmica, cujos equipamentos já são produzidos e bastante disseminados no Brasil, e que serve especialmente para aquecer água de chuveiro e de torneiras. O custo de instalação às vezes assusta, mas, depois de uns dois anos, o investimento se paga e a energia sai praticamente de graça.

Mesmo com tantos avanços, em tantas frentes, será preciso continuar investindo em tecnologias revolucionárias, taxar os combustíveis fósseis e criar novos subsídios para a energia renovável. “É preciso reestruturar o sistema tributário de forma que o custo ambiental esteja embutido no preço dos produtos. Somente dessa forma a economia poderá evoluir no caminho da sustentabilidade ambiental”, garante Lester Brown.

A posição do presidente americano George Bush, que virou as costas para o Protocolo de Kyoto – o acordo internacional para redução das emissões de CO2 – , demonstra que ainda existem muitos interesses contrários ao desenvolvimento sustentável. E que, portanto, a estabilização do clima não será mesmo uma empreitada fácil. Resta ao ser humano fazer uma opção, por sinal, histórica: lançar mão dos recursos disponíveis para estabilizar o clima ou assumir os riscos ficando à mercê dos ajustes internos do planeta. Mesmo sabendo que nesse mecanismo não passamos de uma parte ínfima e, até certo ponto, dispensável da fabulosa engrenagem.

Mais carbono, mais calor

As ligações perigosas entre os níveis de carbono e a temperatura

Existe uma notável relação entre a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera e as variações da temperatura ao longo dos últimos 420 000 anos. Precisamos fazer alguma coisa logo: a taxa de CO2 que temos hoje é a mais alta já registrada

O desafio do carbono

A prioridade 1 é reduzir as emissões de gás carbônico. As prioridades 2, 3 e 4, também

UM ÓTIMO EFEITO

 

Gás carbônico, metano e óxido nitroso colaboram para o efeito estufa. Eles deixam a luz do Sol entrar na biosfera e fazem com que o calor não escape. Sem esse fenômeno, o planeta seria mais frio e as mudanças de temperatura entre o dia e a noite seriam drásticas

 

FLORESTA ESPERTA

Árvores usam o CO2 da atmosfera na fotossíntese. Precisamos de muitos sumidouros naturais de gás carbônico

 

CAUSAS NATURAIS

Atividade vulcânica e alterações na atividade solar explicam até 25% do aquecimento global

 

ESTÁ ESQUENTANDO

A temperatura média da Terra em 1860 era de 13,5 graus Celsius e, hoje, está em 14,5 graus. O nível do mar subiu 15 cm no século 20, geleiras estão derretendo e o El Niño virou catástrofe. Se a temperatura subir mesmo 6 graus até 2100, o mar subirá também

 

NO MAIOR GÁS

Quando andamos de carro, lemos a Super ou simplesmente respiramos, também produzimos gás carbônico

 

CADÊ MEU SNORKEL?

Cidades como Rio de Janeiro e Nova York serão varridas, surgirão desertos e a produção agrícola decairá substancialmente

 

REAÇÃO EM CADEIA

Clima mais quente quer dizer mais secas e mais queimadas: a floresta some e solta o gás carbônico de uma vez na atmosfera

 

A ENERGIA DO FUTURO

O hidrogênio pode ser armazenado nas células de combustível, concebidas no século 19 e adaptadas pela Nasa (a empresa pretendia gerar energia no espaço). É um tipo de bateria na qual o hidrogênio reage lentamente com o oxigênio, sem produzir poluentes

Daqui pra frente…

CENÁRIO NEGATIVO

 

A temperatura do planeta sobe 5,8 graus Celsius até o fim do século, derretendo gelo nos pólos e elevando o nível do mar. Variações climáticas serão súbitas, criando desertos e comprometendo a flora e a fauna. Faltará água e comida e sobrarão ratos e mosquitos, disseminando doenças.

 

CENÁRIO POSITIVO

Novas tecnologias – como a das células de combustível de hidrogênio, a energia eólica e a solar – vão eliminar a emissão de gases causadores do efeito estufa, iniciando uma era em que o progresso e o crescimento econômico não estarão em conflito com a mecânica natural do clima.

… E o vento vai levar

Energia eólica ganha força em todo o mundo

Nas duas últimas décadas, o preço da energia eólica caiu de 38 para 4 centavos de dólar por quilowatt/hora. Ou seja, ela já ultrapassou a linha que separa a experiência do uso prático e, ao que tudo indica, deverá firmar-se em nosso dia-a-dia num futuro bastante próximo. A taxa de crescimento da energia eólica em alguns países mostra isso: a Espanha registra 106% de crescimento, a Alemanha 55% e a Itália, 40%. A Nasa está desenvolvendo uma nova geração de turbinas supereficientes, com hélices de 60 metros de comprimento que devem reduzir ainda mais o custo final.

O Brasil tem duas usinas de vento funcionando, ambas no Ceará. Uma está em Prainhas, tem 20 geradores e potência total de 10 megawatts; outra em Taíba, com dez geradores e potência de 4 megawatts. A energia que produzem entra na rede normal de distribuição, compondo com a de origem hidrelétrica. No início do segundo semestre, fica pronto o “mapa eólico” brasileiro. Trata-se de uma rede de medidores, distribuídos em diversos pontos do país, que servirão para verificar a velocidade mínima e máxima dos ventos, além da sua direção predominante. É um passo importante para a instalação de fazendas eólicas e também para outras pesquisas, inclusive as de clima.