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Por que humanos se beijam?

Instintivo ou cultural? Saiba o que a ciência tem a dizer.

Por Maria Clara Rossini 14 jul 2022, 21h07

Lábios e língua têm mais de 1 milhão de terminações nervosas (cem vezes mais que os dedos), o que torna essas regiões extremamente sensíveis ao toque. Toque feito, o beijo libera uma série de hormônios no cérebro ligados à sensação de prazer – serotonina, dopamina e ocitocina. 

Mas há uma outra questão nesse porquê: de onde veio o ato de encostar as bocas? Uma hipótese sugere que ele surgiu no nosso ancestral comum com os chimpanzés, de 8 milhões de anos atrás. Porque chimpanzés e bonobos, seus primos, se beijam também. E não só: as mães mastigam a comida para os filhotes e dão na boca deles. É provável que o nosso ancestral comum com esses outros primatas já fizesse isso, então, e tenha deixado o instinto do beijo como um legado para as três espécies a que deu origem: chimpanzés, bonobos e humanos.  

Só que isso não explica como o beijo passou a ter conotação sexual. O mais provável é que ele tenha se tornado uma forma de “cheirar” os nossos parceiros de perto. Pensa só: cães, primatas, roedores, felinos e todo o tipo de mamífero escolhem seus parceiros, em grande parte, pelo odor.

E isso também vale para os humanos. Um estudo já clássico, de 1996, mostrou que as mulheres preferem homens com um sistema imunológico que seja diferente – e complementar – ao delas. Dessa forma, o casal produzirá filhos com um organismo capaz de combater mais doenças.

O experimento foi assim: pesquisadores pediram para que os voluntários homens usassem camisas ao longo do dia, e depois colocaram as peças de roupas em caixas. As voluntárias mulheres cheiraram as camisas, sem conhecer o dono, e classificaram se os odores eram atraentes ou repulsivos. Não deu outra: elas se sentiram mais atraídas por aqueles com uma “assinatura” olfativa imunológica diferente da delas.

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O nosso olfato é menos desenvolvido em comparação a outros animais. Por isso, faz sentido que os humanos tenham que aproximar os rostos para captar o odor do outro e escolher melhor um parceiro. Daí, a evolução nos “recompensou” ao lotar a boca de terminações nervosas e encher o cérebro de hormônios.

Só que beijar não é a única estratégia utilizada para sentir o odor e feromônios do parceiro. Uma pesquisa realizada em 2015 analisou 168 culturas diferentes e verificou que o beijo romântico (o que exclui formas de cumprimento, por exemplo) está presente em apenas 46% delas. Ou seja: nem todas as culturas dão vazão ao instinto do beijo.

Esse mesmo estudo verificou que quanto mais roupas uma sociedade usa, mais ela beija. “Não encontramos o beijo em culturas de caçadores-coletores [como as populações indígenas]. Só há uma exceção: os inuítes, que moram no Ártico”, disse o professor de antropologia William Jankowiak, que conduziu o estudo, à BBC.

Segundo o pesquisador, as sociedades caçadoras-coletoras não costumam usar roupas – logo, outras partes do corpo ficam expostas à aproximação e toque. A única exceção são os inuites, que mantêm apenas o rosto descoberto, devido ao frio. Portanto, essa é a parte do corpo que o parceiro em potencial pode cheirar – ou melhor, beijar.

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