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Pasteur só revolucionou a Química graças à arte

O francês descobriu a quiralidade – princípio químico hoje essencial para a produção de remédios – fazendo um paralelo entre moléculas e litogravuras

Por Bruno Vaiano 14 jun 2017, 21h59

Para quem não é fã de ciência, o médico e cientista francês Louis Pasteur já virou nome de rua (e de hospital, é claro) faz tempo. Ele morreu há mais de um século, em 1895, e no Brasil só costuma ser citado de passagem em livros didáticos – nada muito grandioso.

É irônico, portanto, que seu nome apareça, ainda que alterado, em todas as caixas de leite do mundo: ele é o criador da pasteurização, processo de esterilização de alimentos perecíveis que envolve aquecê-los a uma temperatura muito próxima da ebulição e então resfriá-los repentinamente. O choque térmico mata na hora qualquer organismo com potencial para causar doenças.

Para entender o quanto essa sacada foi revolucionária, basta lembrar que, na época em que ele viveu, a própria ideia de que males como a cólera fossem causados por criaturas invisíveis a olho nu era questionável. O trabalho de Pasteur fixou o conceito de “germe” no imaginário popular, e foi um dos passos mais marcantes da ascenção da medicina como a conhecemos hoje.

Não satisfeito em resolver as principais questões de saúde pública do século 19, ele decidiu que também mudaria a história da química: foi o primeiro a notar o fenômeno da quiralidade – em bom português, o fato de que certas moléculas têm versões invertidas de si próprias, uma espécie de “lado B” oculto que é só superficialmente igual, mas que pode ter efeitos radicalmente diferentes em aplicações farmacêuticas.

 

Ficou difícil? Calma. Primeiro imagine que há um cubo vermelho, liso, na frente de um espelho. Seu reflexo será idêntico à peça original, certo?

Outras coisas – a maior parte delas, de fato – não são perfeitamente uniformes como o cubo, e portanto não tem um reflexo idêntico. É o caso de qualquer texto. Encoste agora seu celular no espelho e você verá todas as palavras do meu post ao contrário, como o “ambulância” que vem escrito no capô dos veículos de resgate (É mais fácil entender vendo a imagem neste link aqui).

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O que Pasteur descobriu é que muitas moléculas são como palavras, e não como cubos: a versão refletida não equivale à original. E que as versões invertidas podem ter consequências imprevisíveis no corpo humano.

A previsão foi quase profética. Muito tempo depois, nas décadas de 1950 e 1960, um medicamento chamado Talidomida, receitado por médicos norte-americanos para aliviar enjoos matinais, teve um fim trágico: a versão “espelhada” de seu princípio ativo, que não foi levada em consideração, era muito mais violenta e causou problemas congênitos graves nos bebês de mulheres grávidas – justamente as que mais precisavam do remédio.

Agora, o médico e pesquisador Joseph Gal, da Universidade de Colorado, propõe que a descoberta precoce desse princípio tão importante (Pasteur tinha apenas 28 anos) só foi possível por causa da experiência prévia do cientista com litogravuras – e tem em mãos uma carta em que o possível paralelo entre a química e a arte fica evidente.

“Eu acho que nunca produzi algo tão bem desenhado e tão parecido com o original”, afirma Pasteur em uma correspondência aos pais em 1841, sete anos antes da descoberta da quiralidade, em 1948. Ele comemorava a qualidade de um retrato que havia acabado de terminar – na época, não considerava seriamente a carreira de cientista. “Todos que viram acharam impressionante. Mas eu temo muito uma coisa: que no papel o retrato não fique tão bom quanto na pedra, é isso que sempre acontece.”

A preocupação do jovem artista, com apenas 19 anos, decorria do seguinte: uma litogravura é como um carimbo, que é desenhado com gordura sobre uma superfície de pedra. Terminado o desenho, o autor aplica tinta sobre essa matriz e então pressiona o papel contra ela. O resultado é a transposição da ilustração original – o registro na folha é um espelho perfeito do que estava na rocha originalmente.

Em outras palavras, as obras de Pasteur, como certas moléculas, existiam na versão original e na refletida – o que pode ter desencadeado um momento eureka! que superou de longe, por mera intuição, qualquer pesquisador que tivesse se debruçado sobre o assunto até então.

“Muitos cientistas bem mais conhecidos e cheios de realizações já haviam estudado as mesmas moléculas e substâncias”, afirma Gal ao The New York Times. Sua teoria sobre a descoberta da quiralidade foi publicada em detalhe no periódico Nature.

A história é mais do que plausível: é uma prova de que arte e ciência são uma ótima dupla. Não fosse esse contato inusitado com a litogravura há mais de um século, o desenvolvimento de medicamentos básicos na nossa rotina talvez estivesse algumas décadas atrasado.

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