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Uma janela para o fundo do mar

Os peixes que ficam atrás da imensa vitrine do Aquário da Baía de Monterey moram num tanque artificial. Mas estão em casa, tal a semelhança do lugar com o seu ambiente na natureza. Você entra nesse mundo deslumbrante sem incomodar. E sem se molhar.

Ivonete D. Lucírio

Você não precisa ter uma paixão especial por peixes para ficar maravilhado. Ao descer até o saguão principal do Aquário de Monterey, na Califórnia, o visitante tem a sensação de que mergulhou no mar azul da própria baía. Para separar o espectador da água, foi fabricada a maior vitrine contínua do mundo: 6 metros de altura, 18 de largura e 33 centímetros de espessura. Do outro lado, um tanque com 4 milhões de litros, mais líquido do cabe em duas piscinas olímpicas. Nas paredes, milhares de ladrilhos refletem a luz do sol, que ganha uma bela tonalidade safira. A grande sala de três andares, chamada de Baía Externa, foi o principal (mas não o único) petisco para atrair 2,4 milhões de visitantes do mundo todo em 1996. Agora chegou a sua vez de dar uma olhada. Nesse mergulho, o único equipamento indispensável é a curiosidade.

Bichos do mar entram à vontade

Imagine bancar o Jacques Cousteau na Baía de Monterey sem molhar nem a ponta dos dedos. É isso que acontece na Baía Externa, uma obra espetacular de engenharia. São mais de 100 galerias, com a fauna e a flora da costa da Califórnia, numa área total de 20 000 metros quadrados. Mais de 6 000 litros de água do mar são bombeados para dentro a cada minuto. Durante o dia, a água é filtrada para evitar que fique turva. À noite, entra livremente. Junto, ingressam centenas de mariscos e outros pequenos invertebrados, que se instalam no local. A maioria deles acaba virando comida para os 305 000 animais marinhos que moram ali.

Há outras atrações além daquelas que se pode ver através dos vidros. Telescópios voltados para o oceano mostram o espetáculo que ocorre na superfície marinha. Por meio deles você pode ver as baleias que passam em março pela Califórnia, a caminho do norte. O visitante não se limita a olhar. Na Piscina Tátil, dá até para passar a mão na pele de arraias-morcego e segurar estrelas-do-mar.

A iniciativa de construir o zoológico aquático foi do magnata americano David Packard, fundador da fábrica de produtos eletrônicos Hewlett Packard. Nos anos 70 ele tentava decidir onde aplicaria o dinheiro destinado a fins filantrópicos. Sua filha Nancy e o genro, ambos biólogos marinhos, sugeriram a construção de um aquário em Monterey. Packard empolgou-se. Graças à sua ajuda, foi possível inagurar a obra em 1984.

As estranhas criaturas das profundezas

Criar um cantinho para os animais que moram a mais de 100 metros da superfície é um desafio. A parte mais fácil é resfriar a água até a temperatura de 7 graus Celsius. O difícil é manter baixa a quantidade de oxigênio, que no fundo do mar está presente numa proporção bem menor do que na superfície. Os bichos que ficam lá estão adaptados a essa situação. Para tornar possível a sobrevivência no cativeiro, os técnicos inventaram um sistema que injeta bolhas de nitrogênio na água, expulsando parte do oxigênio. O local é um paraíso para os oceanógrafos e pesquisadores da fauna marinha. Um grupo de cientistas que trabalha no aquário criou o Rov, um submarino que desce, por controle remoto, até 490 metros e envia imagens à superfície. A primeira mostra dos habitantes das profundezas será em março de 1999.

Este é um tipo de camarão brilhante. Por ficar sempre em locais escuros, desenvolveu a capacidade de emitir luz. É com a luminescência que ele consegue atrair as presas – e também a fêmea. À noite, costuma descer até as camadas mais fundas para buscar plâncton, parte da sua alimentação

Por mais esquisito que possa parecer, essa aí do lado é uma espécie de lagosta, com dez pares de patas. Ela fica entre 600 e 1 200 metros de profundidade, a uma temperatura que vai de 3 a 10 graus Celsius. Come outros crustáceos, além de peixes

Não é um peixe, é um tunicado, bicho que tem o corpo recoberto por uma túnica protetora transparente. Na profundidade em que reside, a água é muito densa e viscosa, dificultando seus movimentos. Por isso, ele se fixa em rochas e navios. Seu corpo absorve a água do mar, retirando dela substâncias nutritivas

Se faltar comida, eles se devoram

Alimento é o que não falta nas águas de Monterey, nem para o homem nem para os animais. Um barco pesqueiro é capaz de pegar 60 toneladas de sardinha em uma única noite. Por isso os peixes ficam mal-acostumados. No seu hábitat estão sempre de barriga cheia. No cativeiro, a comida é menos abundante. E, ao menor sinal de fome, o tubarão não hesitaria em comer a barracuda ao lado. Esse foi um problema que os biólogos tiveram que resolver. Como? Oferecendo um banquete, preparado sob medida para o gosto de cada freguês. Há um verdadeiro restaurante de luxo dentro do aquário, especializado em preparar os quitutes dos artistas. Para os tubarões, por exemplo, são servidos filés de salmão. Foram necessários anos de pesquisa para definir qual a melhor iguaria a oferecer a cada uma das espécies, e em que quantidade.

Às vezes, os biólogos acabam aprendendo mesmo é com os acidentes que acontecem. Certa vez, um polvo gigante atacou um tubarão que chegou muito perto. O polvo provavelmente só queria defender o território. Os dois tiveram que ser separados pelos tratadores com uma espécie de lança. Afinal, confinados ou não, esses monstros dificilmente serão domesticados.

Para saber mais

Na Internet:

http://www.mbayaq.org

Monterey Bay Aquarium Research Institute

Os astros da passarela marinha

Os animais mantêm no cativeiro os hábitos naturais.

A maioria dos bichos em exibição é do trecho do Oceano Pacífico próximo a Monterey. Mas, para adaptá-los ao cativeiro, foi necessária a ajuda de especialistas. Biólogos, oceanógrafos e, principalmente, mergulhadores, os mais familiarizados com o universo submarino, foram convocados para a tarefa.

O tanque das algas tem 8,5 metros de altura e seu topo é aberto para que ocorra a fotossíntese. Lá dentro também há peixes, que o mergulhador alimenta enquanto fala com o público por meio de uma máscara especial (no detalhe)

Os tubarões-leopardo se adaptam muito bem. Gostam de nadar na parte mais funda e vivem até os 20 anos de idade. Com 1,8 metro de comprimento, estão entre os tubarões de maior tamanho. Na natureza, ficam próximos da costa

Há um lugar exclusivo para abrigar a maior coleção de medusas dos Estados Unidos. Nos tentáculos da Chrysaora fuscescens há um veneno que paralisa as presas que ela vai comer

O Thunnus albacares, um dos tipos de atum mais freqüentes naquela zona do Pacífico, nada a 70 quilômetros por hora em mar aberto. Até se acostumar ao novo espaço, ele é amarrado com linhas flexíveis para não bater nas paredes do aquário

Este reservatório é o primeiro passo para chegar a uma simulação completa das regiões mais profundas do mar. Menos sensíveis à falta de luz e à pressão, as estrelas-do-mar e os caranguejos-reais são colocados aqui

Conheça o Pacífico por dentro

Uma boa opção de passeio para quem visita a Califórnia.

O Aquário da Baía de Monterey abre todos os dias, exceto no Natal. O horário de funcionamento é das 9h30 às 18 horas, de 14 de junho a 1º de setembro, quando é verão nos Estados Unidos. Nos demais meses, das 10 às 18 horas. O ingresso custa 14,75 dólares, com preços especiais para estudantes e crianças. O telefone para informações é 001 408 648-4888.