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Mulher Cientista

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Pesquisadoras brasileiras contam sobre o seu trabalho e os desafios da carreira.

Carolini Kaid quer usar o vírus da Zika contra tumores cerebrais

Pesquisadora desenvolveu uma versão modificada do vírus em laboratório e trabalha para transformá-la em um tratamento seguro.

Por Luiza Lopes 27 fev 2026, 10h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h32
Carolini Kaid quer usar o vírus da Zika contra tumores cerebrais Priorizar nos meus resultados Google

As edições da Superinteressante mal chegavam ao salão de beleza da família, em Mogi das Cruzes (SP), e já viravam motivo de briga. Assinada pelo pai, a revista tinha que passar primeiro pelas mãos dos filhos, que competiam entre si.

As páginas cheias de descobertas, infográficos coloridos e perguntas difíceis foram “o primeiro contato com o mundo científico”, conta Carolini Kaid à Super. “Eles apresentavam os problemas aparentemente impossíveis e mostravam como eles podiam ser resolvidos pela ciência”.

Na escola, resolver problemas era justamente o que mais a atraía. Carol aprendia rápido e se entediava fácil. Uma professora de matemática percebeu que ela terminava as atividades antes dos colegas e passou a lhe dar desafios extras, mais difíceis, para mantê-la ocupada. Funcionou. “Não importava o problema, eu não largava até resolver”, diz.

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O interesse pela ciência se consolidou com o passar dos anos. Ao prestar vestibular, conseguiu nota suficiente para cursar medicina e chegou a ganhar uma bolsa integral. Recusou. “Queria fazer ciência realmente. Queria descobrir, gerar conhecimento”, afirma.

Passou em quatro universidades e escolheu o curso de Ciências Biológicas na USP pela proximidade com a pesquisa. Em seis meses, já estava estagiando em um laboratório.

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No mestrado e no doutorado – ambos pelo Instituto de Biociências da USP –, Carol encontrou o “problema impossível” que definiria sua trajetória: tumores cerebrais pediátricos. 

O alvo eram tumores com características de células-tronco, um tipo de célula que funciona como matéria-prima do corpo. São elas que, no embrião, dão origem a todos os nossos tecidos, do cérebro aos ossos.

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O problema é que, quando o câncer se apropria dessa habilidade, elas viram uma espécie de raiz do tumor. Conseguem se multiplicar sem parar, gerar novas células cancerosas e reconstruir o tumor mesmo depois de quimioterapia ou radioterapia. 

Com o tempo, descobriu que essas células estavam em uma fase intermediária do desenvolvimento do cérebro. Não eram células-tronco “puras”, mas também não eram neurônios prontos. Eram o que se chama de “progenitores neurais”: células jovens, em transição, que ainda conseguem se multiplicar.

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Isso ajudava a explicar por que o tumor era tão agressivo. Era como tentar eliminar algo que ainda estava em formação e que sabia se reconstruir.

Para investigar essas células, Carol precisou sair da bancada e ir até onde o tumor estava, no centro cirúrgico. Ela acompanhava cirurgias e esperava o momento em que o neurocirurgião removia um fragmento do tumor. Esse pedaço, que normalmente seria descartado, virava matéria-prima da pesquisa.

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Assim que recebia a amostra, colocava o material em um tubo com solução nutritiva, dentro de uma caixa térmica, e ia direto ao laboratório – geralmente, de ônibus. “Ainda bem que ninguém sabia que eu estava carregando um pedaço de tumor cerebral”, brinca. 

Em busca da solução

Durante quase dez anos, a rotina de Carol foi uma sequência de tentativas frustradas. No laboratório, ela expunha as células tumorais a todo tipo de ataque, mas nada funcionava. 

A virada aconteceria fora do laboratório. Em 2015, estava grávida do primeiro filho quando o Brasil entrou em alerta por causa do vírus Zika. A epidemia se espalhou rapidamente, e logo vieram os casos de bebês que nasciam com microcefalia, uma má-formação grave do cérebro. Como milhões de gestantes brasileiras, ela sentiu medo. Mas, como cientista, sentiu também curiosidade.

Uma característica do vírus chamou sua atenção: ele atacava o cérebro em desenvolvimento. Logo os estudos começaram a explicar por quê. O Zika não infectava qualquer célula. Ele tinha como alvo preferido justamente os progenitores neurais, ou seja, o mesmo tipo de célula que Carol estudava nos tumores.

Se o vírus consegue invadir e destruir essas células saudáveis em fetos, ele pode fazer o mesmo com as versões cancerosas? Ela decidiu testar.

“Era um experimento simples. Eu já tinha as células e coloquei o vírus em contato”, relembra. Três dias depois, abriu a incubadora e olhou as placas. As células estavam mortas.

“Minha primeira reação foi: alguém cuspiu aqui e as matou”, diz. Afinal, contaminações acidentais acontecem no laboratório. Bastava uma bactéria, um fungo ou um erro técnico para arruinar tudo. Mas havia um detalhe: o controle, a placa idêntica que não tinha recebido o vírus, estava intacto.

Carol correu para chamar o orientador. Repetiu o experimento. Depois, de novo. E de novo. O resultado se confirmava.

O trabalho virou capa da revista científica Cancer Research, uma das mais importantes da área, e rendeu a ela o Prêmio Capes de Melhor Tese do Brasil em 2020. Foi a primeira demonstração de que o vírus Zika poderia ser usado como arma contra tumores cerebrais pediátricos.

A notícia começou a circular e famílias passaram a procurar o laboratório em que ela trabalhava. Alguns vinham de longe. “Era pai com criança batendo na porta. Até teve um paciente que veio acamado do Recife. Ele pegou um avião especial para chegar.”

Eles queriam tratamento, mas ainda era uma pesquisa básica, muito longe de virar terapia. Não existia medicamento, nem ensaio clínico, nem sequer previsão de começar um. 

E havia um outro obstáculo para eventuais testes: o vírus que matava as células tumorais no laboratório era o mesmo que, fora dali, podia causar uma doença grave. Não dava para simplesmente injetá-lo em um paciente. “Era preciso transformá-lo num vírus sintético”, diz. Ou seja, reconstruir o Zika do zero.

Brincando de Lego

Todo vírus é, em resumo, uma sequência de RNA com instruções biológicas. Algumas dessas instruções permitem que ele invada células. Outras fazem com que ele se replique e, assim, cause a doença. Carol começou a desmontar esse código, pedaço por pedaço.

“Era como brincar de Lego”, conta. Ela removeu os trechos ligados à doença e manteve o que interessava: a capacidade quase única do Zika de encontrar células do cérebro e entrar nelas. O resultado foi uma espécie de vírus “esburacado”.

Carol passou a preencher esse “buraco” com novas instruções. No começo, a ideia era provar que o vírus modificado ainda conseguia entrar nas células. Para isso, inseriu um gene marcador, que fazia as células infectadas brilharem em verde. Funcionou, e também revelou algo maior.

“Ele tinha transformado o vírus em um vetor viral. Ou seja, podia entregar qualquer coisa para o cérebro, tipo um Uber. Você coloca o passageiro e entrega o que quiser para o cérebro”, diz.

No câncer, ele ainda funciona como arma, já que invade a célula tumoral e a destrói por dentro. Mas, se estiver carregando um gene terapêutico, pode substituir proteínas defeituosas, corrigir falhas genéticas, tratar doenças até então sem solução. É uma segunda utilidade para esse vírus-Frankenstein. 

Inclusive, um dos outros projetos que Carol está envolvida mira uma forma rara e grave de autismo causada por mutações no gene Shank3, essencial para a comunicação entre neurônios. Sem ele, a criança perde habilidades que já tinha desenvolvido e pode sofrer crises epilépticas severas. A estratégia é usar o vírus como transporte.

“No vetor, colocamos o gene dessa proteína que está mutada. Dessa forma, fazemos uma reposição proteica”, explica. A ideia é que o paciente receba uma injeção na corrente sanguínea. A partir daí, o vírus faz o que sabe fazer melhor: encontra o cérebro.

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores em laboratório e em animais, a tecnologia ligada ao câncer ainda está na fase pré-clínica (ou seja, não foi testada em pacientes, etapa essencial para saber se um tratamento funciona). 

O principal obstáculo é que transformar uma descoberta em medicamento exige mais do que pesquisa. É preciso produzir o vírus em escala, seguindo padrões industriais rígidos, com controle de qualidade e aprovação da Anvisa – um processo chamado manufatura.

Esse tipo de desenvolvimento, que pode durar um par de anos, não costuma acontecer dentro da universidade, que é voltada à produção de conhecimento científico. Por isso, Carol deixou o mundo acadêmico e fundou sua primeira startup, entrando em um ramo novo e, segundo ela, hostil.

“O ambiente de negócios é extremamente machista”, destaca. Ela percebeu que reuniões eram dominadas por homens e que sua posição era frequentemente questionada.

Em sua primeira empresa, entrou em conflito com investidores que queriam vender a tecnologia ao exterior. Recusou. Acabou deixando a firma e fundando outra, mantendo o objetivo original.

Hoje, sua equipe desenvolve versões sintéticas do vírus em condições industriais, etapa essencial para que ele possa ser testado em pacientes. Seu objetivo é levar a terapia até o sistema público e, depois, além. “Meu sonho é esse: a primeira tecnologia brasileira, desenvolvida no Brasil, para o mundo.”

Esse trabalho levou Carol a ser uma das premiadas da 6ª edição do programa 25 Mulheres na Ciência, promovido pela 3M América Latina. A edição teve como tema “Mulheres na Manufatura”, justamente a área que ela passou a dominar para tirar a tecnologia da bancada e levá-la aos hospitais.

“Fomentar a participação da mulher nesse campo fortalece a capacidade do setor de entregar melhorias contínuas – e este projeto foi projetado para reconhecer e apoiar isso”, declarou Ana Sbaglia, líder do Grupo de Liderança Feminina da 3M Brasil, em comunicado.

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