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A tradutora de animais

Pesquisadora autista afirma que a sua condição mental é a chave para compreender o modo como os bichos vêem o mundo

Por Reinaldo Lopes Atualizado em 17 mar 2017, 13h55 - Publicado em 30 jun 2006, 22h00

É um sonho que, de um jeito ou de outro, todo mundo já teve um dia: saber o que realmente se passa dentro da cabeça de um bicho. Instintivamente, sentimos que aquela história de “animal irracional” que ensinam na escola é só parte da verdade. Alguma coisa deve estar acontecendo debaixo daquele monte de pêlos – o difícil é saber exatamente o quê. Temple Grandin diz ter uma boa idéia da resposta. De certa forma, afirma, ela já esteve lá dentro.

Temple Grandin é autista. Diferentemente de muitas das pessoas na sua condição, porém, essa cientista americana conseguiu vencer as barreiras impostas pelo problema e hoje leciona na Universidade do Estado do Colorado, nos EUA. Também ajudou a projetar um sistema de abate mais clemente para o gado de corte, atualmente utilizado por metade dos matadouros americanos e canadenses. Segundo ela, não é à toa que tal sistema é tão bem-sucedido: seu autismo teria lhe dado uma janela para o mundo mental dos bichos, impensável para qualquer ser humano normal, mas natural para ela. “Animais e autistas pensam de um jeito parecido”, diz .

A tese, no mínimo controversa, está em Na Língua dos Bichos, o mais recente dos livros da pesquisadora. Temple pode estar certa ou errada, mas é inegável que sua narrativa (escrita em parceria com a jornalista Catherine Johnson, mãe de dois meninos autistas) encurta de um jeito impressionante o abismo que as pessoas costumam colocar entre elas e os animais.

Um mundo fragmentado

Pelo menos não dá para acusar a cientista de falta de modéstia: ela diz que suou um bocado para conseguir traçar conexões entre sua própria condição e o mundo dos bichos. Aliás, quando era pequena, Temple apanhava até para conseguir diferenciar cachorros de gatos. (No começo era fácil: ela separava as espécies pelo tamanho – cachorros eram grandes e gatos, pequenos. Isso até aparecer na vizinhança um cão da raça dachshund, o popular “salsicha”. Foi aí que ela teve o estalo: cachorros têm focinhos de cachorro.)

Na adolescência, sua mãe a colocou numa escola especial para jovens com “problemas emocionais”, na qual o contato com cavalos, muitos dos quais também problemáticos e traumatizados, era parte obrigatória do currículo. E a necessidade de tratar dos bichos todos os dias lhe deu estabilidade emocional e a ajudou a enfrentar suas próprias dificuldades. “Os animais me salvaram”, afirma ela.

Clinicamente falando, Temple é portadora da síndrome de Asperger, uma das muitas condições mentais que podem ser classificadas de autismo (que não é uma doença simples, mas uma série de problemas semelhantes agrupados sob o mesmo nome). Obviamente, o quadro da pesquisadora é suficientemente brando para que ela possa lecionar e escrever. O que se passa na cabeça de alguém assim? A própria cientista descreve: sua mente funciona como uma sucessão de imagens ultradetalhadas. Linguagem verbal não faz muito sentido para ela, que pensa de forma visual, não em palavras.

Por isso mesmo, falar sempre foi um sacrifício para Temple. Ela diz que, na escola, os colegas lhe deram o apelido de Gravador, pois ela tendia a repetir as mesmas conversas o tempo todo. Apesar da maldade, os moleques estavam certos em seu diagnóstico: ela ainda é um gravador, só que teria acumulado tantas frases diferentes na memória que aprendeu o truque de não soar mais como um papagaio.

A pesquisadora compara o seu raciocínio a uma espécie de simulador visual. Ela diz conseguir montar na cabeça as instalações de um matadouro, por exemplo, e ver se aquilo é sólido ou não. Para se lembrar de alguma situação, ela simplesmente rebobina ou avança a “fita” da memória até o momento desejado. O ponto importante aqui é que se trata de uma memória absurdamente detalhada em termos visuais. E o mesmo vale para as percepções: ela diz que não consegue deixar passar detalhes que a maioria das pessoas nunca iria ver, mais ou menos como as crianças autistas que, ao olhar para um ventilador, conseguem ver as pás individualmente mesmo quando elas estão girando muito rápido. Pessoas normais vêem a floresta inteira – ela só vê as árvores isoladamente.

É juntando esse quadro todo que a pesquisadora propõe que a mente autista pode ser usada como uma espécie de ponte entre o cérebro humano normal e o dos animais, especialmente o dos mamíferos, nossos parentes mais próximos. É que, grosso modo, o cérebro do Homo sapiens está organizado em 3 andares, herança de uma história evolutiva de centenas de milhões de anos. “O cérebro de lagarto respira, come e dorme; o de cachorro forma hierarquias de dominância e cuida dos filhotes; e o de humano escreve livros sobre tudo isso”, brinca ela.

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Em humanos normais, tudo o que acontece nos 3 “cérebros” é amarrado e transformado num conjunto consistente em regiões especializadas do neocórtex (a camada mais evoluída), principalmente os chamados lobos frontais. Normalmente, os animais têm essa região muito pouco desenvolvida – mas nem sempre. “Acho muito interessante o ponto de vista da Grandin, mas ele é um pouco simplista”, afirma Sidarta Ribeiro, neurocientista brasileiro que trabalha na Universidade Duke (EUA). “Basta pensar na equidna [um mamífero muito primitivo e botador de ovos, parente do ornitorrinco], que tem um lobo frontal gigante e nem por isso é um poço de racionalidade”, diz ele.

Seja como for, as pessoas normais usam os lobos frontais e o neocórtex em geral para criar uma visão “lógica” do mundo, juntando todos os estímulos dos órgãos dos sentidos num todo coerente. O uso da linguagem ajudaria um bocado nisso. Os autistas têm lobos frontais perfeitamente normais, mas Temple sugere que eles provavelmente não estão bem ligados ao resto do cérebro – daí a supersensibilidade de pessoas como ela aos estímulos sensoriais. “Basicamente, ela está vendo o problema como uma síndrome da desconexão, na qual as funções superiores e inferiores do cérebro não estão bem integradas”, diz Jaak Panksepp, neurocientista da Universidade do Estado de Washington, EUA. “A hipótese é tão crível quanto qualquer outra. O problema é a falta de evidências sólidas.”

Sentidos animais

O que a mente animal tem a ver com isso tudo? Na prática, argumenta Temple, lobos frontais “desconectados” ou pequenos acabam dando resultados razoavelmente parecidos. Para ela, tanto animais quanto autistas vêem o mundo de forma muito mais imediata, fragmentada e baseada nos sentidos, dando atenção aos menores detalhes o tempo todo.

Por isso é que, nas experiências dela com instalações de abate com problemas, os donos desses lugares dificilmente sacavam o que estava deixando os bichos assustados e os impedia de passar por um corredor, digamos. Em quase 100% das vezes, era algum detalhe que os sentidos humanos normais deixavam passar. Porcos não queriam atravessar um piso metálico porque ele estava cheio de poças d’água com reflexos que eles achavam assustadores; vacas eram forçadas a sair de uma passagem escura para um pátio iluminado, ou vice-versa; alguém tinha deixado pendurada uma capa de plástico amarela balançando ao vento bem no caminho do gado; e assim por diante. Muitos dos casos envolviam uma mudança ou um contraste brusco – bem, pelo menos brusco para os aguçados sentidos dos animais.

Para a pesquisadora, o verdadeiro problema de tudo isso é a novidade, um fator que quase todos os bichos – inclusive o homem – tendem a achar assustador. A diferença é que o cérebro humano normal parece ter desenvolvido uma capacidade impressionante de filtrar detalhes novos do ambiente. Grande parte dos autistas, no entanto, têm uma sensibilidade aguçada para as mudanças mais insignificantes, o que normalmente lhes causa muito desconforto – outro paralelo com a mente animal.

O mundo emocional dos bichos, para a pesquisadora, é outro indício de como seu cérebro e o dos autistas pode estar organizado de forma parecida. De certa maneira, as emoções básicas de animais e pessoas são as mesmas: medo, raiva, curiosidade, atração sexual, ligação social (o que nós chamaríamos de “amizade”). A diferença, na opinião de Temple, é que a menor capacidade do cérebro animal para associar coisas o tempo todo ajudaria a manter essas coisas bem separadas. Bichos não têm relações de amor e ódio com alguém: se o seu cão te ama, ele te ama e ponto.

Animais também saltam com a maior facilidade de um momento de raiva para outro de tranqüilidade. O mesmo valeria para os humanos com autismo. “Algumas pessoas provavelmente vão achar isto insultuoso, mas uma das coisas que eu gosto a respeito de ser autista é que eu não tenho de lidar com toda a loucura emocional que os meus alunos enfrentam. Não consigo nem começar a imaginar como seria sentir amor e ódio pela mesma pessoa ao mesmo tempo”, escreve ela. Nessa falta de intimidade com as nuances emocionais pode estar a raiz da dificuldade que os autistas têm em se relacionar e se comunicar com outras pessoas.

Há também relatos de que pessoas com autismo, tal como muitos animais, têm uma percepção mais amena da dor física. Temple atribui isso a uma possível falta de conexão entre a dor e sentimentos como ansiedade e preocupação.

É claro que muitos pesquisadores têm dúvidas sobre a tese de Temple, mas numa coisa quase todos parecem concordar cada vez mais com ela: o mundo mental e emocional dos bichos é muito mais complexo do que se supunha poucas décadas atrás. A memória fotográfica e a capacidade de perceber detalhes são só a ponta do iceberg. Simples ratos de laboratório parecem ter senso de humor e emitem sons que só poderiam ser classificados de riso; a complexidade do canto dos pássaros e das baleias dão um vislumbre de como a nossa própria linguagem pode ter evoluído. Ainda que a analogia com o autismo tenha seus problemas, as pontes entre nós e eles devem se tornar cada vez mais fortes.

Para saber mais

Na Língua dos Bichos – Temple Grandin e Catherine Johnson, Rocco, 2006.

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