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Bruno Garattoni

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Vencedor de 15 prêmios de Jornalismo. Editor da Super.

IAs nunca serão conscientes, diz pesquisador do Google

Não é possível reproduzir a consciência de forma puramente lógica, afirma neurocientista da divisão Google DeepMind; entenda o argumento, que contraria discurso oficial da empresa

Por Bruno Garattoni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 Maio 2026, 16h00
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Nos últimos anos, com a aceleração no progresso da IA, a indústria de tecnologia voltou a prometer um sonho antigo: a criação de uma “inteligência artificial geral” (AGI, na sigla em inglês), capaz de raciocinar, ter ideias próprias e aprender sozinha sobre qualquer tema. Uma reprodução da mente humana, só que ordens de magnitude mais poderosa. Mas a psique humana está muito longe de ser compreendida, logo replicada. Isso se aplica a diversos aspectos da mente, a começar pelo principal: a ciência não sabe explicar como as estruturas físicas do cérebro produzem a consciência. Sem consciência, não há pensamento. 

E as IAs jamais serão conscientes. É o que afirma um artigo publicado pelo neurocientista Alexander Lerchner, pesquisador sênior da DeepMind, a divisão de inteligência artificial do Google. O argumento contradiz o discurso da própria DeepMind (cujo diretor, Demis Hassabis, costuma dizer que a AGI será alcançada em uma década). 

Para Lerchner, a impossibilidade de criar IAs conscientes está relacionada ao que ele chama de “falácia da abstração”: a ideia de que seria possível reproduzir a consciência de maneira puramente lógica, sem replicar os processos físicos subjacentes. 

Quando você acessa um chatbot qualquer e começa a dialogar com ele, a máquina não pensa. Analisa a sua pergunta e verifica, estatisticamente, quais palavras costumam ser mais usadas em conversas como aquela – para então montar a resposta. É um processo sintático, não intelectual. As IAs atuais recombinam coisas que já foram ditas e feitas; elas não raciocinam. 

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“Se um sistema artificial se tornasse consciente, seria devido a sua constituição física específica, não a sua arquitetura sintática”, afirma Lerchner. Se a consciência deriva de processos físicos, é impossível replicá-la sem reproduzir (mesmo que digitalmente) esses processos.

Diagrama comparando duas visões da consciência. À esquerda, a
Quadro comparando o conceito de “comportamento emergente” (diagrama A) à ideia de que a consciência deriva da estrutura física do cérebro (diagrama B). (Google DeepMind/Reprodução)
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As empresas de IA costumam responder a esse argumento com a tese do “comportamento emergente”: construa um sistema suficientemente complexo e ele acabará evoluindo sozinho, ou seja, a consciência se formará e emergirá espontaneamente. Lerchner argumenta que isso é impossível, porque as IAs atuais são compostas por sintaxe, mas a consciência não deriva da sintaxe; ela a produz.  

Uma abordagem talvez possível, mas ainda muito longe do viável, é o conectoma: escanear as posições relativas e as conexões de todos os neurônios, para então tentar simular seu funcionamento conjunto. Isso não solucionaria o mistério de como o cérebro gera a consciência – mas pelo menos reproduziria sua estrutura física.

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A ciência já produziu o conectoma completo do cérebro de um verme, o C. elegans, e de uma mosca, a D. melanogaster. Ambos minúsculos: o verme tem apenas 302 neurônios, e a mosca 200 mil. O cérebro humano tem 86 bilhões, que podem formar 100 trilhões de conexões entre si. Uma rede de proporções cósmicas, que seria extremamente difícil de escanear e simular. 

No ano passado, cientistas americanos usaram o supercomputador japonês Fugaku, o sétimo mais veloz do mundo, para simular o córtex cerebral de um rato, com 9 milhões de neurônios. O Fugaku tem 7,6 milhões de núcleos de processamento, que juntos executam 400 quatrilhões de operações por segundo.

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É uma máquina monstruosa, que consome 30 milhões de watts de eletricidade (1,5 milhão de vezes mais do que um cérebro humano). E mesmo assim não conseguiu rodar a simulação em tempo real: levou 32 segundos para reproduzir cada 1 segundo de atividade do córtex do rato.   

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