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Bruno Garattoni

Por Bruno Garattoni Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Vencedor de 15 prêmios de Jornalismo. Editor da Super.
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A nova IA do Google é espetacular. Mas também pode destruir a internet

SGE adiciona respostas geradas por inteligência artificial aos resultados das buscas; resultado é revolucionário - mas, a médio prazo, pode acabar devastando a web. Veja como experimentá-la, e entenda qual é o problema

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Atualizado em 17 nov 2023, 07h46 - Publicado em 13 nov 2023, 14h48

SGE adiciona respostas geradas por inteligência artificial aos resultados das buscas; resultado é revolucionário – mas, a médio prazo, pode acabar devastando a web. Veja como experimentá-la, e entenda qual é o problema.  

O novo recurso, que se chama Search Generative Experience (SGE), foi lançado nos EUA em maio – e, na semana passada, estendido a mais 120 países, incluindo o Brasil. Com ele, as suas buscas no Google passam a incluir um texto, gerado por inteligência artificial, antes dos links. Veja como: 

Para ativar esse novo modo, basta entrar no Google Search Labs e ligar a opção SGE. A partir daí, as buscas que você fizer usando o navegador Chrome (para desktop) ou o app do Google (para Android e iOS) passarão a incluir respostas geradas por IA.  

Ao apresentar o SGE à imprensa brasileira, o Google usou o seguinte exemplo de busca: “Como ingressar em um time de futebol feminino?”. A IA deu respostas óbvias e bobinhas – disse para “participar de peneiras”, mas não forneceu a informação relevante, que é como/onde/com quem fazer isso. 

Foi só um exemplo infeliz. Com outras coisas, a nova IA do Google se mostra muito inteligente: ela melhora drasticamente as buscas, e realmente transforma a experiência de uso da internet. Passei os últimos dias testando a SGE, e avaliando suas respostas, durante minhas pesquisas – tanto em coisas de trabalho quanto em curiosidades pessoais, incluindo coisas meio difíceis.

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E o robô me ajudou muito. Graças a ele, finalmente consegui entender por que o RIN (RNA integrity number) da vacina da Pfizer caiu quando ela começou a ser fabricada em escala industrial – e como o problema foi mais ou menos resolvido. Fiquei sabendo que os “ETFs com dividendos sintéticos”, um novo tipo de fundo de investimento, usam derivativos: instrumentos financeiros hipervoláteis, nos quais não ponho meu dinheiro. Saquei a diferença entre a “gramática universal” e a “gramática generativa”, dois conceitos do linguista Noam Chomsky. E por aí vai.  

Em todos esses casos, e em diversos outros, a IA gerou respostas muito mais rápidas, diretas e fáceis de entender do que se eu tivesse entrado nos sites sugeridos pelo Google e lido seus textos (o que também fiz, para comparar). 

O pulo do gato é que, após cada resposta do robô, você pode clicar em “Faça outra pergunta” e questionar a IA sobre o que ela disse, entrando em detalhes cada vez mais específicos, até destrinchar e entender tudo. 

Queimadas na Amazônia.
Exemplo de resposta gerada pelo SGE. (Google/Reprodução)

A IA do Google também mostrou, eis um ponto crucial, de onde havia tirado as informações: após cada parágrafo, ela coloca uma setinha que, se apertada, mostra as páginas que foram consultadas. Em quase todos os casos, eram boas fontes (como artigos científicos, agências regulatórias ou veículos confiáveis). 

A SGE não é tão granular nisso quanto a inteligência artificial do buscador Bing ou a Perplexity AI (campeã nesse aspecto, pois lista suas fontes após cada informação), mas faz o suficiente para inspirar confiança – verifiquei os dados nas fontes, e estavam corretos. 

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Ela serve até para ler notícias: ao contrário do ChatGPT, cuja versão gratuita só inclui informações até janeiro de 2022, a IA do Google é bastante atualizada (em um teste feito nesta segunda, 13 de novembro, ela explicou direitinho acontecimentos do final de semana).

A SGE não é perfeita, claro. Como qualquer modelo de linguagem, a IA do Google está sujeita às chamadas “alucinações”: inventar coisas que simplesmente não existem. Mas, em quatro dias de testes, isso não ocorreu. Os problemas foram outros, menores.  

Quando perguntei por que as gorduras trans aumentam o nível do colesterol ruim (LDL) no organismo, por exemplo, ela me enrolou com frases genéricas. Em alguns casos, o robô se recusou a falar. Questionado sobre o adoçante ciclamato, por exemplo, não disse nada: só exibiu links para sites, como numa busca tradicional. 

Também é visível que o Google colocou bloqueios (guardrails) para evitar que a IA mencione ou responda sobre determinados temas. Se você inquirir certas coisas sobre o próprio Google, ou perguntar se a SGE é prejudicial para a internet, ela fica quietinha. 

Talvez porque seja prejudicial. E você não precisa de uma IA para entender a razão. As respostas geradas pela SGE são tão boas, e aparentemente tão confiáveis (porque ela lista as fontes), que geralmente se torna desnecessário clicar nos resultados da busca. 

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Percebeu? Em muitas situações, você não precisa mais navegar na internet; agora, a informação está dentro do próprio Google. E isso muda tudo. 

Uma análise feita com 23 sites dos Estados Unidos, onde a SGE foi lançada há seis meses, projetou perda de 18% a 64% da audiência devido à busca com IA. 

Anotações em inglês.
Principais elementos do SGE. Note como os links tradicionais, que não foram consultados pela IA, são penalizados e ficam bem abaixo na tela. (Barry Schwartz/Search Engine Land/Reprodução)

Isso acontece num contexto bem desfavorável, em que o Google e as redes sociais já vinham reduzindo o tráfego para os sites, e a web perdeu boa parte da audiência para o TikTok e o Instagram, que são plataformas fechadas (elas impedem ou dificultam a inclusão de links nas postagens).

Se os sites recebem menos acessos, geram menos receita com banners publicitários – até chegar a um ponto em que se tornam economicamente insustentáveis. É por isso que, nos últimos anos, tantos sites foram adotando paywalls, em que você tem de pagar para ler o conteúdo. É uma tentativa de sobreviver à queda na receita publicitária. 

Mas, tirando alguns casos específicos, isso está longe de resolver o problema – porque ainda não existe a cultura, na internet, de pagar por conteúdo escrito (e todo mundo já gasta cada vez mais com as assinaturas de streaming, o que significa menos dinheiro sobrando). 

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A SGE pode inaugurar uma nova era, em que a web como a conhecemos hoje simplesmente deixaria de existir. Grande parte dos veículos online desapareceria, bem menos sites e portais conseguiriam se manter (e muitas vezes somente por vias indiretas, como mecenato ou subsídio vindo de outras empresas do mesmo grupo, por exemplo). 

Anúncios.
Disposição de propagandas prevista para o SGE. Elas serão exploradas pelo próprio Google. (Google/Reprodução)

Os donos dos sites podem se opor a isso e bloquear a SGE, impedindo que o Google pegue o conteúdo deles para alimentar as respostas do robô (isso é feito editando um arquivo chamado robots.txt, que fica armazenado no servidor). Mas, na prática, não vão reagir. 

Não fizeram nada para bloquear os snippets, pedacinhos de informação que há anos o Google pega e mostra em sua própria página. E os sites jornalísticos também não conseguiram (com exceção do Canadá e da França) receber pelo uso de suas manchetes no Google News.

Além disso, bloquear a SGE poderá prejudicar o ranqueamento dos sites nos resultados das buscas – e jogar os links deles lá para baixo, onde ninguém irá clicar, reduzindo ainda mais a audiência. Em suma: não há muito como resistir. 

Isso é ruim para a internet, para os usuários e, a médio prazo, até para o próprio Google: se menos sites sobreviverem, ele terá menos conteúdo disponível para alimentar a SGE. 

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Talvez por isso, o Google está sendo cauteloso com sua nova IA. Ela não é habilitada por padrão (você tem que entrar no Search Labs e ativar), e não está disponível em todas as buscas ou plataformas – não funciona no Chrome do celular, por exemplo. 

A SGE também possui um mecanismo de contenção: se você usá-la muito, acima de “X” buscas por dia, o robô deixa de escrever automaticamente – começa a aparecer um botão, chamado “Gerar”, que você precisa clicar para que ele escreva. Isso tem um motivo.

Datacenter do Google em Pryor Creek, Oklahoma. (Google/Divulgação)

A IA requer muito poder de processamento – e exige a compra e o uso de mais servidores, que gastam mais energia elétrica. Se ela fosse habilitada em todas as pesquisas, de forma automática e irrestrita, consumiria todo o lucro do Google com as buscas (a Super de novembro, que será lançada em 17/11, traz um infográfico mostrando isso). 

Mas é bem provável que essa barreira tecnológica acabe caindo, com o surgimento de algoritmos mais eficientes e servidores mais poderosos. A universalização da IA nas buscas parece inevitável. 

Ela transformará a internet em algo bem diferente do que é hoje – para o bem e para o mal. A IA vai ressuscitar a qualidade da busca, que foi se perdendo nos últimos anos (com cada vez mais links patrocinados e páginas de má qualidade tentando ludibriar os algoritmos do Google). 

Ao mesmo tempo, ficará cada vez mais difícil sobreviver na web – não por acaso, o único pedaço da rede que ainda não é controlado pelas gigantes da tecnologia.

Se de fato matar grande parte dos sites, a IA fará com que a web se torne menos diversa e interessante. Em vez de uma floresta densa, cheia de temas e nichos, ela será uma paisagem uniforme e previsível – mais parecida com a monocultura de soja.

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